Artigos e Opinião

ARTIGO

Integridade municipal: a nova vantagem competitiva na era da Rota Bioceânica

Marco Aurelio Borges de Paula - Professor de Compliance na FAAP, consultor de integridade e governança pública, e integrante do Observatório Nacional de Integridade e Transparência do Conselho Nacional de Justiça (CNJ)

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A Rota Bioceânica inaugura um novo ciclo para Mato Grosso do Sul. Mais do que um corredor logístico, ela representa uma nova fronteira de competitividade para os municípios, um convite à profissionalização da gestão e à construção de confiança institucional.

Em tempos de restrição fiscal e critérios cada vez mais rigorosos de bancos e agências de fomento, o diferencial entre os municípios não será apenas a capacidade de executar obras, mas de demonstrar governança, planejamento e integridade.

Integridade, nesse contexto, é mais do que ética na conduta: é inteireza entre propósito, valores e resultados. É o alicerce que conecta as dimensões econômica, social e ambiental da gestão pública local.

Significa gerir com responsabilidade (fiscal, social e ambiental), transparência nas decisões e controle dos riscos, orientando a gestão para o desenvolvimento de longo prazo – o mesmo tripé exigido pelos organismos internacionais quando avaliam a capacidade institucional de um governo local.

Municípios que operam com essa visão conquistam o que nenhuma lei pode impor: confiança.

E é essa confiança – sustentada por governança responsável e transparente – que fortalece a capacidade dos municípios de firmar convênios federais, atrair parcerias público-privadas e acessar financiamentos multilaterais baseados em critérios de credibilidade e boa gestão.

As instituições que financiam o desenvolvimento valorizam gestões com visão de longo prazo, prestação de contas e coerência entre discurso e prática.

Cidades que demonstram esses atributos são vistas como parceiros previsíveis e de baixo risco, capazes de transformar recursos em resultados tangíveis. Quando a integridade é incorporada como valor de governo, ela também melhora o ambiente de negócios.

A previsibilidade das decisões, a redução de custos de transação e a confiança entre setor público e privado estimulam novos investimentos, fortalecem cadeias produtivas locais e geram empregos de melhor qualidade.

Empresas buscam ambientes estáveis, em que as regras são claras e os compromissos são cumpridos com previsibilidade. 

É nesse tipo de ecossistema – ético, confiável e estável – que a economia regional floresce e se torna atrativa a longo prazo.

A nova lógica da gestão pública é clara: recursos não chegam a quem pede mais, mas a quem demonstra mais credibilidade.

Prefeituras com processos claros, equipes técnicas qualificadas e liderança ética reduzem incertezas, elevam a confiança dos financiadores e se tornam mais competitivas na disputa por verbas e projetos estruturantes.

Cada decisão tomada com integridade fortalece o tecido de confiança que sustenta a sociedade e o ambiente de negócios. 

Nessa visão, ética não é obstáculo à eficiência, é o que garante que a eficiência gere valor duradouro e legitimidade institucional.

A Rota Bioceânica abre caminhos físicos entre oceanos, mas o verdadeiro progresso dependerá dos corredores de confiança que os municípios souberem construir.

Quando a gestão pública combina propósito, valores e desempenho, transforma investimento em legado. Integridade é o motor invisível da nova economia do desenvolvimento – a que une reputação, sustentabilidade e capacidade real de entrega.

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EDITORIAL

Gestão da Saúde sob novo teste

No fim das contas, o debate não deve se limitar à forma de gestão, mas ao resultado entregue ao cidadão. O novo modelo deve reduzir filas e ampliar atendimentos

26/03/2026 07h15

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A decisão de Campo Grande de transferir a gestão dos Centros Regionais de Saúde 24 horas para organizações sociais inaugura um novo capítulo na administração pública municipal. Trata-se de uma medida que desperta debates legítimos, tanto pela sensibilidade do tema quanto pela importância estratégica dessas unidades para a população.

Ainda assim, é preciso reconhecer que a proposta, se bem estruturada, pode representar uma oportunidade concreta de melhoria no atendimento.

A rede de saúde pública enfrenta desafios conhecidos: filas, demora, falta de profissionais, problemas de gestão e dificuldade para garantir atendimento digno e eficiente. Esses obstáculos não são exclusivos da capital sul-mato-grossense, mas atingem boa parte do País.

Diante desse cenário, testar novos modelos administrativos deixa de ser apenas uma alternativa e passa a ser uma necessidade. A população merece serviços mais ágeis, humanizados e resolutivos, sobretudo nas unidades de atendimento 24 horas, que funcionam como porta de entrada para milhares de cidadãos.

A experiência com organizações sociais já foi adotada em diferentes localidades, com resultados variados. Há casos de sucesso, com ganho de eficiência, maior flexibilidade na contratação de profissionais e melhor organização dos serviços.

Contudo, também existem exemplos negativos, marcados por falta de controle, desperdício de recursos e até denúncias de irregularidades. Por isso, o êxito da iniciativa não depende apenas do modelo escolhido, mas da forma como ele será implantado e fiscalizado.

É justamente nesse ponto que reside a principal atenção. O Município precisa estabelecer mecanismos rigorosos de controle, com metas claras, indicadores de desempenho e avaliação permanente dos resultados.

A transparência deve ser total, com divulgação de contratos, custos, metas e relatórios de desempenho. A sociedade tem o direito de saber como os recursos públicos são aplicados e quais melhorias estão sendo efetivamente alcançadas.

Outro aspecto essencial é a atuação dos órgãos de controle. O acompanhamento próximo do Ministério Público será fundamental para garantir que o modelo não se desvie de seu objetivo principal: melhorar o atendimento à população. A fiscalização preventiva evita distorções e fortalece a credibilidade da iniciativa.

No fim das contas, o debate não deve se limitar à forma de gestão, mas ao resultado entregue ao cidadão. Se o novo modelo for capaz de ampliar o acesso, reduzir filas e qualificar o atendimento, terá cumprido seu papel.

O mais importante é assegurar que os bilhões destinados à Saúde sejam aplicados com eficiência, responsabilidade e foco em quem mais precisa. A população não espera apenas mudanças administrativas, mas melhorias concretas no cuidado com a vida.

Artigo

TEA em adultos: por que o diagnóstico tardio mistura alívio e dúvidas?

Entre adultos, é comum que o diagnóstico ocorra tardiamente, especialmente em casos com menor prejuízo funcional

25/03/2026 07h45

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O diagnóstico tardio do transtorno do espectro autista (TEA) em adultos costuma provocar uma mistura de sentimentos como alívio, dúvidas e interpretações equivocadas, como associação com inteligência. A condição segue cercada de desinformação, independentemente da idade. O que acaba gerando muitas dúvidas.

O TEA é uma das principais condições neurodivergentes, caracterizado por diferenças na comunicação social, comportamento e processamento sensorial. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 70 milhões de pessoas vivem com o transtorno no mundo. No Brasil, o Censo Demográfico de 2022 aponta 2,4 milhões de diagnósticos, o equivalente a 1,2% da população.

Entre adultos, é comum que o diagnóstico ocorra tardiamente, especialmente em casos com menor prejuízo funcional. Essas pessoas, muitas vezes classificadas no nível 1 de suporte, conseguem estudar, trabalhar e se relacionar, o que contribui para que sinais passem despercebidos.

Ainda assim, é frequente o relato de sensação de desconexão e dificuldade de pertencimento, que leva à busca por ajuda psicológica.

Em muitos casos, o TEA aparece inicialmente associado a quadros como ansiedade, depressão ou fobia social. Também há confusão diagnóstica com transtorno do deficit de atenção com hiperatividade (TDAH) e altas habilidades, além da possibilidade de comorbidades.

Quando o diagnóstico é tardio, o prognóstico tende a ser mais desfavorável, e o nível de incompreensão aumenta – tanto por parte das pessoas ao redor quanto da própria pessoa em relação ao seu funcionamento.

Com frequência, observo pacientes relatarem que percebem e sentem o mundo de forma diferente, além de enfrentarem dificuldades para manter o convívio social. Diante disso, muitos iniciam tratamento para depressão ou fobia social e, apenas posteriormente, recebem o diagnóstico de TEA.

O momento do diagnóstico pode gerar reações diversas. Há quem sinta alívio ao se compreender, enquanto familiares podem expressar sentimento de culpa por não terem percebido alguns sinais. A falta de informação também faz com que alguns adultos resistam a se reconhecer como neurodivergentes.

É importante destacar que o TEA, assim como o TDAH e outros transtornos, não tem relação com nível de inteligência. Quando se fala de TEA, estamos falando de um cérebro neurodivergente que tem uma alteração no funcionamento cerebral, que pode coexistir tanto com deficits quanto com altas habilidades.

Sem diagnóstico, as experiências podem parecer incoerentes e gerar culpa. Com a identificação adequada, a psicoterapia se torna além de um espaço de escuta, um espaço de construção de estratégias práticas, transformando dificuldades difusas em caminhos possíveis de adaptação, estratégias concretas e qualidade de vida.

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