Artigos e Opinião

OPINIÃO

Juliane Penteado Santana: "Auxílio Emergencial : quem tem direito e quais as repercussões"

Advogada previdenciarista e professora

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Foi aprovado o projeto de lei emergencial para trabalhadores informais de baixa renda, a ser concedido durante a pandemia do novo coronavírus (PL 1.066/2020). Visando coibir uma possível crise econômica nesse momento, agora o projeto aguarda a aprovação do Presidente da República. O valor será de R$ 600,00 podendo somar até R$ 1.200 por família, sendo que a mãe solo tem direito ao valor de R$ 1.200 integral. O benefício tem validade de três meses, podendo ser estendido por mais tempo.

Quem tem direito?

Para ter acesso a esse benefício é preciso preencher alguns requisitos: ser maior de 18 anos, não ter emprego formal, não ser titular de benefício previdenciário ou assistencial, não ser beneficiário de seguro desemprego ou programa de transferência de renda federal, exceto o bolsa família. Ter renda mensal por pessoa até meio salário mínimo (R$ 522,50) ou renda familiar mensal de até três salários mínimos (R$ 3.135,00) e ainda que no ano de 2018 não tenha tido rendimentos tributários acima de R$ 28. 559,70.

Tem direito ainda: Microempreendedor Individual (MEI), Contribuinte Individual do INSS que trabalhe por conta própria, o trabalhador informal empregado, autônomo ou desempregado, e o intermitente inativo inscrito no cadastro único (cadÚnico) para programas sociais do governo até 20 de março de 2020. Atenção para esse detalhe: se esse segmento não estiver cadastrado deverá ser feita uma autodeclaração, que ainda será disponibilizada no site do governo para aí sim cruzar as informações e ver a possibilidade da concessão desse benefício.

Sobre BPC e Auxílio-Doença  

Quem está na fila do INSS necessita ser amparado na sua necessidade, seja por estar inválido, desempregado ou doente. É importante ressaltar que quem está na fila do Benefício de Prestação Continuada (BPC), requereu e não teve a concessão, o projeto autoriza a antecipação de R$ 600,00. Já para quem está na fila para receber o auxílio-doença e se enquadrar nos pré-requisitos receberá um salário mínimo por mês, durante os três meses.

A proposta estabelece ainda que somente duas pessoas da mesma família podem receber o auxílio emergencial. Para quem recebe o bolsa família e o valor do benefício emergencial for mais vantajoso, o auxílio o substituirá automaticamente enquanto durar essa distribuição de renda. O governo determinou que os bancos públicos é que pagarão o benefício.  

De acordo com informações do Senado Federal, a Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado estima que o auxílio emergencial vai beneficiar diretamente 30,5 milhões de cidadãos — cerca de 14% da população do país, segundo os dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). E a estimativa de seu custo é de R$ 59,9 bilhões em 2020 — o equivalente a 0,8% do Produto Interno Bruto (PIB) do país no ano passado.

O projeto de lei foi sancionado ontem pelo Presidente da República, com alguns vetos, mas que não impactam diretamente para o recebimento na forma que dispusemos acima. Contudo, ainda precisa ser publicada e colocada em prática para traçar os passos e caminhos na concretização da medida.

Tal mecanismo auxiliará a diversas pessoas e suas famílias a enfrentarem com mais dignidade esse período difícil que vivencia todo o planeta. Trata-se de aplicabilidade prática que evidencia a importância da proteção social em um Estado Democrático de Direito.

EDITORIAL

O comércio na nova "Guerra Fria"

O desempenho foi alcançado justamente em um período marcado por incertezas no comércio internacional, demonstrando que os produtos de MS são competitivos

11/07/2026 07h15

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Os acontecimentos desta semana ajudam a compreender que o comércio internacional deixou de ser apenas uma questão de competitividade e passou a refletir, cada vez mais, as disputas geopolíticas entre as grandes potências.

As reportagens publicadas pelo Correio do Estado mostram, sob diferentes perspectivas, como Mato Grosso do Sul está inserido nesse novo cenário e como decisões tomadas a milhares de quilômetros de distância produzem efeitos diretos sobre a economia estadual.

Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) revelam que a participação da China nas exportações sul-mato-grossenses voltou a crescer.

Ao mesmo tempo, mostram que, após um aumento das compras norte-americanas no primeiro trimestre, os embarques para os Estados Unidos perderam ritmo justamente depois do anúncio de um novo tarifaço pela administração de Donald Trump. 

Nesta edição, o Correio do Estado também revela que empresas de Mato Grosso do Sul participam ativamente das discussões sobre a legalidade e as justificativas das tarifas impostas pelos Estados Unidos aos produtos brasileiros.

O debate ultrapassa as fronteiras do Direito Comercial. Trata-se de uma disputa que envolve diplomacia, influência econômica e posicionamento estratégico em um mundo cada vez mais dividido entre dois grandes polos de poder.

É justamente a leitura conjunta desses fatos que permite uma conclusão relevante. O tarifaço norte-americano não pode ser interpretado apenas como uma medida de proteção comercial.

Ele se encaixa em um contexto mais amplo de competição entre Estados Unidos e China, frequentemente tratado como uma nova “Guerra Fria”, desta vez travada menos por armamentos e mais por cadeias produtivas, tecnologia, investimentos e comércio exterior.

Nesse ambiente, o Brasil, assim como Mato Grosso do Sul, ocupa uma posição peculiar. À medida que os Estados Unidos elevam barreiras tarifárias, a China amplia sua presença como principal destino das exportações brasileiras.

Em vez de reduzir a capacidade de venda dos produtos nacionais, a crescente demanda chinesa acaba absorvendo boa parte dessa produção e mitigando os efeitos econômicos pretendidos pelas restrições impostas por Washington.

Os números ajudam a explicar esse movimento. Somente no mês passado, Mato Grosso do Sul exportou US$ 1,2 bilhão em mercadorias, estabelecendo um novo recorde para o Estado.

O desempenho foi alcançado justamente em um período marcado por incertezas no comércio internacional, demonstrando que os produtos sul-mato-grossenses continuam competitivos e encontram mercados dispostos a comprá-los.

Mato Grosso do Sul, felizmente, demonstra capacidade para enfrentar esse ambiente complexo. A força de sua produção agroindustrial continua abrindo portas em diferentes mercados e reduzindo a dependência de um único parceiro comercial.

Mais do que nunca, compreender o cenário internacional deixou de ser uma tarefa exclusiva dos diplomatas. Hoje, para quem produz e exporta, a geopolítica tornou-se tão importante quanto o próprio comércio.

ARTIGOS

Um apelo ao STF

O povo brasileiro em geral e toda a imprensa apresentam críticas e posições favoráveis ou contrárias, tratando o Supremo Tribunal Federal como se fosse um poder político, e não o guardião da Constituição Federal

10/07/2026 07h45

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De lá para cá, sempre mantive contato com todos eles – uma proximidade prazerosa que não ocorre atualmente porque, infelizmente, já não consigo mais viajar. Escrevi obras em coautoria com vários ministros e partilho cadeiras em diversas academias literárias e jurídicas com vários deles.

Somente com o ministro Moreira Alves, foram 32 livros que publicamos.

Gostaria, entretanto, de tratar de algo que os recentes editoriais e matérias jornalísticas têm criticado duramente, ou seja, o debate público entre os ministros da Suprema Corte.

Trata-se tanto de divergências sobre o Código de Ética, que uns ministros querem e outros não, quanto de ataques públicos entre colegas, prática proibida pela Lei Orgânica da Magistratura Nacional (Loman).

No momento em que tais divergências são levadas a público, fica demonstrado que esses embates estão afetando a política, a estabilidade institucional e a segurança jurídica.

Um exemplo disso é o que a mídia e os jornais comentaram sobre a recente entrevista do ministro Gilmar Mendes no programa “Roda Viva da TV Cultura”, que acabou gerando inúmeras especulações, a ponto de o povo brasileiro estar tomando partido nesta ou naquela linha de pensamento.

Sou inteiramente favorável que a Suprema Corte recupere o prestígio e a respeitabilidade que possuía no passado e, por isso, faço o apelo, como um velho advogado, para que os senhores ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) voltem a ter uma conduta semelhante àquela que conferiu à Instituição a grande respeitabilidade que possuía. As divergências devem ser internas e não é adequado que sejam levadas a público.

Ora, cultura e valores todos os ministros têm. Posso divergir – e tenho divergido – de várias decisões, mas os debates que estão ocorrendo deveriam se restringir estritamente ao plano jurídico, para não serem explorados pelos jornais como se representassem posições políticas de A, B ou C.

A proposta do ministro Edson Fachin de que se institua um código de ética é, a meu ver, de grande utilidade para todos os integrantes da Suprema Corte. Os ministros André Mendonça, Luiz Fux e Cármen Lúcia também defendem a necessidade dessa normatização.

Creio que um código de ética seria de grande utilidade para todos os ministros, atuais e futuros, pois auxiliaria efetivamente os magistrados a se conduzirem perante a opinião pública.

Divergências conceituais e jurídicas devem continuar sendo apresentadas publicamente nas sessões de julgamento, mas os conflitos de comportamento e as discordâncias sobre a forma de agir deveriam, evidentemente, ser tratados de maneira reservada.

Mesmo que haja críticas mútuas a fazer, que estas ocorram nas sessões internas e administrativas, permitindo que o perfil do STF volte a emergir como o da instituição que, no passado, era a mais respeitada do Brasil.

A democracia não existe em função de palavras. Dizer “eu sou democrático”, “eu defendo a democracia” ou “sou contra a crítica àqueles que não querem a democracia” resume-se apenas a palavras. A democracia faz-se com ações, com exemplos. Dizia São Josemaria Escrivá que “frei exemplo é o melhor pregador”.

A melhor defesa da democracia é a estabilidade das instituições e a respeitabilidade que elas possuem perante o povo.

Não estou, evidentemente, pretendendo dar conselhos ou dizer aos ministros o que fazer, mas peço que reflitam, para que o STF volte a ser o que era no passado.

Afinal, hoje, o povo brasileiro em geral e toda a imprensa apresentam críticas e posições favoráveis ou contrárias, tratando o Supremo Tribunal Federal como se fosse um poder político, e não o guardião da Constituição Federal, que garante a segurança jurídica por ser um poder imparcial e acima de qualquer suspeita.

É exatamente por sempre ter defendido o STF, desde os meus bancos acadêmicos, que faço esse apelo. Os professores que tive e que pertenceram à Suprema Corte sempre me ensinaram a lutar por ela, pois a garantia dos direitos no País depende de seu tribunal máximo.

Se a Suprema Corte perde a respeitabilidade perante o povo, automaticamente a democracia corre risco.

Evidentemente, respeito os meus amigos da Suprema Corte tanto que em meus artigos e nas redes sociais, nunca falo mal de nenhum dos ministros. Posso criticar suas posições, mas nunca critico as pessoas ou a cultura de cada um deles.

A Excelsa Corte, contudo, precisa voltar a ser o que era no passado. Só assim teremos, realmente, a defesa do Estado Democrático de Direito e a salvaguarda da democracia.

É, pois, com esse propósito que venho, mais uma vez – respaldado pelos meus 91 anos de idade, 68 anos de advocacia e 62 anos de magistério universitário, com livros publicados em 21 países, além do privilégio de pertencer a 42 academias e somar 45 títulos acadêmicos –, demonstrar, sem nenhuma vaidade pessoal, que a minha vida sempre foi inteiramente dedicada ao Direito, razão pela qual dirijo este apelo ao STF em prol de um resgate institucional.

Esse resgate institucional, contudo, não depende de reformas estruturais ou de medidas judiciais complexas, mas sim de um esforço estritamente moral e de conduta.

O apelo que aqui se faz é um pedido prático para que se iniciem os debates institucionais, inclusive com a urgente adoção de um código de ética – como bem sugerido pelo ministro Edson Fachin –, de modo que as naturais e salutares divergências jurídicas – bem como os eventuais conflitos pessoais – permaneçam restritas ao ambiente reservado das sessões internas, preservando a imagem da Corte perante a opinião pública.

Dirijo, portanto, este clamor àqueles que são os guardiões máximos da justiça no Brasil para que conduzam o Supremo Tribunal Federal, o pretório excelso do nosso País, de volta ao patamar de respeito e admiração que possuía na época do ministro Moreira Alves.

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