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Mundo do trabalho e saúde mental: novos desafios

Em um mundo cada vez mais globalizado e com ampliação da competitividade, a pressão pela entrega de resultados mostra-se crescente

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O aumento exponencial no número de casos de burnout entre os anos de 2021 e 2025, conforme recente publicação de dados pelo Ministério da Previdência Social (MPS), demonstra que algumas questões relacionadas com o mundo do trabalho estão afetando mais sensivelmente as pessoas nos últimos tempos.

A entrada em vigor da nova redação da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), referente à saúde mental, ocorre oportunamente, pois fornece instrumento a ser utilizado no combate ao fenômeno de saúde pública descrito.

O ambiente de trabalho exige desempenho e impõe demandas ao prestador de serviços em vários sentidos, como é notório.

Ocorre que as modificações verificadas no mundo laboral parecem ter colocado exigências para as quais o trabalhador atual não se encontra apto (ao menos, por enquanto), provocando o aumento de casos de afastamento em decorrência de burnout, que passou de 823 em 2021 para 7.595 em 2025.

Evidentemente, pode ser que, no passado, houvesse alguma dificuldade de diagnóstico ou de reconhecimento da moléstia, mas o fato é que os números sinalizam um descompasso entre a forma como o trabalho está sendo realizado e a saúde do obreiro.

De acordo com o Ministério da Saúde, a síndrome de burnout, ou síndrome do esgotamento profissional, “é um distúrbio emocional com sintomas de exaustão extrema, estresse e esgotamento físico resultante de situações de trabalho desgastante, que demandam muita competitividade ou responsabilidade”.

Como é possível observar, há uma ligação intrínseca entre o problema de saúde e o ambiente de trabalho, apresentando três sintomas.

Ao que parece, pelo intervalo considerado quanto aos dados de afastamento, é possível fazer algumas ilações quanto aos motivos do expressivo aumento de casos do mencionado problema de saúde.

Durante e após o período pandêmico, os cidadãos passaram a trabalhar cada vez mais conectados, com o auxílio de tecnologias de informação e comunicação (TIC), de modo a poder realizar serviços fora do estabelecimento do empregador, em regime de teletrabalho, popularmente chamado de home office.

Nesta forma de prestação de serviço, além da falta de contato pessoal com os colegas (algo que, em determinados casos, pode aumentar o isolamento social), o trabalhador tende a laborar com maior tempo de tela, conectado ao sistema do empregador.

O referido uso da tecnologia, embora benéfico em alguns sentidos (como a desnecessidade de deslocamento e perda de tempo em trânsito, por exemplo), pode ser deletério em certos pontos (como a sensação de monitoramento constante e a dificuldade de exercer o direito à desconexão).

A exaustão do trabalhador provocada pelo quadro delineado surge como consequência previsível neste contexto. Em um mundo cada vez mais globalizado e com ampliação da competitividade, a pressão pela entrega de resultados mostra-se crescente, mas o organismo humano tem seus limites, como demonstra o aumento de afastamentos por burnout.

Nesse contexto, a NR-1, referente ao gerenciamento de riscos ocupacionais, com início de vigência da nova redação a partir de 25 de maio de 2026, pode ser um instrumento efetivo de proteção à saúde do trabalhador.

A sensação permanente de exigência e de atenção total, com o uso da tecnologia, deixa o corpo sempre em alerta, situação para a qual a estrutura psicológica humana não está preparada, como demonstram os números.

A pressão provocada pela possibilidade de fechamento de vagas de emprego em decorrência do uso de inteligência artificial nos próximos anos tende a tornar mais grave o grau de exigência psíquica, testando com mais intensidade a resiliência do obreiro.

A observação do contexto do mundo laboral e a piora dos dados que retratam a saúde mental do trabalhador não são elementos que possam ser desprezados por todos os envolvidos no assunto (trabalhadores, empregadores, autoridades e sociedade em geral).

O efeito nocivo da deterioração psíquica do cidadão no ambiente do trabalho, além de ser prejudicial a si mesmo, é negativa para o empregador (aumento de absenteísmo e queda de produtividade), para o Estado (custeio do afastamento do trabalhador pelo Instituto Nacional do Seguro Social) e para a sociedade (problemas de saúde em geral, dificuldade de socialização, aumento de dificuldades familiares, etc.).

É um momento em que a comunidade nacional deve refletir sobre a finalidade do trabalho, algo que, além de fornecer os meios de subsistência, é um modo de manifestação da personalidade do indivíduo.

A partir do momento em que tal atividade provoca massivamente a perda de saúde da população, talvez seja o sinal de que o ser humano não esteja sendo tratado como um fim em si mesmo, mas como um instrumento para outras finalidades.
 

EDITORIAL

A motocicleta que substitui o ônibus

Uma cidade como Campo Grande, que perde passageiros no transporte coletivo e ganha motociclistas, precisa, no mínimo, perguntar para onde está indo

01/10/2026 07h10

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O transporte público de Campo Grande está sob intervenção e, sob a máxima de que “pior do que está, não fica”, a tendência é de que a prestação do serviço melhore até o fim do ano. É preciso, contudo, olhar para além da qualidade dos ônibus, dos horários e das condições oferecidas aos passageiros.

Existe uma mudança no modo como os campo-grandenses se deslocam que merece a atenção.

Não há um estudo específico para estabelecer uma correlação, mas basta sair de Campo Grande e transitar por outras cidades do Centro-Oeste, do Sul ou do Sudeste que são de porte semelhante para perceber uma diferença evidente: o volume de motocicletas circulando na Capital é muito alto.

E as motos não são utilizadas apenas por motoboys e motoentregadores. Para uma parcela significativa da população, elas se tornaram o principal meio de deslocamento para o trabalho, algo que, em cidades de porte semelhante, costuma ser absorvido em maior medida pelo transporte coletivo.

Há uma razão bastante simples para isso. A motocicleta oferece liberdade de deslocamento, não depende de horários, permite escapar dos congestionamentos e, na maioria das vezes, leva o usuário mais rapidamente ao destino. Para quem precisa trabalhar e cumprir horários, são vantagens difíceis de ignorar.

O problema é o preço dessa liberdade. O volume de passageiros transportados pelo sistema de transporte coletivo de Campo Grande vem caindo nos últimos anos, mês após mês.

O movimento é um indício de que o campo-grandense está deixando o ônibus e escolhendo a motocicleta. Não se pode afirmar, sem um estudo específico, que uma coisa seja consequência direta da outra. Mas os números e a realidade das ruas sugerem uma mudança que não deveria passar despercebida.

A motocicleta pode ser mais rápida e conveniente. Também é muito mais vulnerável no trânsito. A dimensão desse risco pode ser observada nesta semana. Quatro pessoas morreram no trânsito de Campo Grande e, em todos os casos, as vítimas estavam em motocicletas.

Uma parcela significativa dos moradores parece aceitar essa espécie de roleta-russa para conseguir se deslocar pela cidade. Não se trata de condenar quem escolhe a motocicleta. Muitas vezes, é uma decisão econômica e prática.

A questão é entender por que tantas pessoas estão fazendo essa escolha e quais consequências ela produz para a cidade.

Temos, nesta edição, uma reportagem que analisa justamente esse fenômeno. O transporte coletivo perde passageiros, as motocicletas ganham espaço e os acidentes envolvendo os seus condutores continuam produzindo mortes.

O que ainda não sabemos é se as autoridades estão olhando para esse movimento com a atenção que ele merece.

Melhorar o transporte coletivo é fundamental. Mas talvez já não seja o suficiente. É preciso entender por que o cidadão está abandonando o transporte coletivo, quais condições poderiam fazê-lo voltar e como reduzir o número de pessoas que precisam colocar a vida em risco para chegar ao trabalho.

ARTIGOS

Canetas emagrecedoras, perda de peso e a derrota da Educação Física

Desenvolvidas para tratar doenças metabólicas ao atuarem em hormônio que regula a glicose e a saciedade, as canetas entraram de vez também no universo da estética

30/09/2026 07h20

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Muito além de moldar corpos por meio de uma acelerada perda de peso, os medicamentos que imitam a ação do hormônio GLP-1, ou as tão conhecidas canetas emagrecedoras, também estão moldando novos comportamentos na saúde pública.

Desenvolvidas para tratar doenças metabólicas ao atuarem neste hormônio que regula a glicose e a saciedade, as canetas entraram de vez também no universo da estética.

O que temos experenciado é uma grande transformação cultural, em que o atalho químico rouba a atenção e a prática de atividade física, que a ciência há tanto tempo nos evidencia a relevância, tem sido cada vez mais deixada de lado por pessoas das mais diferentes faixas etárias.

O novo comportamento se consolida como tendência e nos traz a necessidade de uma reflexão mais profunda.

A busca e manutenção da saúde em seu aspecto mais amplo cede lugar para a perda de peso, que passa a ser o ponto focal. Nesse contexto, a promessa de um corpo mais magro que exigia meses de disciplina, encontra o sucesso no atalho viabilizado por algumas aplicações semanais do medicamento.

Nessa reflexão, é primordial ressaltar desde o início que ela não suscita um enfrentamento, um combate à medicina. O avanço da indústria farmacêutica viabiliza recursos adicionais e cada vez mais assertivos para tratamentos complexos, como é o caso da obesidade severa e distúrbios metabólicos.

A questão, assim, se coloca não sobre o fármaco, mas a quem recorre ao atalho químico em vez de buscar não só a mudança do corpo, mas de hábitos saudáveis para a vida.

Para quem atua na Educação Física, este é um sinal de alerta, uma possível falha na tentativa de tornar as pessoas apaixonadas pelo movimento do corpo.

É verdade que grande parte do público que busca as canetas o faz motivado pela rapidez do resultado estético, mas também porque a Educação Física convencional e a prática de atividade física por ela proporcionada deixou de ser percebida como uma ação legítima de saúde e bem-estar.

Não podemos negar que a academia, infelizmente, ainda não é vista pelo público geral como um local unânime.

Para muitos, ela é tida como pouco acolhedora, um ambiente massificado, com séries repetitivas, pouca escuta individual e um foco excessivo num ideal estético em vez da longevidade funcional e da qualidade de vida.

Os exercícios físicos ministrados nas academias têm sido “vendidos” como o meio para queimar calorias e se alcançar o ideal estético. Quando há essa conotação, a comparação com o resultado possível por meio do medicamento que virou objeto de desejo de tantas pessoas é inevitável.

A concorrência é fortíssima. Por isso, é urgente e necessário que a Educação Física se reinvente, resgate o seu papel relevante de fomentadora da saúde e volte a mostrar para a população toda a sua potência e todo o seu benefício.

Como fazer essa tarefa? É preciso ressignificar a atividade física, hoje muito vista como um meio com finalidade estética e trazê-lo novamente como um recurso essencial para quem deseja uma vida longa e de qualidade.

Mais do que perda de peso, a prática de atividade física, principalmente conduzida por profissionais capacitados e interessados, promove benefícios que a picada da caneta não consegue promover: massa muscular, densidade óssea, melhor coordenação motora e autonomia física, itens diretamente relacionados à longevidade, saúde e bem-estar.

Não se trata de lutar contra. A medicina e a indústria farmacêutica evoluem e isso representa uma grande notícia. As canetas emagrecedoras vieram para ficar e até que a ciência não revele efeitos colaterais de longo prazo, seguirão como desejo de muitas pessoas.

Contudo, cabe aos profissionais da Educação Física reverem suas formas de atuação e passarem a oferecer uma nova experiência de movimento, que ajude as pessoas a encontrar prazer ao fazê-lo.

Ao alcançar esse ponto, a prática de atividade física deixa de ser um meio estético e passa a ser considerada pelo praticante uma ação essencial e presente para uma vida saudável, algo que nenhum remédio poderá substituir.

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