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Nas ruas, a defesa da dignidade

País ultrapassou 365 mil pessoas em Situação de Rua entre o fim de 2025 e o início de 2026

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O crescimento da população em situação de rua no Brasil expressa a realidade social das cidades contemporâneas.

Levantamento do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua (UFMG), com base no Cadastro Único, indica que o País ultrapassou 365 mil pessoas nessa condição entre o fim de 2025 e o início de 2026, mantendo uma trajetória de alta nos últimos anos.

Entre 2018 e 2023, o número de registros praticamente dobrou, superando 221 mil pessoas, com presença já identificada em mais de 40% dos municípios brasileiros.

Mais do que números, estamos diante de vidas. E a forma como a sociedade olha para essas vidas diz muito sobre o projeto de cidade que estamos construindo.

Ainda persistem, na sociedade, estigmas e preconceitos em relação à população em situação de rua, frequentemente tratada de forma reducionista, em vez do reconhecimento deste grupo como sujeitos de direitos.

Essa ótica, por vezes naturalizada, acaba influenciando práticas institucionais e respostas públicas que priorizam o afastamento, o controle ou a invisibilização, em detrimento da construção de alternativas efetivas.

Longe de ser resultado de escolhas individuais, a vida nas ruas expressa uma profunda violação de direitos, vinculada à desigualdade estrutural e à precarização das condições de vida. Enfrentar essa realidade exige mais do que gestão urbana, exige compromisso ético com a dignidade humana.

É nesse cenário que a atuação de assistentes sociais se torna fundamental, não somente na garantia de acesso a direitos, mas também na construção de leituras críticas da realidade e de respostas comprometidas com a vida das pessoas.

Orientado pela Política Nacional para a População em Situação de Rua (Decreto nº 7.053/2009), o trabalho profissional parte do reconhecimento desse grupo social como sujeito de direitos, com histórias, demandas e potencialidades que precisam ser compreendidas em sua complexidade.

Na prática, assistentes sociais atuam diretamente nos territórios, em serviços como Centros POP, Creas e equipes de Consultório na Rua. Mais do que encaminhamentos pontuais, sua atuação deve se fundamentar na escuta qualificada, na construção de vínculos e no acompanhamento continuado.

O diálogo é elemento central desse trabalho: é por meio dele que emergem demandas reais (muitas vezes invisibilizadas) relacionadas à documentação, à saúde, à renda, à moradia e à reconstrução de relações familiares e comunitárias.

Atuar com compromisso técnico e ético é reconhecer o outro em sua condição humana, romper com a invisibilidade e construir caminhos possíveis.

Diante de práticas higienistas, remoções forçadas e da criminalização da pobreza, o serviço social se posiciona de forma firme na defesa da dignidade de toda a população.

Enfrentar a realidade das ruas exige mais do que respostas rápidas: exige compromisso com a vida e com transformações concretas. O serviço social trilha esse caminho todos os dias, por meio de trabalho técnico e qualificado, da atuação crítica e da construção de alternativas.

Fica o convite à sociedade: romper com respostas simplificadas e excludentes e assumir um compromisso real com as vidas e a justiça social.

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Crise de realidade e o novo papel da ficção

A realidade, antes entendida como um pacto social mínimo, fragmentou-se em milhões de feeds personalizados que raramente dialogam entre si

23/06/2026 07h45

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Como escritor e artista autodidata, meu método de trabalho parte, principalmente, da observação. Registro na memória falas alheias, maneirismos, sons, fatos e pequenos causos do cotidiano.

Minha matéria-prima é a realidade, aquilo que acontece de fato. Toda a minha ficção fala sobre o real, ainda que atravessado pelo fantástico.

Mas o que acontece quando perdemos nossa capacidade de consenso? Quando já não conseguimos concordar nem sobre o que é a própria realidade?

Entre o avanço das inteligências artificiais (capazes de mimetizar a vida com uma precisão cada vez mais inquietante) e o tsunami de notícias falsas que sequestra a percepção pública, parece que estamos abrindo mão da capacidade coletiva de reconhecer o que é verdadeiro.

A realidade, antes entendida como um pacto social mínimo, fragmentou-se em milhões de feeds personalizados que raramente dialogam entre si. São pacotes de realidade customizada, moldados por algoritmos, interesses e emoções.

Nesse cenário, criar histórias fantásticas deixa de ser apenas um exercício de imaginação ou uma fuga baseada no “e se?” A ficção passa a funcionar também como um espaço de investigação. Um convite para recuperar o espanto, a dúvida e a curiosidade diante do mundo.

Em tempos de excesso de informação e escassez de reflexão, imaginar talvez seja uma das últimas formas de observar com profundidade.

Para mentes bombardeadas por versões conflitantes da verdade, a ficção precisa assumir um novo papel social.

Se já não conseguimos concordar sobre o que acontece no noticiário, se a desconfiança atravessa instituições, discursos e imagens, talvez sejam as histórias que nos ajudam a reconstruir alguma experiência de identificação coletiva.

Afinal, ainda conseguimos reconhecer a injustiça, a perda, o medo e a esperança quando eles aparecem diante de nós em forma de narrativa. Contar histórias, hoje, talvez seja menos sobre escapar da realidade e mais sobre reaprender a enxergá-la.

Num mundo em que cada pessoa parece confinada à própria versão dos fatos, a ficção ainda pode abrir janelas, criar pontes e provocar perguntas difíceis.

A fantasia, quando nasce da observação honesta do mundo, não nos afasta do real. Pelo contrário: ela funciona como um espelho. E nos enxergar talvez seja exatamente o que precisamos nestes tempos.
 

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Algumas reflexões sobre direita e esquerda

O foco final é a sociedade, o ser humano como seu destinatário, o problema está no radicalismo exacerbado ou exagerado desses enfoques, ou seja, na sua intransigência

23/06/2026 07h30

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Os vieses ideológicos de direita e de esquerda, com conceitos enraizados na Revolução Francesa de 1789, em si, são salutares.

Um faz contraponto ao outro. São abordagens valorativas diferentes de ver a mesma coisa. São enfoques diversos de como as pessoas enxergam, entendem e sentem o mundo e a sociedade. Nesse diapasão, longe de se repelirem, complementam-se!

O foco final é a sociedade, o ser humano como seu destinatário. O problema está no radicalismo exacerbado ou exagerado desses enfoques, ou seja, na sua intransigência. Neste viés, ambos se julgam donos absolutos da verdade.

O “nós e os outros” ou “nós e eles”, utilizado tanto por um lado como pelo outro, é bem revelador dessa assertiva fora da curva.

O extremismo, seja de que lado for, não acrescenta nada, ao contrário, incentiva a discórdia, acirra os ânimos entre as pessoas, como se estivesse falando de dois mundos diferentes. Um diálogo de dois inimigos!

O radical vê o mundo conforme as suas conveniências.

Prioriza-se a parte que lhe convém, em detrimento do todo. Um olhar vesgo! Aliás, mesmo que se esforce, nem mesmo o princípio da pluralidade explica ou justifica esse olhar torto!

A propósito, é pertinente o recente artigo do cientista e economista da USP Michael França, publicado na Folha de São Paulo, no dia 9/6/2026, p. A17, quando afirma que “esquerda vs. direita virou disputa de cego com cego”.

Segundo esse articulista: “Uma pessoa madura deveria ser capaz de dizer: a esquerda tem algo importante a ensinar sobre proteção social e concentração de riqueza. A direita tem algo importante a lembrar sobre liberdade individual e os limites do Estado. O erro começa quando cada campo transforma suas verdades parciais em dogmas. A maturidade política começa quando aceitamos que ninguém está certo o tempo todo. Nem a esquerda. Nem a direita”.

Sem essa compreensão, o caráter pedagógico do diálogo cai por terra!

O radical se esquece de que o razoável seria buscar, em uma visão atual, pragmática e humanitária, encontrar um ponto de equilíbrio para se ver o mundo e a sociedade e, com isso, conciliar o interesse individual com o interesse social, sem se afastar das premissas filosóficas apregoadas por Hobbes e Rousseau há séculos.

Aliás, a nossa Constituição Federal, em vários dispositivos, busca dar voz ao equilíbrio individual e social, a exemplo da contemplação do direito de propriedade e da sua função social. Igualmente, nas chamadas ações afirmativas, entre outras.

As ditaduras, sejam de direita, sejam de esquerda, são resultantes do embate radical. Elas (ditaduras) não visam ao bem comum, ao interesse da sociedade, do ser humano, e sim à manutenção do status quo por interesses próprios e de grupos dominantes. Um autêntico maquiavelismo!

Portanto, nenhum pecado há em ser de direita ou de esquerda. O pecado capital está na irracionalidade do radicalismo. O caminho racional, menos tortuoso e espinhoso, é, sem dúvida, a maturidade política do ser humano!

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