Artigos e Opinião

ARTIGOS

Novas regras para tirar visto americano e os impactos no mercado brasileiro de intercâmbio

Continue lendo...

Nos últimos meses, um assunto que repercutiu muito foi a mudança nas regras para solicitação do visto norte-americano. Anunciada pelo site oficial do Departamento de Estado dos EUA em 25 de julho, a proposta inclui alteração no processo para solicitantes menores de 14 anos e maiores de 79 anos, que passariam a ser obrigados a fazer a entrevista presencialmente – atualmente, esse público não precisa passar, necessariamente, pelo procedimento. Ainda de acordo com o governo, a nova regra seria válida para cidadãos de todos os países que precisam de visto para entrar nos EUA, incluindo os brasileiros.

Inicialmente, essas mudanças foram anunciadas para entrarem em vigor a partir de 2 de setembro de 2025. No entanto, até o momento, não há confirmação pública de que os consulados americanos no Brasil estejam aplicando essas regras na prática. O fato é que, caso essas novas regras realmente entrem em vigor, o mercado brasileiro de intercâmbios pode sofrer impactos importantes, especialmente o aumento de custos para os estudantes. Isso porque, além da obrigatoriedade de entrevistas presenciais, há também um aumento no novo valor do visto e taxas adicionais, tornando os intercâmbios mais caros.

Atualmente, o viajante precisa pagar apenas uma taxa no valor de US$185, referente ao formulário D-160, obrigatório para todos os tipos de visto. Com as novas taxas, que vieram a partir do megapacote orçamentário One Big Beautiful Bill, lançado por Donald Trump em julho, ela deve chegar a US$ 459, alta de 148%. Ainda, o aumento mais expressivo será da nova Taxa de Integridade do Visto ou Visa Integrity Fee, que custará US$ 250. 

Ainda sobre os impactos no mercado brasileiro de intercâmbios, a burocracia para obter o visto também é um ponto de atenção. Entrevistas obrigatórias e verificações adicionais por parte dos órgãos americanos devem atrasar processos e demandar mais preparo documental, ou seja, os estudantes podem adiar planos ou optar por outros países. Vale reforçar que, de acordo com a pesquisa Selo Belta 2025, os Estados Unidos foram a segunda principal escolha de destino entre os brasileiros no último ano, perdendo apenas para o Canadá. Outros países que apareceram no ranking da associação foram Reino Unido, Irlanda e Austrália.

Consequentemente, a redução da demanda, a desistência e a migração para destinos alternativos são outros impactos, que não afetam somente os estudantes, mas a própria economia do País. Isso porque, com o processo mais rigoroso e caro, estudantes brasileiros podem desistir de programas de intercâmbio se perceberem riscos de reprovação ou caso não consigam se adequar às exigências em tempo hábil. Com isso, devem buscar países com processos de visto mais simples ou menos onerosos.

Vale ressaltar, no entanto, que, apesar dessa obrigatoriedade, existem alguns grupos que podem permanecer elegíveis para isenções de entrevistas de visto, como titulares de vistos diplomáticos e oficiais (categorias de visto como A-1, A-2, C-3, G-1 a G-4, NATO-1 a NATO-6 e TECRO E-1), algumas renovações de visto B-1/B-2 ou cartão de travessia de fronteira para cidadãos mexicanos, entre outras categorias.

Por fim, diante dessas novas regras, o mercado brasileiro de intercâmbios se vê diante de um cenário desafiador, mas também de adaptação. Isso porque o aumento de custos e a obrigatoriedade de entrevistas tendem a frear parte da demanda imediata, especialmente de famílias mais sensíveis ao preço e de estudantes que buscam agilidade no processo. 

Por outro lado, esse movimento pode impulsionar o mercado de intercâmbio para outros destinos, com países que oferecem processos mais acessíveis e menos burocráticos, como, por exemplo, Malta, África do Sul e Dubai, que vêm se consolidando como excelentes alternativas aos destinos tradicionais. Malta atrai por unir ensino de qualidade, clima agradável e custo de vida mais baixo, sem necessidade de visto para estadias curtas. Já a África do Sul oferece ótimo custo-benefício, visto simples e imersão cultural em um país de língua inglesa, por exemplo.

Essas alternativas reforçam a ideia de que o intercâmbio vai muito além dos destinos mais conhecidos, ampliando horizontes e democratizando o acesso à educação internacional, o que ajuda a reposicionar o Brasil no mapa global da educação. Aguardemos os próximos passos.

Assine o Correio do Estado

Editorial

Transparência nas emendas é essencial

Ao estabelecer parâmetros mais claros para a prestação de contas das emendas parlamentares, o TCE-MS cumpre seu papel e sinaliza que é preciso mais transparência

01/04/2026 07h30

Continue Lendo...

A decisão do Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso do Sul (TCE-MS) de exigir que as prefeituras prestem contas da aplicação de recursos provenientes de emendas parlamentares é não apenas acertada, mas necessária.

Trata-se de uma medida que reforça um princípio básico da administração pública: todo dinheiro público precisa ser acompanhado de transparência, controle e resultados.

Em um cenário no qual as emendas têm ganhado cada vez mais peso nos orçamentos municipais, o acompanhamento rigoroso desses recursos deixa de ser opcional e passa a ser indispensável.

A iniciativa do órgão de controle também aponta para uma direção que deveria ser regra em todos os níveis da federação: a transparência na aplicação de emendas deve ser adotada de cima para baixo.

Não faz sentido exigir rigor apenas na ponta, enquanto outras esferas permanecem com níveis distintos de prestação de contas.

Se o recurso é público, independentemente de sua origem, deve estar sujeito aos mesmos critérios de publicidade, rastreabilidade e avaliação. A sociedade precisa saber quanto foi destinado, onde foi aplicado e quais benefícios efetivos foram gerados.

Lamentavelmente, ainda há resistência quando o assunto é prestar contas. E essa resistência levanta uma pergunta inevitável: quem não gosta de transparência prefere o quê? O questionamento é duro, mas necessário.

A ausência de controle abre espaço para distorções, desperdícios e, em casos mais graves, práticas que ferem a ética e a legalidade.

Não se trata de suspeitar previamente de gestores, mas de criar mecanismos que previnam irregularidades e fortaleçam a confiança da população.

Mais do que divulgar números, é fundamental avançar para a avaliação da eficiência. Não basta informar que determinada emenda foi aplicada; é preciso demonstrar o que mudou com aquele investimento.

Houve melhoria no atendimento à população? O serviço público foi ampliado? A obra entregue atende às necessidades da comunidade? O dinheiro público não pode ser medido apenas pela execução orçamentária, mas pelos resultados concretos que produz.

Espera-se, portanto, que as prefeituras sul-mato-grossenses – mais da metade dos municípios do Estado – se adaptem às determinações do órgão de controle.

O cumprimento das exigências não deve ser visto como obstáculo burocrático, mas como oportunidade de aprimorar a gestão e fortalecer a credibilidade das administrações locais. Transparência não é punição; é instrumento de boa governança.

Ao estabelecer parâmetros mais claros para a prestação de contas das emendas parlamentares, o TCE-MS cumpre seu papel e sinaliza que a gestão pública precisa avançar em qualidade e responsabilidade.

Quem ganha com isso é a população, que tem o direito de saber como cada centavo do dinheiro público é aplicado e, sobretudo, quais benefícios reais são entregues à sociedade.

Assine o Correio do Estado

Artigo

China captura a OMC avanço autoritário contamina estruturas multilaterais

A retirada da delegação de Taiwan, após a tentativa deliberada do país-sede de designar a ilha como uma "província da China"

31/03/2026 07h45

Continue Lendo...

A diplomacia, em sua essência, sempre foi o terreno da palavra empenhada e do reconhecimento mútuo como bases para a prosperidade. Contudo, o que testemunhamos na 14ª Conferência Ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC), sediada em Yaoundé, Camarões, sugere uma era sombria, em que a hospitalidade multilateral deu lugar à “geopolítica de guichê”.

A retirada da delegação de Taiwan, após a tentativa deliberada do país-sede de designar a ilha como uma “província da China”, não é um erro burocrático; é o sintoma da erosão institucional frente a pressão do capital autocrático.

Como alguém que liderou diretrizes estratégicas no comando da ApexBrasil, vejo este episódio com gravidade. Taiwan não é um ator periférico que pode ser apagado por conveniência de uma potência autoritária. Membro da OMC desde 2002, o país consolidou-se como um “membro modelo”, adotando padrões de transparência e propriedade intelectual que muitos de seus detratores ainda relutam em seguir. Tentar silenciá-lo é agredir o mérito comercial que a organização deveria proteger.

A hostilidade de Camarões explica-se pelos balanços financeiros de Yaoundé. Trata-se de uma “captura de Estado” via endividamento. Em 2025, os investimentos chineses na África atingiram US$ 61 bilhões – do Porto de Kribi à infraestrutura digital –, a soberania camaronesa foi dada como garantia.

Em Yaoundé, Camarões não exerceu soberania, mas pagou um “juro político” a Pequim, oferecendo a cabeça de um ator legítimo no xadrez global em troca da rolagem de sua dívida externa. Tem método.

Esta manobra ignora a realidade incontestável deste ano: os semicondutores são o motor do mundo. Com exportações superiores a US$ 640 bilhões e o domínio de 90% da produção de chips de última geração (2nm e 3nm), Taipei detém a “soberania do silício”.

Discutir cadeias de suprimentos ou inteligência artificial em uma mesa onde o principal produtor é impedido de negociar é uma encenação de absoluta irrelevância técnica. Sem Taiwan, os debates da OMC tornam-se conversas irrelevantes.

O prejuízo é sistêmico. Ao permitir que um país-sede manipule designações para satisfazer credores, a OMC deixa de ser regida por regras e torna-se um feudo de influência.

Esse “gaslighting institucional” acelera a fragmentação do comércio global, empurrando as democracias liberais para fóruns paralelos e esvaziando a utilidade das organizações multilaterais.

É imperativo que lideranças, especialmente no Brasil, reconheçam Taiwan e casos como o de Kosovo pelo que são: nações soberanas na prática e parceiras indispensáveis na teoria.

A soberania moderna se mede pela essencialidade na estrutura produtiva. Enquanto Taipei é soberana, porque o mundo não funciona sem sua inovação e tecnologia, Camarões mostrou que sua política externa está à venda.

Exclusões diplomáticas são o maior erro estratégico da atualidade. Ao tentar apagar a ilha do mapa institucional, Pequim e seus prepostos não unificam territórios, apenas submetem fóruns internacionais aos desejos de autocracias em detrimento de democracias prósperas.

O comércio exige pragmatismo e clareza. Sob o sol deste ano, a independência de democracias robustas brilha com uma intensidade que nenhuma burocracia financiada por bancos chineses será capaz de obscurecer.

Assine o Correio do Estado

NEWSLETTER

Fique sempre bem informado com as notícias mais importantes do MS, do Brasil e do mundo.

Fique Ligado

Para evitar que a nossa resposta seja recebida como SPAM, adicione endereço de

e-mail [email protected] na lista de remetentes confiáveis do seu e-mail (whitelist).