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O País dividido: sem espaço para a terceira via na polarização PT x PL

Nenhum partido conseguirá, em curto prazo, catalisar eleitores em número suficiente para desafiar essa polarização

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Não será desta vez. Mesmo que surjam mais escândalos dos dois lados, é pouco provável que a polarização partidária do País dê lugar a um efetivo pluripartidarismo de coalizão ou a uma opção alternativa. PT e PL devem continuar mobilizando eleitores fiéis, apesar dos escândalos e das condenações envolvendo lideranças nacionais, pois são as duas legendas mais claramente definidas no País – polarizando a ação política menos por questões ideológicas do que por razões pragmáticas relacionadas ao exercício do poder.

Nenhum partido conseguirá, em curto prazo, catalisar eleitores em número suficiente para desafiar essa polarização.

A capacidade das legendas de construir novas lideranças como alternativa de poder no Brasil é tarefa que está longe de ser fácil.

Portanto, uma terceira via tem pouca chance de prosperar no processo eleitoral deste ano. Uma nova liderança não surge do nada, nem de repente, a não ser em casos muito excepcionais.

É preciso estar ancorada em alguma base concreta – um governo estadual, um mandato no Congresso ou uma atividade institucional de grande relevância. Sinceramente, não se vê quem possa preencher esses requisitos hoje fora do bolsonarismo e do lulismo.

Antes da polarização Lula x Bolsonaro, o País teve lideranças que sabiam se relacionar com o Congresso, bem assessoradas. Isso fazia com que o presidencialismo de coalizão funcionasse sem grandes solavancos.

Mas com lideranças ruins como agora, sem capacidade de negociação, a coisa não anda ou anda muito mal. A perspectiva é de manutenção do quadro – até porque não há vácuo em política, como diz um antigo ditado das ciências sociais que se aplica bem ao caso brasileiro.

A polarização não é novidade, mas no tempo do PSDB x PT era menos radicalizada. A disputa entre PT e PSDB, que dominou o cenário nacional de 1994 a 2014, era pautada em um debate econômico e institucional claro, mantendo-se dentro das regras democráticas.

Havia respeito institucional: embora a disputa eleitoral fosse dura e, por vezes, agressiva, os adversários eram vistos como concorrentes legítimos pelo poder, e não como “inimigos” existenciais.

A partir de 2014, o ambiente político transformou-se em uma polarização ideológica e afetiva profunda, passando a rejeitar o diálogo. O atual cenário difere desse período, sendo marcado por um debate menos flexível e mais focado na rejeição do opositor em vez do confronto de ideias.

Para quem quiser entender melhor a cabeça dos eleitores que vão às urnas, sugiro a leitura do livro “O País Dividido”, de Jairo Nicolau, professor e pesquisador da FGV-CPDOC.

A obra reconstrói duas décadas de eleições presidenciais a partir de um extenso cruzamento de dados eleitorais, pesquisas de opinião e séries históricas do TSE, compondo um retrato de como o Brasil fracionado entre petistas e tucanos tornou-se uma nação organizada pela lógica do lulismo versus bolsonarismo.

Nicolau mostra ainda como a entrada de Jair Bolsonaro transformou a própria natureza da polarização no País: menos ideológica, mais emocional e personalizada.

A partir de uma metodologia inédita para medir esse fenômeno, o cientista político identificou um salto expressivo no contingente de eleitores polarizados, que passou de 31%, em 2002, para 64%, em 2022.

Segundo Nicolau, o Brasil que elegeu Lula pela primeira vez, em 2002, já não existe mais. Naquele País, o eleitorado era majoritariamente jovem e de baixa escolaridade.

Vinte anos depois, o Brasil que devolveu Lula ao Planalto tornou-se outro: mais velho, mais feminino, mais escolarizado, mais evangélico. Nesse percurso, as bases sociais do voto se deslocaram.

O PT perdeu força entre homens, nas grandes cidades e entre jovens de escolaridade média. A direita avançou justamente nesses segmentos, enquanto mulheres negras consolidaram o grupo de maior coesão eleitoral do País.

O pesquisador detalha as mudanças silenciosas de longo prazo e as rupturas abruptas que identificou no comportamento do eleitor.

Entre os achados, destaca-se que o eleitorado brasileiro, tipicamente masculino e de ensino fundamental em 2002, é hoje majoritariamente feminino e de Ensino Médio.

As mulheres jovens sempre votaram majoritariamente na esquerda – mesmo em 2018, Bolsonaro perdeu entre elas –, enquanto os meninos jovens foram em massa para a direita, fenômeno observado também em outros países.

A vitória de Lula em 2022 deveu-se às mulheres: entre os homens, Bolsonaro foi vitorioso; mas o maior contingente feminino, aliado à maior comparecimento às urnas e à preferência por Lula, foi decisivo.

Outra descoberta contraintuitiva é que o crescimento da escolaridade tem favorecido a direita. Em 2018 e 2022, Bolsonaro ganhou entre os eleitores de Ensino Médio – o núcleo do bolsonarismo –, enquanto o PT se segura entre os de baixa escolaridade, num perfil cada vez mais interiorano e nordestino. Já o bolsonarismo é metropolitano, concentrado nas grandes cidades do Sudeste.

Sobre a polarização, Nicolau desenvolveu metodologia própria para medi-la retrospectivamente. Até 2014, os brasileiros tinham preferências políticas sem grande intensidade de amor ou ódio. O País era dividido, mas não polarizado.

A presença de Bolsonaro galvanizou uma alta polarização: em 2018, houve polarização à direita (eleitores gostavam muito de Bolsonaro e rejeitavam o PT); em 2022, o movimento se inverteu – o eleitorado petista passou a valorizar Lula e rejeitar intensamente Bolsonaro.

Trata-se da chamada polarização afetiva, que não tem necessariamente a ver com posições ideológicas.

O pesquisador ressalva, no entanto, que a polarização mais intensa – engajamento em redes sociais, militância ativa – atinge apenas o topo da pirâmide, talvez 15% a 20% dos eleitores.

Existe uma grande massa de brasileiros para quem essa polarização simplesmente não chega.

Tanto que 30% dizem não ter nenhum interesse por política, e 40% afirmam que, se o voto não fosse obrigatório, ficariam em casa.

Por isso, Nicolau acredita que a polarização deve cair neste ano sem a presença de Bolsonaro – embora a confirmação de Flávio Bolsonaro como principal liderança da direita aumente a probabilidade de que as mesmas clivagens de 2022 se repitam.

Quanto aos escândalos recentes envolvendo Flávio Bolsonaro, Nicolau é prudente: em um mundo dominado por redes sociais e filtros religiosos e ideológicos, a informação chega torta.

Ao contrário do caso Lunus com Roseana Sarney, quando um escândalo liquidava uma candidatura, hoje há sempre uma guerra de interpretações. O autor não tem segurança para afirmar que a candidatura de Flávio está ferida de morte.

Sua conclusão é que, com a presença de um Bolsonaro na campanha – algo que parecia improvável –, aumenta a probabilidade de cristalização das preferências. 

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Editorial

Luxo, irregularidades e expansão urbana

É hora de refletir sobre os critérios que orientam a expansão urbana da Capital e sobre os limites que precisam ser respeitados para que o crescimento não ocorra à custa da legalidade

19/05/2026 07h15

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O imbróglio envolvendo o condomínio de luxo Soul Corpal Living Resort expõe, mais uma vez, um problema que há anos acompanha o crescimento urbano de Campo Grande: a dificuldade de se estabelecer limites claros entre desenvolvimento imobiliário, preservação ambiental e planejamento urbano responsável.

O caso ganhou repercussão justamente por reunir elementos que, isoladamente, já seriam suficientes para despertar preocupação. Juntos, tornam a situação ainda mais alarmante.

Trata-se de um empreendimento erguido sobre área federal ainda não regularizada e cercado por questionamentos ambientais relevantes, apontados tanto pelo Ministério Público Federal quanto pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul.

É inevitável o espanto diante da constatação de que um projeto marcado por tantas incertezas tenha conseguido avançar, sair do papel e chegar ao ponto de comercializar lotes de alto padrão.

A discussão jurídica certamente seguirá seu curso. É possível que, futuramente, a empresa responsável consiga regularizar a situação fundiária ou até demonstrar que parte das premissas levantadas pelos órgãos de controle não se sustenta integralmente.

Entretanto, independentemente do desfecho judicial, há um dano que já está posto: a insegurança. Em um mercado imobiliário que depende diretamente de confiança, previsibilidade e estabilidade, qualquer sombra de dúvida afeta vendas, reduz a atratividade e compromete a valorização dos imóveis.

O episódio também traz à tona uma reflexão ainda mais profunda sobre o modelo de crescimento adotado por Campo Grande. A Capital sul-mato-grossense já é reconhecida por seu perfil horizontalizado, espalhado e pouco adensado.

Em vez de estimular a ocupação inteligente dos espaços urbanos já existentes, com melhor aproveitamento da infraestrutura instalada, o município segue permitindo a expansão de condomínios cada vez mais distantes da malha consolidada, avançando sobre áreas rurais e ampliando os vazios urbanos.

Essa lógica cobra um preço alto da coletividade. Quanto mais distante estiverem os empreendimentos, maior será o custo para levar asfalto, iluminação pública, saneamento, transporte coletivo, rede elétrica e demais serviços essenciais.

É uma conta que, cedo ou tarde, acaba recaindo sobre toda a população. O crescimento desordenado não representa apenas um desafio urbanístico; é também um problema econômico, ambiental e social.

Campo Grande precisa decidir qual cidade deseja construir para as próximas décadas. Uma cidade compacta, eficiente e sustentável ou uma cidade cada vez mais dispersa, cara e difícil de administrar. O caso do Soul Corpal Living Resort deveria servir como ponto de inflexão para esse debate.

Mais do que discutir um empreendimento específico, é hora de refletir sobre os critérios que vêm orientando a expansão urbana da Capital e sobre os limites que precisam ser respeitados para que o crescimento não ocorra à custa da legalidade, do meio ambiente e do interesse público.

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ARTIGOS

2026, um dos anos mais desafiadores para o varejo

O Brasil vai proteger quem produz lá fora e desproteger quem produz e emprega aqui

18/05/2026 07h30

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O varejo sempre foi desafiador, em todos os setores de atuação, em todas as épocas. Em especial, neste ano está ainda mais desafiador, porque vários fatores que vão além de uma boa administração empresarial, de estratégias criativas de marketing, de campanhas de preços atrativos, etc., estão interferindo no ambiente de negócios.

Entramos neste ano com o ritmo de vendas morno, haja vista o lento crescimento de 2,4% nas vendas no primeiro trimestre, segundo dados setoriais e os indicadores econômicos, que previam um crescimento do PIB de 2,0%, mas que, agora, foi recalculado para 1,85% (Relatório Focus), e uma inflação de 3,91%, que também foi recalculada para 4,91%.

Caminhamos às sombras de um provável crescimento da inflação, potencializado pelos efeitos da guerra entre EUA e Irã, uma taxa de juros Selic inaceitável de 14,50% a.a., que consome todo o resultado das empresas e reduz sobremaneira a oferta de crédito e, consequentemente, o consumo e dois fatores ainda mais contundentes: a recente retirada do Imposto de Importação de 20% nas vendas cross border e a eventual redução da jornada e escala de trabalho.

Com relação à retirada, pelo governo, do Imposto de Importação de 20% nas vendas cross border feitas pelas plataformas eletrônicas estrangeiras, conhecido como “taxa das blusinhas”, mas que de fato alcança centenas de outros produtos além do têxtil, é preciso considerar que este imposto sequer conseguia equilibrar as condições de competitividade necessária aos produtos fabricados e vendidos no País, que pagam carga tributária de cerca de 92%.

A disparidade de taxação entre o produto importado e o fabricado e vendido no Brasil já era enorme, agora é gigantesca. O Brasil vai proteger quem produz lá fora e desproteger quem produz e emprega aqui.

Sobre este tema, é bom ressaltar que o varejo nacional nunca quis privilégios, mas sim isonomia tributária, se houve zero de Imposto de Importação na venda cross border, é preciso ter zero de imposto também para o produto nacional com preço até US$ 50.

Praticamente todas as associações e institutos empresariais têm estudado e anunciado as prováveis consequências da eliminação do Imposto de Importação.

Muito provavelmente haverá queda significativa nas vendas dos produtos nacionais no mercado interno, prejudicando negócios de todos os portes, mas, principalmente, o pequeno e o médio varejos, que não conseguirão competir com os produtos importados, em boa parte subfaturados e ainda com imposto zero, consequentemente, o varejo brasileiro venderá menos ao consumidor e comprará menos para os estoques.

O impacto poderá ser sentido nas indústrias, provocando desemprego, seu fechamento ou a transferência de produção para países fronteiriços.

Quando da introdução do Imposto de Importação, o benefício foi marcante. No primeiro ano da sua implantação foram criados, só no varejo, 107 mil empregos e houve melhoria nas vendas e nos investimentos.

Em toda a cadeia de fornecimento até a ponta no varejo também se aumentou a produtividade e não ocorreu, na média, crescimento de preços acima da inflação, beneficiando o consumidor, que optou por comprar o produto nacional.

Logo, estavam progredindo as empresas, a geração de empregos e os consumidores, que estavam comprando produtos nacionais com preços atrativos, de qualidade, certificados e garantidos, mas nada disso foi considerado por quem desejou zerar novamente o Imposto de Importação.

Outro ponto é a redução da jornada de trabalho de 44 horas para 40 horas (obviamente não considerando qualquer chance para 36 horas), sem redução do salário, e a eliminação da escala de trabalho 6x1, passando para 5x2.

Essa discussão é um ponto de forte resistência no setor de comércio e serviços pelo impacto direto no custo da folha e na escala de atendimento.

Um olhar calculado sobre este tema mostra de forma inquestionável que a redução da jornada de trabalho sem redução do salário vai gerar um aumento aproximado de custo na mão de obra de 10%, e a mudança da escala de trabalho de 6x1 para 5x2 também, na média, dependendo do setor, acarretará um aumento de 13% no custo da folha de pagamento.

Não vamos entrar aqui na discussão de que todo trabalhador merece descansar o máximo possível. É claro que sim, e se está mudança acontecer, teremos um país onde se descansará, aproximadamente, um terço do período anual e se trabalhará dois terços do tempo. A economia do País suportará esta transformação?

Conjugando-se os efeitos de redução de jornada para 40 horas sem redução do salário e da escala para 5x2, os diversos estudos técnicos que circulam pelo País falam de aumento de despesas, com a folha de pagamentos aumentando na ordem de 20% a 23%.

O impacto combinado da isenção de Imposto de Importação no cross border somado à redução da jornada e da escala de trabalho criará um cenário de pressão sem precedentes sobre a operação e a sobrevivência das empresas.

Com este cenário impulsionado pelo calendário eleitoral, como ficarão o ambiente de negócios e a confiança do empreendedor?

Embora diga-se que em economia tudo com o tempo ajusta-se, mas a que custo?

O fim do Imposto de Importação e a eventual redução da jornada e da escala de trabalho acarretarão riscos para a economia, cujas consequências poderão comprometer a viabilidade das empresas e o emprego de milhares de trabalhadores, não apenas no presente, mas também num futuro muito próximo.

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