Nesta edição, o Correio do Estado aborda os impactos do fim da chamada “taxa das blusinhas”, cobrança sobre compras internacionais de até US$ 50 feitas por pessoas físicas.
Criada no início da atual gestão federal, a tributação foi extinta agora, reabrindo uma discussão que vai muito além do preço de uma camiseta ou de um pequeno utensílio comprado pela internet.
O apelido surgiu com a popularização das compras internacionais de produtos de baixo custo. Roupas, acessórios, pequenos utensílios e outros itens passaram a chegar diretamente às casas dos consumidores por meio de aplicativos, em sua maioria chineses.
O restabelecimento da cobrança, há pouco mais de dois anos, freou parte dessas compras. Muitas lojas, porém, compram justamente da China os produtos que vendem no mercado nacional, acrescentando custos, impostos, logística e margem de lucro ao preço final.
Agora, com o fim da taxa, os lojistas voltam a manifestar preocupação. O argumento merece ser considerado, pois o comércio gera empregos.
Mas há outro lado. Para famílias de baixa renda, que não têm condições de viajar para fazer compras no exterior, os aplicativos internacionais representavam uma alternativa de consumo. Para esse consumidor, a taxa significava aumento no custo de vida.
Por isso, a discussão não deveria ser reduzida à escolha entre proteger o comércio nacional e oferecer produtos baratos ao consumidor. O problema é mais profundo.
Se uma mercadoria produzida na Ásia, transportada por milhares de quilômetros e entregue na casa do brasileiro chega mais barata que um produto vendido por uma empresa daqui, há uma questão de competitividade que não se resolve apenas com imposto de importação.
Com ou sem “taxa das blusinhas”, o Brasil deveria buscar uma combinação mais saudável: maior massa salarial e renda, de um lado, e mais competitividade da indústria, de outro.
O consumidor precisa ter dinheiro para comprar, mas também precisa encontrar produtos nacionais capazes de disputar preço, qualidade e variedade.
A macroeconomia pode parecer distante da vida cotidiana, mas seus efeitos chegam ao comércio, às empresas, ao emprego e ao orçamento das famílias.
Quando o ambiente econômico é favorável, empresas investem, contratam e ampliam a oferta; quando se deteriora, o consumo e os investimentos tendem a perder força. Uma economia mais forte amplia oportunidades; uma economia fragilizada torna cada compra mais pesada.
As “blusinhas”, portanto, expõem uma dificuldade maior. O País precisa superar a lógica de remediar a falta de competitividade apenas com barreiras à concorrência externa e enfrentar as causas que tornam a produção nacional mais cara.
Não deveria ser necessário escolher entre empregos no comércio e acesso das famílias de menor renda a produtos baratos. O desafio é criar condições para que o País produza mais, seja competitivo e aumente a renda da população.



