Artigos e Opinião

Editorial

O retrato das urnas em Mato Grosso do Sul

Em tempos de intensa disputa por narrativas, convém lembrar que os fatos continuam sendo o melhor ponto de partida para qualquer análise

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As estatísticas do eleitorado divulgadas pelo Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso do Sul (TRE-MS) e pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) vão muito além de uma simples atualização cadastral, elas oferecem um retrato de quem terá a responsabilidade de decidir os rumos políticos do Estado nas eleições deste ano.

Conhecer esse perfil é compreender, com base em fatos, quais grupos sociais terão maior peso nas urnas e quais regiões concentrarão a disputa. É uma informação indispensável para partidos, candidatos e eleitores.

Nesta edição, o Correio do Estado destaca um dado que merece atenção: Mato Grosso do Sul consolida, mais uma vez, um eleitorado majoritariamente feminino.

As mulheres representam quase 53% dos votantes aptos, enquanto os homens somam pouco mais de 47%. Na prática, são quase 114 mil eleitoras a mais do que eleitores.

Se esse contingente formasse um município, seria o terceiro maior colégio eleitoral do Estado, atrás apenas de Campo Grande e Dourados. É um número que não pode ser desprezado e deve ser levado em consideração.

Esse cenário deveria influenciar a formulação das campanhas. Temas como saúde, segurança, educação, geração de renda e proteção às mulheres precisam ocupar espaço relevante nos programas de governo.

Não por oportunismo eleitoral, mas porque refletem as demandas da parcela majoritária do eleitorado. Ignorar esse perfil significa distanciar o discurso político da realidade.

Outro dado revelador está na distribuição geográfica dos eleitores. Cinco municípios – Campo Grande, Dourados, Três Lagoas, Ponta Porã e Corumbá – concentram mais da metade do eleitorado sul-mato-grossense. A Capital, sozinha, reúne mais de 30% dos votantes.

Essa concentração influencia estratégias, agendas e prioridades das campanhas, tornando esses centros decisivos para qualquer candidatura competitiva.

A geografia do voto diz muito sobre uma eleição. Ela orienta discursos, ajuda a identificar demandas regionais e revela onde estão os maiores desafios para os candidatos.

Ao mesmo tempo, reforça a necessidade de que os municípios menores não sejam relegados a segundo plano, já que cada voto tem exatamente o mesmo valor na urna.

Em tempos de intensa disputa por narrativas, vale recordar que a realidade costuma ser menos maleável do que o discurso.

Estratégias de marketing, slogans e campanhas digitais têm sua importância, mas encontram limites nos fatos. E os números do eleitorado são um desses fatos incontornáveis.

Eles revelam quem decide as eleições, onde essas pessoas estão e quais características predominam entre os votantes. 

Os números do eleitorado não apontam vencedores, mas mostram quem decidirá a eleição e onde essas pessoas estão.

Quem compreender esse retrato terá melhores condições de dialogar com a sociedade. Quem insistir em ignorá-lo correrá o risco de fazer campanha para um eleitor que existe apenas no discurso, e não na realidade das urnas.

ARTIGOS

A odisseia eleitoral brasileira

Mais do que um relato da Grécia Antiga, a obra permanece atual porque aborda temas universais, como poder, liderança, legitimidade e pertencimento

20/07/2026 07h30

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A estreia de “A Odisseia”, adaptação do clássico de Homero, convida a refletir sobre a permanência dos grandes arquétipos da civilização ocidental. Mais do que um relato da Grécia Antiga, a obra permanece atual porque aborda temas universais, como poder, liderança, legitimidade e pertencimento.

Conceitos como democracia, política, cidadania, justiça e oikos continuam estruturando a forma como compreendemos o Estado e o exercício do poder, permitindo que a política brasileira também seja interpretada a partir de uma atualização do que vem a ser um novo épico político.

Após a prisão de Jair Bolsonaro, a direita iniciou uma longa travessia em busca de uma nova centralidade política.

Nesse percurso, Flávio Bolsonaro se tornou o personagem encarregado de conduzir essa jornada. Como Ulisses, seu desafio não consiste apenas em derrotar adversários externos, mas, sobretudo, em sobreviver às próprias tempestades internas.

A campanha atravessa disputas regionais, conflitos entre lideranças, divergências sobre candidaturas ao Senado e dificuldades para consolidar um projeto nacional unificado.

As tensões envolvendo Michelle Bolsonaro, os desgastes provocados pelas denúncias que atingiram seu entorno político e a fragmentação crescente do campo conservador funcionam como os monstros da narrativa homérica: obstáculos que retardam a chegada ao destino.

Seu maior desafio, porém, é retornar ao oikos político. Na tradição grega, o oikos não representa apenas a casa física, é o lugar da legitimidade, da autoridade reconhecida e da ordem restaurada. Enquanto Flávio enfrenta sua travessia, Luiz Inácio Lula da Silva ocupa uma posição distinta.

Diferentemente do filho de Jair Bolsonaro, que ainda percorre o caminho tortuoso da legitimidade, Lula já habita o espaço do poder. Seu maior ativo político, neste momento, talvez não seja a expansão de sua força, mas a incapacidade de seus adversários de concluir a própria jornada.

É justamente nesse ponto que a analogia com Homero revela sua principal inversão. Na epopeia, Ulisses retorna, derrota os pretendentes e restaura a ordem de Ítaca.

Na política, contudo, não existe destino garantido. Quanto mais longa se torna a travessia da direita, maiores são as possibilidades de permanência daquele que já ocupa o oikos. A demora transforma-se em vantagem estratégica para quem governa.

Essa talvez seja a principal contradição do atual cenário político brasileiro. A cultura política parece conservar uma inclinação mais favorável ao campo de centro-direita em temas como segurança pública, responsabilidade fiscal e valores conservadores, entretanto, essa maioria cultural ainda não conseguiu se converter em unidade política.

A dialética se torna evidente: existe uma tese social favorável à direita, mas uma antítese produzida pela fragmentação de suas lideranças. Sem uma síntese capaz de reorganizar esse campo, o resultado tende a favorecer justamente aquele que ocupa a posição que muitos pretendem conquistar.

Talvez a principal lição de Homero permaneça atual: antes de vencer o adversário, é preciso concluir a própria viagem.

Na política, muitas vezes, o maior obstáculo não está do lado de fora, mas na incapacidade de construir unidade antes de alcançar o destino. E, enquanto a travessia continua, quem já está em casa permanece, ao menos por enquanto, senhor do próprio oikos.

EDITORIAL

Presença na fronteira que inibe o crime

Mais do que uma operação militar, a Jaguaretê reafirma um princípio básico da soberania nacional: fronteiras precisam estar sob vigilância permanente do Estado

20/07/2026 07h15

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O combate ao crime organizado nas regiões de fronteira exige mais do que ações pontuais das forças de segurança, requer presença permanente do Estado, integração entre instituições e capacidade de desestimular a atuação de organizações criminosas.

Sob esse aspecto, acerta o Exército Brasileiro ao colocar em prática a Operação Jaguaretê, coordenada pelo Comando Militar do Oeste (CMO), em Campo Grande, com atuação ao longo das fronteiras com a Argentina, o Paraguai e a Bolívia.

Como mostra reportagem publicada nesta edição, a operação mobilizará tropas e recursos próprios do Exército em ações articuladas com órgãos federais e estaduais de segurança pública.

Essa coordenação é fundamental para evitar sobreposição de esforços, ampliar o compartilhamento de informações e tornar mais eficiente o enfrentamento aos crimes transfronteiriços, especialmente o tráfico internacional de drogas.

Mato Grosso do Sul ocupa posição estratégica na geografia do crime organizado. A extensa faixa de fronteira com o Paraguai e a Bolívia transforma o Estado em uma das principais portas de entrada de drogas e mercadorias ilegais. Não por acaso, grandes apreensões realizadas nos últimos anos ocorreram na região.

Reforçar a vigilância nesses corredores significa proteger não apenas a população sul-mato-grossense, mas toda a cadeia de segurança pública do País.

Entretanto, o maior mérito da Operação Jaguaretê talvez não esteja nas apreensões que poderá realizar, mas naquilo que conseguirá evitar. Sua natureza é essencialmente dissuasória.

A presença ostensiva de tropas, patrulhas e postos de fiscalização reduz as oportunidades para a ação criminosa e aumenta a percepção de risco entre traficantes e demais organizações transnacionais.Em segurança pública, impedir que o crime aconteça é sempre mais eficiente do que combatê-lo apenas depois.

Essa lógica preventiva merece ser valorizada. O Estado demonstra sua força não apenas quando reprime o delito consumado, mas principalmente quando ocupa espaços estratégicos e dificulta a atuação de quem vive à margem da lei.

A fronteira brasileira, por sua extensão e complexidade, exige exatamente esse tipo de presença contínua e coordenada.

Mais do que uma operação militar, a Jaguaretê reafirma um princípio básico da soberania nacional: fronteiras precisam estar sob vigilância permanente do Estado.

Onde há instituições presentes, cooperação entre os órgãos públicos e monitoramento constante, o espaço para o crime organizado diminui.

O Exército Brasileiro, ao liderar esse esforço a partir de Mato Grosso do Sul, cumpre seu papel constitucional e contribui para uma política de segurança baseada na prevenção, na integração e na proteção do território nacional. Trata-se de uma iniciativa que merece reconhecimento e continuidade.

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