Artigos e Opinião

EDITORIAL

O tráfico de drogas muda de rota

O crime organizado também faz cálculos. Quando percebe aumento da fiscalização, da inteligência policial e do risco de apreensões, tende a rever rotas e estratégias

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Os dados publicados nesta edição do Correio do Estado revelam uma mudança importante na dinâmica do crime organizado em Mato Grosso do Sul. Campo Grande se tornou o maior entreposto de drogas do Estado em volume de entorpecentes apreendidos, superando regiões tradicionalmente ligadas ao tráfico.

O crescimento das apreensões de cocaína, sobretudo, ajuda a explicar esse novo cenário e exige uma resposta à altura das forças de segurança.

É preciso registrar que esse resultado também demonstra a eficiência do trabalho policial. Quanto maior o número de apreensões, maior o prejuízo imposto às organizações criminosas.

As polícias de Mato Grosso do Sul vêm obtendo resultados importantes no combate ao narcotráfico, retirando toneladas de drogas de circulação antes que elas cheguem ao mercado consumidor. Isso, por si só, já representa um ganho para a sociedade.

Ao mesmo tempo, porém, os números revelam uma realidade preocupante. Campo Grande deixou de ser apenas uma cidade de passagem para assumir um papel estratégico na logística do tráfico. Era um movimento esperado.

Pela localização geográfica, a Capital reúne condições para receber drogas provenientes da Bolívia e do Paraguai e redistribuí-las para diferentes regiões do País. A malha rodoviária, a posição central e a infraestrutura urbana tornam esse deslocamento mais eficiente para as organizações criminosas.

Também não surpreende que os chefões do tráfico priorizem os grandes centros urbanos, pois são cidades que oferecem maior circulação de pessoas e mercadorias, além de condições que facilitam a ocultação de atividades ilícitas em meio à economia formal.

Quanto maior a cidade, maior tende a ser a capacidade de esconder operações criminosas e movimentar recursos sem despertar suspeitas imediatas.

Essa mudança exige uma adaptação das estratégias de segurança pública. A fiscalização da faixa de fronteira continuará sendo indispensável, mas ela, sozinha, já não basta.

É necessário ampliar o monitoramento das grandes cidades, fortalecer o trabalho de inteligência, integrar bancos de dados e aprofundar as investigações sobre as organizações que comandam o tráfico e a lavagem de dinheiro.

Quanto mais eficiente for a atuação do Estado, maior será o efeito de dissuasão. O crime organizado também faz cálculos. Quando percebe aumento da fiscalização, da inteligência policial e do risco de apreensões, tende a rever rotas e estratégias. Esse efeito preventivo é tão importante quanto as próprias operações policiais.

Campo Grande se consolidou como um novo centro logístico do tráfico de drogas. Ignorar esse fato seria um erro. Cabe agora às forças de segurança reforçar sua presença nos grandes centros urbanos, sem descuidar da fronteira.

O combate ao narcotráfico precisa acompanhar a evolução das organizações criminosas, afinal, quando o crime muda de rota, o Estado também precisa mudar sua forma de agir.

ARTIGOS

Compliance: teoria demais ou conhecimento de menos?

Muitas vezes chamamos de "teórica" uma ideia não porque seja inaplicável, mas porque ainda não aprendemos a incorporá-la às decisões e práticas da organização

28/07/2026 07h30

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Em alguns ambientes profissionais, chamar uma ideia de “teórica” tornou-se uma forma rápida de afastá-la da realidade. Como se tudo o que nasce da pesquisa científica estivesse condenado a permanecer em livros, salas de aula e congressos.

A crítica merece atenção. Conhecimento restrito aos livros e congressos pouco transforma. O problema é que, muitas vezes, chamamos de “teórica” uma ideia não porque seja inaplicável, mas porque ainda não aprendemos a incorporá-la às decisões e práticas da organização.

O compliance não precisa de menos teoria. Precisa transformar conhecimento sério em prática organizacional.

Neurociência, psicologia social e ciências comportamentais acumulam há décadas evidências sobre como as pessoas decidem, aprendem, cooperam, confiam e seguem regras. Não oferecem fórmulas mágicas, mas critérios para desenhar ambientes, processos e comunicações que favoreçam comportamentos éticos.

Um exemplo está nos códigos de conduta.

Ainda é comum que esses documentos sejam escritos por poucos, aprovados pela alta administração e entregues prontos a milhares de trabalhadores. Depois, a organização realiza um treinamento, coleta assinaturas e espera comprometimento.

É uma espécie de Torre de Babel corporativa: poucos constroem no alto aquilo que todos deverão obedecer embaixo.

As ciências comportamentais ajudam a explicar por que esse modelo produz adesão limitada. Michael Norton, Daniel Mochon e Dan Ariely identificaram o chamado efeito IKEA: as pessoas tendem a valorizar mais aquilo que ajudaram a construir.

Quando participam da construção de uma regra, deixam de vê-la como algo imposto. Passam a compreendê-la melhor, reconhecem-se nela e tendem a valorizá-la mais.

Algumas organizações já levaram esse conhecimento à prática. A Novartis informa que seu Código de Ética foi cocriado com milhares de empregados e estruturado com base em ciência comportamental.

Na Petrobras, a elaboração do novo Código de Conduta Ética recebeu mais de quatro mil contribuições. Na Colômbia, milhares de servidores participaram da construção do Código de Integridade do serviço público.

Há ainda outra razão para incluir as pessoas. Décadas de pesquisas de Tom Tyler mostram que o cumprimento voluntário das regras depende da legitimidade percebida.

Quando as pessoas têm voz, recebem explicações e percebem o processo decisório como justo, tendem a aceitar as decisões e cooperar, mesmo quando o resultado não corresponde às suas preferências.

Participação, portanto, não é gentileza institucional. É tecnologia de gestão, educação e prevenção.

Estamos diante de um ponto de inflexão.

Podemos continuar construindo Babel – programas distantes das pessoas dos seus destinatários – ou podemos seguir a estratégia da reconstrução dos muros de Jerusalém: envolver pessoas em uma obra comum, distribuir responsabilidades e fazer com que cada uma se reconheça naquilo que ajudou a construir.

Babel nasce quando poucos decidem o destino de muitos. Jerusalém é reconstruída quando muitos participam daquilo que pertence a todos.

A ciência já explicou por que essa participação funciona. Organizações reais já demonstraram que ela é possível.

A pergunta não é se o compliance está teórico demais. A pergunta é por que insistimos em transformar a palavra “teoria” em rótulo de desqualificação para aquilo que sequer nos dispusemos a conhecer e colocar em prática.

EDITORIAL

Integração que fortalece a fronteira

Quanto maior a percepção de fiscalização, menor tende a ser o estímulo para práticas ilícitas, contribuindo para elevar a segurança da população

28/07/2026 07h15

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A parceria firmada entre a Secretaria de Estado de Fazenda de Mato Grosso do Sul e a Polícia Federal representa uma iniciativa oportuna e necessária para o fortalecimento da fiscalização nas regiões de fronteira.

Em um estado que compartilha extensas divisas com Paraguai e Bolívia, aprimorar o controle sobre a circulação de mercadorias não é apenas uma medida de natureza tributária. Trata-se de uma estratégia que reúne segurança pública, proteção da economia formal e fortalecimento das instituições.

A realidade das fronteiras mudou nos últimos anos. De um lado, organizações criminosas têm se profissionalizado, ampliando sua capacidade logística e financeira para atuar no tráfico de drogas, armas e mercadorias ilícitas.

De outro, também evoluíram as estratégias de fraude fiscal, evasão e elisão tributária, muitas delas apoiadas por sofisticadas estruturas contábeis e operações internacionais. Combater essas práticas exige inteligência, tecnologia e, sobretudo, integração entre os órgãos públicos.

É nesse contexto que a aproximação entre a administração tributária estadual e a Polícia Federal ganha relevância.

O compartilhamento de informações e a atuação coordenada ampliam a capacidade de identificar irregularidades, rastrear operações suspeitas e impedir que cargas transportadas de forma ilícita cruzem o território sul-mato-grossense sem o devido controle.

Em um estado que funciona como importante corredor logístico para mercadorias destinadas ao restante do País, essa vigilância se torna ainda mais estratégica.

Os benefícios não se limitam ao combate ao crime. Um sistema de fiscalização mais eficiente também contribui para elevar a arrecadação tributária.

Em um momento em que estados brasileiros enfrentam dificuldades para ampliar suas receitas e equilibrar as contas públicas, reduzir perdas decorrentes da sonegação e de fraudes fiscais é uma alternativa mais justa do que aumentar a carga tributária sobre quem já cumpre suas obrigações.

Há ainda um aspecto frequentemente negligenciado: a proteção da concorrência. Empresas que pagam corretamente seus impostos e cumprem todas as exigências legais não podem continuar competindo em desvantagem com organizações que reduzem artificialmente seus custos por meio da ilegalidade.

Outro efeito positivo é o fortalecimento institucional. A atuação conjunta demonstra que as estruturas públicas estão preparadas para enfrentar desafios cada vez mais complexos, oferecendo respaldo técnico e operacional tanto aos policiais quanto aos auditores fiscais.

Além disso, a presença mais efetiva do Estado nas áreas de fronteira tem um importante efeito dissuasório. Quanto maior a percepção de fiscalização, menor tende a ser o estímulo para práticas ilícitas, contribuindo para elevar a segurança da população.

Essa integração se torna ainda mais relevante diante das mudanças promovidas pela reforma tributária.

Com a criação do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), cuja arrecadação será compartilhada entre União, estados e municípios, cresce a importância de mecanismos capazes de assegurar a correta tributação das operações econômicas. A parceria entre a Secretaria de Fazenda e a Polícia Federal aponta nessa direção.

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