Artigos e Opinião

EDITORIAL

Os bilhões e a vida real das pessoas

Os investimentos bilionários previstos para os próximos anos podem ampliar a produção, gerar empregos, aumentar a arrecadação, fortalecer municípios e abrir oportunidades

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Nesta edição, o Correio do Estado enfatiza os investimentos bilionários previstos para Mato Grosso do Sul nos próximos anos.

São projetos de grande porte, concentrados principalmente nos setores de celulose, mineração e agroindústria, áreas que não apenas movimentam a economia estadual, mas também refletem uma vocação construída ao longo de décadas e que vem ganhando novas dimensões.

É importante, porém, olhar para esses números com a perspectiva adequada. Investimentos privados do porte dos anunciados para Mato Grosso do Sul não se concretizam apenas porque uma empresa decidiu aplicar bilhões de reais em determinada região.

Entre o anúncio e a operação de uma grande indústria existe uma série de fatores que precisam se encaixar. E um dos mais importantes é justamente a existência de mercado, interno e externo, para absorver a produção.

É neste ponto que, em período eleitoral, o eleitor deve prestar a atenção. A campanha política tende naturalmente a explorar emoções, identidades, paixões e conflitos. Tudo isso faz parte da disputa democrática.

Mas, diante de decisões que terão consequências para os próximos anos, também é importante que o voto seja orientado pela razão. Afinal, a economia não funciona isoladamente das escolhas políticas.

Uma fábrica pode ter tecnologia, capital, matéria-prima e mão de obra, mas precisa encontrar compradores para aquilo que produz. Se a demanda desaparece ou perde força, os investimentos são adiados, reduzidos ou deixam de fazer sentido.

Por isso, o rumo das políticas econômicas adotadas pelos governos é determinante para a criação de demanda, a manutenção do consumo e a confiança necessária para que empresas continuem investindo.

A macroeconomia pode parecer distante da realidade da maioria das pessoas. Inflação, juros, câmbio, dívida pública, crédito e equilíbrio fiscal são conceitos complexos e nem sempre fáceis de compreender.

Ainda assim, uma macroeconomia bem encaminhada inevitavelmente produz reflexos na microeconomia. O que acontece nos grandes números chega, de alguma maneira, ao comércio, às empresas, ao emprego e ao orçamento das famílias.

Da mesma forma, decisões equivocadas na condução da economia também acabam cobrando seu preço no cotidiano.

O excesso de endividamento, o crédito caro e as chamadas sangrias de dinheiro, como as bets, retiram recursos que poderiam circular na economia e comprometem a capacidade de consumo e investimento das famílias.

O ambiente econômico, portanto, não é uma abstração reservada a especialistas: ele determina oportunidades concretas.

Que os investimentos bilionários continuem chegando ao Estado. E que a sociedade compreenda que eles, de uma forma ou de outra, refletem no dia a dia de todos, muito mais do que se imagina.

Por isso, em meio à emoção de uma eleição, convém também olhar para os números, compreender as consequências das escolhas e reconhecer que política econômica, no fim das contas, também é política de emprego, renda e desenvolvimento.

EDITORIAL

Antídoto contra o colapso moral

A devassa policial na cúpula expõe como o desvio de milhões e a falta de transparência sufocavam o maior hospital de Mato Grosso do Sul enquanto a população pena

12/09/2026 07h10

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O maior hospital de Mato Grosso do Sul, referência fundamental no atendimento à saúde da nossa população, amanheceu sob o peso ostensivo das forças policiais e de investigadores do Ministério Público.

A Operação Antidotum, deflagrada pelo Grupo Especial de Combate à Corrupção (Gecoc) e pelo Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) com apoio do Batalhão de Choque, expôs ao Estado as entranhas de um esquema assustador: fraudes contratuais e desvios milionários que somam cerca de R$ 4,9 milhões apurados de forma preliminar.

A gravidade do quadro atinge o topo da gestão. A prisão preventiva da presidente da instituição, Alir Terra Lima, com outros dirigentes e envolvidos, não é apenas uma medida drástica de polícia judicial; é o sinal límpido de que o maior complexo hospitalar de Campo Grande vinha sendo gerido em total desconexão com o seu propósito primordial, que deveria ser salvar vidas com responsabilidade e transparência.

A contradição é acentuada quando se olha para o cotidiano recente da entidade, o mais importante e mais antigo hospital em atividade na capital de Mato Grosso do Sul.

Enquanto a sociedade sul-mato-grossense convive diariamente com discursos vazios de desequilíbrio financeiro, falta de insumos e episódios dramáticos como demissões em massa e calotes na classe médica e de anestesistas, portas adentro pagamentos vultosos e sem a devida prestação de serviços eram canalizados em esquemas ocultados de órgãos de fiscalização.

Como revelado pelo Correio do Estado em reportagens recentes, documentos eram sonegados até mesmo do Conselho Fiscal do hospital e da Controladoria-Geral do Estado.

Diante do abalo reputacional e administrativo, a reação do meio jurídico e da sociedade civil já começou a se desenhar com pedidos formais de intervenção judicial na instituição, visando afastar o grupo gestor, realizar auditorias independentes e resguardar o interesse público.

O fato de os atendimentos aos pacientes terem sido mantidos no dia de hoje se deve, única e exclusivamente, à vocação e ao empenho dos profissionais de saúde da porta para dentro, que não podem e não devem ser penalizados pelos atos perpetrados pela cúpula investigada.

A palavra antidotum, do latim “antídoto”, não poderia ser mais emblemática. A Santa Casa de Campo Grande carece urgentemente de uma medicação profunda contra a improbidade e a opacidade moral.

A apuração implacável das responsabilidades é o primeiro passo para que o hospital recupere a credibilidade institucional que a população de Mato Grosso do Sul merece e precisa desesperadamente.

ARTIGOS

Qualidade de vida em uma história de 80 anos

Nascia em meio aos esforços de representantes patronais e da classe trabalhadora em prol de uma sociedade democrática o Serviço Social do Comércio

11/09/2026 07h30

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O ano de 1946 trouxe novos ares para o Brasil. O início da redemocratização no País, marcado por uma nova Constituição, representava a esperança de progresso e dias melhores. O Serviço Social do Comércio (Sesc) foi criado nesse cenário.

Nascia em meio aos esforços de representantes patronais e da classe trabalhadora em prol de uma sociedade democrática. E foi por meio da democratização do acesso aos mais diversos serviços que o Sesc marcou sua trajetória nesses 80 anos, completos no dia 13 de setembro.

Idealizada pelos empresários do comércio, a instituição tinha como missão proporcionar qualidade de vida aos trabalhadores do setor e seus familiares. Tratava-se, na época, de um conceito incipiente, que carecia de modelos representativos.

O termo qualidade de vida era relacionado a aquisição de bens, fruto de um momento pós-guerra, quando a sociedade começava a se reestruturar economicamente.

Mas a realidade era que uma vida de qualidade precisava abranger muitos outros aspectos. O bem-estar humano necessitava de saúde física, saúde mental, relações sociais e meio ambiente.

Era preciso pensar no indivíduo de forma integral, observar o contexto em que ele vivia, as condições necessárias para que pudesse desenvolver suas habilidades e autonomia.

Uma das primeiras ações do Sesc teve como foco o momento livre do trabalhador. A ideia era transformar esse tempo em uma experiência memorável, capaz de proporcionar equilíbrio a rotina de trabalho.

Surgiram então as primeiras colônias de férias e projetos como os veraneios gratuitos, promovidos no Rio Grande do Sul, que levavam os comerciários e seus familiares para férias no litoral gaúcho.

Os trabalhadores também encontravam lazer no Sesc com as atividades esportivas. Criado em 1949, os Jogos dos Comerciários logo viraram um sucesso, com times montados em lojas e fábricas, competindo em modalidades como futebol, basquete e pingue-pongue.

Até o rei Pelé participou. Com 16 anos, ele era aprendiz em uma fábrica de botas e fez parte do torneio em Bauru.

Na área de saúde, o desafio se mostrou um pouco maior. Na década de 1940, havia uma forte incidência em doenças infectocontagiosas, além de elevada mortalidade infantil. Em resposta à questão, o Sesc construiu em Minas Gerais o Sanatório Barreiro, com 600 leitos voltados ao tratamento da tuberculose.

Também houve investimento em maternidades. Em 1949 foi inaugurada no Rio de Janeiro a Maternidade Carmela Dutra, que com apenas um ano de funcionamento já recebia o prêmio Caduceu, concedido pelo Departamento Nacional da Criança, por ser o Hospital mais eficiente no combate à mortalidade materna e perinatal.

Não poderia faltar a atuação do Sesc em educação, grande norteadora de todas as suas ações. Nos anos 1940, grande parte dos adultos brasileiros eram analfabetos ou tinham o mínimo estudo, porque necessitavam cedo trabalhar.

Em 1948, o Sesc já apoiava cursos de alfabetização de adultos e o crescimento desse trabalho culminou em um programa específico, o Sesc Ler, criado em 1998, que levou alfabetização e inclusão social a jovens e adultos que abandonaram os estudos precocemente.

Hoje, a Rede Sesc de Educação está presente em toda a Educação Básica, da Educação Infantil a Educação de Jovens e Adultos. São 234 escolas e 70 polos de Ensino à Distância da EJA.

Diversas outras ações foram desenvolvidas ao longo desses 80 anos, várias delas pioneiras e que se tornaram referência para políticas públicas e iniciativas privadas. Muitas outras estão sendo estudadas. Novos projetos, planos que são construídos no dia a dia, mediante a observação do nosso público e do contexto social.

Aos 80 anos, o Sesc não para de crescer e se adaptar. Talvez seja esse o segredo de sua longevidade: atuar no dia a dia, lado a lado com esses milhões de brasileiros que escrevem a nossa história.

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