Artigos e Opinião

Editorial

Razões para repensar o trânsito em MS

Chega! É hora de fazer gestão para salvar vidas e não para ter bons números de arrecadação. Se a política de multas funciona, por que o número de acidentes não diminuem?

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O Detran-MS faturou quase R$ 40 milhões em multas e taxas no último ano. É dinheiro que saiu do bolso do trabalhador, do autônomo, do motorista que acorda cedo para sustentar a família. Quarenta milhões de reais.

Um número que impressiona nos relatórios do órgão – mas que não impressiona nem um pouco ao se olhar para os corredores da Santa Casa e do Hospital Regional, que seguem lotados de vítimas de acidentes de trânsito.

A pergunta que o órgão e os poderosos da autarquia não respondem é simples e direta: se a política de multas funciona, por que os acidentes não diminuem?

A resposta, que gestores e tecnocratas do trânsito se recusam a admitir, é que punição financeira sozinha nunca salvou uma vida.

Multa não ensina a dirigir. Multa não capacita o condutor. Multa somente arrecada. E arrecadar, convenhamos, parece o objetivo real da gestão do trânsito há décadas.

É demagogia barata – mas cara para o cidadão – insistir que penalizar no bolso resolve o problema da segurança viária.

Essa tese serve ao gestor omisso, que terceiriza a responsabilidade do Estado para o motorista e dorme tranquilo enquanto o pronto-socorro trabalha em colapso.

Quem, nos últimos anos, viu uma campanha educativa do Detran-MS? Mas se a pergunta fosse outra – quem não pagou uma multa nos últimos anos? – essa sim seria a novidade.

Em ano eleitoral, o espetáculo piorou. Motos sem licença, carros com documentação vencida e condutores sem habilitação desfilam pelas ruas diariamente – e ninguém os para, porque fiscalizar esse público perde voto, é impopular.

O que rende é a blitz da Lei Seca: multa pesada, faturamento garantido. Alguém se perguntou quantas dessas operações aconteceram nos horários e trechos com maior índice de acidentes graves?

Blitz eficiente é blitz estratégica, baseada em dados, focada em comportamentos que matam: excesso de velocidade em vias críticas, direção alcoolizada, ultrapassagens proibidas. É educação antes da fiscalização.

É engenharia viária antes da infração.

O que dá mais voto? Prender 50 motos numa tarde de segunda-feira no centro da cidade ou manter um programa sério, contínuo e discreto de redução de mortes no trânsito? A resposta explica muito sobre o estado atual dos nossos hospitais.

A sociedade sul-mato-grossense merece saber para onde vão esses milhões todo ano – especialmente num órgão que acumula escândalos e viu sua credibilidade desmoronar diante da população que deveria servir. Merece um plano de segurança viária com metas reais, auditável, com prazo e responsável.

Merece que a vida valha mais do que o faturamento da catrefa que transformou o Detran-MS num balcão de arrecadação enquanto os acidentados lotam os hospitais e drenam recursos que deveriam ir para a educação viária e a sinalização.

Artigo

Pode um senador da República pedir dinheiro a banqueiro?

O problema surge quando uma das partes deixa de ser apenas um agente privado e passa a ocupar posição de relevo institucional na estrutura da República

25/05/2026 07h30

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A recente admissão por parte do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) de que celebrou robusto contrato de “patrocínio” com o diretor-presidente do Banco Master, Daniel Vorcaro – que, não de hoje, está no centro de investigações de indiscutível repercussão nacional – reacende uma discussão fundamental para qualquer democracia madura: até onde vai o direito ao sigilo contratual quando estão em jogo agentes centrais da República?

Segundo compartilhou o próprio parlamentar, a negociação envolveria cifras vultosas (fala-se, inicialmente, em R$ 64 milhões) destinadas ao financiamento de uma cinebiografia do pai dele, o ex-presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

Contudo, os detalhes do ajuste permaneceriam, em tese, protegidos por cláusulas de confidencialidade, possivelmente estruturadas sob a lógica de um Non Disclosure Agreement (NDA), que, traduzindo para a língua portuguesa, significa Acordo de Não Divulgação – instrumento comum no ambiente empresarial privado.

À luz do Direito e sob o prisma estritamente civil e contratual, não há anormalidade em cláusulas desta natureza. Até porque o sigilo negocial integra a autonomia privada e constitui ferramenta legítima de proteção estratégica, comercial e patrimonial. Contratos existem, afinal, para serem cumpridos, respeitados e protegidos.

O problema surge quando uma das partes deixa de ser apenas um agente privado e passa a ocupar posição de relevo institucional na estrutura da República.

A lógica desta engrenagem impõe diferenciação inevitável entre o cidadão comum e o homem público. Presidentes, ministros, governadores, parlamentares (deputados, senadores e vereadores), prefeitos, magistrados e demais figuras centrais do aparelho estatal não vivem mais exclusivamente sob a esfera privada, da intimidade. Ao assumirem funções de poder, tornam-se destinatários de um regime mais severo do escrutínio social.

Ora, a República é lastreada por figuras públicas e instituições que devem funcionar para além da legalidade formal. É preciso compreender que transparência, governança e responsabilidade são inerentes ao poder que tais autoridades exercem. Neste contexto, sim, há um preço a se pagar.

Não se trata de relativizar direitos fundamentais ou de se abolir garantias individuais. O que está em jogo é reconhecer que a própria preservação da confiança institucional exige padrões mais elevados de transparência. Órgãos e mandatários, no final das contas, vivem de credibilidade.

Nesta esteira de análise, e diante do episódio do suposto incentivo econômico do Banco Master à cinebiografia de Jair Bolsonaro, sistemas democráticos sólidos abarcam rígidas regras para agentes públicos.

Até mesmo porque a sociedade tem legítimo interesse em compreender relações financeiras, vínculos empresariais, créditos privados e estruturas contratuais que orbitam em torno de figuras de prestígio partidário e político.

Resumindo: quanto maior o poder exercido, menor deve ser a blindagem do sigilo pessoal em temas com potencial repercussão institucional, como o aparente financiamento de um banco liquidado para um filme sobre a trajetória de um ex-presidente da República – que, hoje, cumpre pena por suposta tentativa de golpe de estado.

Veja bem: não estamos a tratar de uma relação comercial e jurídica simples e rasa. Não é só um civil ligando para um empresário, para pedir recursos para bancar o filme sobre o pai.

É um senador da República solicitando aporte a uma instituição que, à época, já estava na mira da Justiça por crimes contra o sistema financeiro, formação de quadrilha, lavagem de dinheiro, fraude e corrupção.

A vida pública exige renúncias. Entre elas, a abdicação parcial à lógica absoluta da privacidade negocial. Não consiste em punição ao agente político – é consequência natural da função que ele mesmo optou desempenhar no aparato da República.

Quem ocupa posição central no cenário institucional brasileiro administra não apenas interesses individuais, mas, sobretudo, capital político, influência e confiança coletiva. E reputação pública depende, necessariamente, de probidade.

No fundo, este debate não é apenas jurídico, ou cultural – é civilizatório. Uma República saudável não se constrói apenas com contratos válidos, firmados em três vias em cartório.

Constrói-se, acima de tudo, com legitimidade, com a verdade dos fatos e com a clareza de contrapartidas – o que, com relação ao patrocínio do Banco Master para a cinebiografia de Jair Bolsonaro – e com os filhos políticos intermediando repasses na casa dos milhões – não está, ao menos, até o momento, oportunamente decifrada.

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Editorial

Trânsito inseguro e o Maio Amarelo

Nesta série de reportagens vamos tratar das contradições do trânsito na Capital e em MS: o número de multas aumenta, a arrecadação cresce, mas o trânsito continua perigoso

25/05/2026 07h15

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O trânsito de Mato Grosso do Sul se transformou, há muito tempo, em um dos principais retratos da insegurança cotidiana vivida pela população.

Em um Estado que frequentemente exibe indicadores econômicos comparáveis aos de países desenvolvidos, além de avanços importantes em setores como educação e agronegócio, é inadmissível conviver com um cenário viário tão desorganizado, perigoso e ineficiente.

Basta circular por Campo Grande ou percorrer algumas rodovias estaduais para perceber que o trânsito se tornou uma ameaça permanente.

Não se trata apenas de imprudência individual. O problema é estrutural. O próprio ecossistema urbano e rodoviário contribui diretamente para o caos.

Há ruas esburacadas, sinalização precária, cruzamentos inseguros e vias que parecem abandonadas pelo poder público.

Soma-se a isso uma frota crescente de motocicletas em situação irregular, motoristas sem habilitação, veículos sem condições mínimas de circulação e um ambiente generalizado de desrespeito às regras.

Em Campo Grande, atravessar um cruzamento semaforizado durante a noite, mesmo com o sinal verde, virou exercício de sobrevivência.

O cidadão correto aprendeu a desconfiar do próprio direito de passagem. O receio de que alguém avance o sinal vermelho é permanente.

E, infelizmente, com razão. O trânsito deixou de ser apenas um espaço de circulação para se transformar em um território de tensão e medo.

Diante desse quadro, é evidente que o Estado precisa agir com rigor. A fiscalização severa é necessária. A presença ostensiva dos órgãos de trânsito também.

O problema é que, na prática, a chamada “mão pesada” do poder público parece atuar quase exclusivamente para arrecadar.

Ela costuma alcançar justamente o motorista regularizado, documentado e com capacidade financeira para pagar multas e impostos. Enquanto isso, grande parte da informalidade e da ilegalidade segue circulando livremente pelas ruas.

É impossível ignorar a sensação crescente de seletividade. O cidadão que cumpre as regras percebe radares, notificações e cobranças.

Já aqueles que trafegam sem habilitação, sem documentos ou em veículos irregulares, muitas vezes, permanecem invisíveis ao sistema. Não por acaso, as estatísticas de acidentes, mortes e insegurança continuam alarmantes.

Estamos no Maio Amarelo, campanha nacional voltada à conscientização no trânsito. Mas conscientização sem eficiência prática se transforma apenas em discurso publicitário.

Nesta série de reportagens que iniciamos, mostramos justamente essa contradição: o número de multas aumenta, a arrecadação cresce, mas o trânsito continua perigoso.

Isso revela que as políticas públicas adotadas até aqui falharam em seu objetivo principal, que deveria ser salvar vidas.

Não basta multar. É preciso organizar o trânsito, recuperar vias, melhorar a sinalização, combater a informalidade e fiscalizar de verdade os focos de insegurança.

Segurança viária não se mede pela quantidade de notificações emitidas, mas pela redução de acidentes e pela capacidade de garantir tranquilidade à população.

E, neste aspecto, Mato Grosso do Sul ainda está muito distante do padrão de desenvolvimento que tanto ostenta em outras áreas.

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