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Riqueza de menino

O universo do Luís Pedro era uma riqueza de cores, texturas, gigantices e ideias improváveis em que imaginar alguma coisa já era quase vê-la pronta

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Há pouco um grande amigo encantado se encantou.

Antes de conhecer Luís Pedro, tudo o que eu sabia era que ele era herdeiro. Não sei nem de quê. Engraçada essa mania que temos de apresentar alguém pelo que parece caber numa frase. Luís Pedro não cabia.

Ele era um homem raro.

O universo do Luís Pedro era uma riqueza de cores, texturas, gigantices e ideias improváveis em que imaginar alguma coisa já era quase vê-la pronta. Eu sentia um menino maroto naquele homem chique, doce e gentil, ainda disposto a se espantar com uma ideia e curioso para descobrir até onde ela podia chegar.

E quase sempre chegava longe.

O melhor é que não guardava esse mundo para si. Acho que parte da diversão estava justamente em ver a nossa expressão quando entrávamos nele.

Uma boate nunca permanecia igual por muito tempo. Quando todos já conheciam o lugar, ele mudava tudo. Não trocava móveis. Atravessava séculos. O Pele Vermelha desaparecia para dar lugar ao século 15.

Depois ao século 16. Mudavam as paredes, os figurinos, a música, a luz, o jeito de entrar e até a maneira de permanecer ali dentro. Quem voltava não encontrava uma reforma. Encontrava outro mundo.

Luís Pedro parecia incapaz de aceitar que os dias precisassem ser comuns.

Imagina. Em Campo Grande, um avião caído no meio de uma pista de dança, cercado pelas mochilas dos sobreviventes em meio à mata.

Em outro tempo, jarras de vinho, uvas, pufes vermelhos de matelassê, corpos bonitos circulando entre as mesas enquanto eu dançava Madonna e Cher. Ele criava um lugar e, quando aquilo já fazia parte da cidade, desmontava tudo e começava outra vez.

No Natal, milhares de pequenas luzes faziam a cidade parar diante da casa do Papai Noel. Um teto inteiro de balas Sete Belo para falar de doçura. Balas de mel escondidas na poltrona. Pequenas coisas que, repetidas em suas mãos, ganhavam outra dimensão.

E como nos divertimos nessa vida.

Um dia resolvi montar um jantar de gala numa calçada qualquer da cidade. Mesa posta até o último detalhe, como tinha que ser. Luís Pedro apareceu de fraque, Brut Rosé e uma gravata borboleta que havia comprado no leilão dos objetos pessoais do Clodovil.

Claro que havia. Não perguntou por quê. Apenas me deu aquele olhar maroto de quem tinha entendido imediatamente a proposta.

Acho que ali nos reconhecemos.

O troco veio depois, numa volta pela cidade em seu Jaguar branco conversível, espumante nas mãos e aquele mesmo sorriso.

Nunca guardei essa lembrança pelo carro. Guardei a alegria de fazer aquilo simplesmente porque podíamos, porque era divertido, porque uma tarde qualquer não precisava continuar sendo uma tarde qualquer.

Riqueza de menino.

Há anos repito um dito popular: tem gente tão pobre que só tem dinheiro.

Luís Pedro foi o avesso disso.

O que havia de mais rico nele era a liberdade de imaginar, de se espantar, de transformar uma ideia improvável em alguma coisa enorme, colorida, exagerada, linda, e ainda chamar todo mundo para perto.
Talvez essa tenha sido sua maior extravagância: atravessar a vida adulta sem deixar o menino ir embora.

ARTIGOS

Quem julga o processo quando a opinião pública já julgou primeiro?

Quando isso acontece, os autos não entram sozinhos na sala de decisão. Eles chegam acompanhados de uma narrativa

06/08/2026 07h15

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Existem processos que chegam ao conhecimento da sociedade depois de examinados pela Justiça. Existem processos que chegam ao magistrado depois de já terem sido julgados nas manchetes, nas redes sociais e nas conversas do cotidiano.

Quando isso acontece, os autos não entram sozinhos na sala de decisão. Eles chegam acompanhados de uma narrativa.

Uma narrativa que, muitas vezes, já escolheu os personagens, definiu intenções, apontou culpados e estabeleceu qual deveria ser o resultado do julgamento.

Esse talvez seja um dos maiores desafios da Justiça contemporânea.

A imprensa exerce papel indispensável em qualquer democracia. Investiga, informa, fiscaliza e revela fatos que precisam ser conhecidos pela sociedade. Da mesma forma, o cidadão tem o direito de acompanhar o funcionamento das instituições, de questionar autoridades e até de criticar decisões judiciais.

O problema não está na fiscalização. Também não está na crítica. O problema começa quando a opinião pública deixa de avaliar uma decisão depois de proferida e passa a pressionar o resultado antes mesmo de ela existir.

Causas complexas raramente cabem em narrativas simples. Um processo pode conter milhares de páginas, provas técnicas, versões conflitantes, circunstâncias específicas e questões jurídicas que exigem tempo, cautela e contraditório.

Uma manchete, pela sua natureza, precisa resumir. Uma publicação nas redes sociais precisa ser rápida. Um vídeo precisa capturar a atenção em poucos segundos.

O processo judicial funciona de outra maneira. Ele exige dúvida. Exige análise. Exige que a versão apresentada por um lado seja confrontada com a versão do outro.

Enquanto o julgamento social procura rapidamente uma resposta para a pergunta “quem é o culpado?”, o julgamento jurídico deveria começar por outra: o que realmente pode ser demonstrado?

Mas, quando uma narrativa pública se consolida antes do exame completo dos fatos, qualquer decisão que posteriormente a contrarie passa a ser recebida com desconfiança.

Se o magistrado decide de acordo com a expectativa predominante, sua decisão parece natural. Se decide de maneira diferente, precisa explicar não apenas os fundamentos jurídicos, mas também por que contrariou uma conclusão que parte da sociedade já considerava definitiva.

É nesse momento que surge uma pergunta incômoda: o magistrado está decidindo o processo ou administrando a reação à sua decisão?

Essa pergunta não pretende retirar do magistrado a obrigação de prestar contas. Magistrados devem fundamentar suas decisões, respeitar a lei e responder por eventuais abusos. A atividade jurisdicional não pode ser confundida com poder absoluto.

Controle, transparência e responsabilização são essenciais. Mas existe uma diferença importante entre controlar a legalidade de uma decisão e intimidar o julgador porque o resultado não correspondeu à expectativa pública.

Uma coisa é responsabilizar um magistrado por abuso, desvio ou ilegalidade. Outra é criar um ambiente em que ele passe a calcular o custo pessoal, profissional ou institucional de decidir contra a narrativa dominante.

Quando isso acontece, a independência judicial deixa de ser apenas uma questão teórica. Ela passa a ser colocada à prova. A independência do julgador não existe para protegê-lo da crítica. Existe para proteger o processo da pressão. E, principalmente, para proteger o cidadão.

Qualquer pessoa pode, um dia, depender de um magistrado capaz de olhar para um processo e dizer: a narrativa aponta para um lado, mas as provas demonstram outro.

Sem essa liberdade, o processo corre o risco de perder sua função. Em vez de investigar os fatos, passa a confirmar uma conclusão formada fora dos autos. Em vez de examinar as provas, passa a administrar expectativas. Em vez de decidir com independência, passa a buscar a solução socialmente menos arriscada.

O problema se torna ainda maior quando a preocupação com a repercussão produz paralisia. Causas pequenas, de pouca exposição, continuam sendo decididas. Mas processos complexos, com impacto político, econômico ou social, tornam-se cada vez mais difíceis de enfrentar.

A ausência de decisão, porém, não é neutra.

Enquanto o processo aguarda, empresas podem permanecer paralisadas. Famílias continuam em conflito.

Patrimônios se deterioram. Direitos permanecem indefinidos. Pessoas seguem presas e submetidas aos efeitos de uma acusação ainda não julgada. Não decidir também produz consequências.

Talvez estejamos vivendo um paradoxo.

Nunca tantas pessoas acompanharam o funcionamento da Justiça. Nunca houve tanto acesso a informações sobre operações, investigações e processos. Mas talvez nunca tenha sido tão fácil formar uma falsa certeza a partir de uma versão parcial.

Democratizamos o debate jurídico. E, ao mesmo tempo, popularizamos a sentença sem processo. Hoje, todos comentam investigações, medidas judiciais e decisões de tribunais com a mesma segurança com que, durante anos, se discutiu a escalação da seleção brasileira.

O problema não é participar do debate. O problema é transformar fragmentos de informação em verdades definitivas. A sociedade não precisa se calar. A imprensa não deve deixar de investigar. Os magistrados não podem ficar livres de fiscalização.

O que precisa ser preservado é o espaço necessário para que uma causa complexa seja julgada com base nas provas, na lei e no contraditório, ainda que o resultado contrarie a opinião predominante. Porque uma justiça verdadeiramente independente não é aquela que decide sem ser questionada. É aquela que consegue decidir sem ser intimidada.

E, diante de tudo isso, permanece a pergunta: quem julga o processo quando a opinião pública já julgou primeiro?

EDITORIAL

Educação que faz a diferença

Os prefeitos, responsáveis pelo Ensino Fundamental, deveriam olhar para esses números com atenção. Mais do que rankings, eles representam o futuro das crianças

06/08/2026 07h10

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Os números do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), divulgados e detalhados nesta edição, oferecem mais do que um retrato da qualidade do ensino em Mato Grosso do Sul. Eles revelam, sobretudo, que bons resultados não acontecem por acaso.

São consequência de planejamento, continuidade administrativa, gestão profissional e compromisso com uma política pública que produz efeitos apenas em médio e longo prazo. A educação talvez seja a área em que mais se colhe exatamente aquilo que foi semeado anos antes.

No caso do Estado, os dados chamam a atenção por um contraste evidente.

Enquanto o Ensino Médio, cuja responsabilidade é majoritariamente do governo do Estado, apresenta evolução nos indicadores, o Ensino Fundamental, administrado principalmente pelos municípios, continua registrando desempenho entre os piores do País.

A diferença sugere que o problema não está na capacidade dos estudantes nem na realidade socioeconômica do Estado, mas na forma como a educação vem sendo conduzida em cada esfera de governo.

É claro que cada município possui os seus desafios e diferentes capacidades financeiras. Ainda assim, o Ideb demonstra que gestão faz a diferença. O Estado tem investido em metas, acompanhamento de resultados, valorização da rede e planejamento.

Não significa que tudo esteja resolvido, mas evidencia que profissionalismo na administração pública produz avanços concretos. O mesmo compromisso precisa chegar às redes municipais, responsáveis justamente pela etapa mais decisiva da formação de crianças e adolescentes.

Investir em educação nunca deve ser encarado como despesa. Se trata do investimento de maior retorno social e econômico que um governo pode realizar.

Uma população mais escolarizada reúne melhores condições para inovar, aumentar a produtividade, atrair empresas, gerar empregos qualificados e fortalecer a economia. Cidades que oferecem educação de qualidade se tornam mais competitivas e ampliam suas oportunidades de desenvolvimento.

Os benefícios, entretanto, vão muito além da economia. A educação transforma vidas individuais ao ampliar horizontes e criar oportunidades, mas também modifica o ambiente coletivo.

Pessoas mais instruídas tendem a cuidar melhor da própria saúde, adotar hábitos mais saudáveis, compreender a importância da prevenção de doenças, buscar informações em fontes confiáveis e participar de forma mais consciente da vida pública.

Por isso, não há política pública mais estratégica do que garantir uma educação básica de qualidade. Os resultados não aparecem de um mandato para outro, mas são permanentes quando construídos com seriedade.

Os prefeitos, responsáveis pela maior parte do Ensino Fundamental, deveriam olhar para esses números com atenção. Mais do que rankings, eles representam o futuro de milhares de crianças.

Investir em gestão, estabelecer metas, acompanhar indicadores e cobrar resultados não é uma opção, mas uma obrigação de quem administra recursos públicos. Mato Grosso do Sul já demonstra, no Ensino Médio, que é possível avançar.

Agora é preciso fazer com que essa evolução comece também nas salas de aula administradas pelos municípios. Afinal, nenhum projeto de desenvolvimento será duradouro se não tiver a educação como seu principal alicerce.

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