Artigos e Opinião

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À medida que avançamos em 2024, é notável o aumento no número de cidades brasileiras adotando políticas de tarifa social no transporte público. Este movimento marca um avanço significativo na busca por uma mobilidade urbana mais inclusiva.

Um levantamento da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU) mostra que o país tem 103 municípios, distribuídos por 14 estados e o Distrito Federal, que aderiram à prática, seja de forma universal (sete dias por semana), em dias específicos (aos domingos, por exemplo) ou para grupos em particular (como idosos, pessoas com deficiência e estudantes). São Paulo e Minas Gerais lideram a lista, com 29 e 26 municípios, respectivamente.

Vem crescendo o debate e as iniciativas que visam democratizar a mobilidade para o exercício da cidadania e a participação da vida política e cultural da cidade. No Enem 2023, 15 capitais do país ofereceram transporte público gratuito para garantir o acesso de todos os candidatos à prova. No segundo turno das Eleições 2022, 13 estados e o Distrito Federal também deram passe livre para os eleitores. No ano passado, Campinas (SP) deu exemplo no “Dia D” de vacinação de crianças e adolescentes, facilitando o acesso à saúde por meio da tarifa social.

Essas tendências respondem a um desafio crítico de mobilidade urbana, exacerbado pelo crescimento no uso do automóvel privado e pelo subfinanciamento do transporte público, levando a um aumento dos congestionamentos, da poluição e da desigualdade social, como aponta o pesquisador e jornalista pós-graduado pela PUC/SP, Daniel Santini, no livro “Passe Livre: as Possibilidades da Tarifa Zero contra a Distopia da Uberização”.

Só na cidade de São Paulo, o trânsito perdeu 1 bilhão de passageiros nos ônibus entre 2013 e 2022. Buscando atrair a população de volta ao transporte coletivo, a prefeitura criou a iniciativa “Domingão Tarifa Zero”, que dá gratuidade às viagens de ônibus aos domingos, no Natal, em 1º de janeiro e no aniversário da cidade (25 de janeiro). Com o slogan “Explore, descubra, viva São Paulo”, o governo espera ampliar o acesso ao lazer e contribuir para a economia do município. No primeiro domingo com isenção de tarifa, o número de passageiros em São Paulo aumentou 35%, de acordo com dados da prefeitura.

Tallinn, capital da Estônia, é um ótimo exemplo de implantação de tarifa social, que varia de preço conforme o tempo que o passageiro pretende usar o transporte e também das atividades que pretende realizar. Com € 2 é possível utilizar o transporte público por uma hora. Pagando € 5,50, esse período aumenta para 24 horas, e por € 30, garante-se 30 dias de transporte. A tarifa mais cara (Tallinn Card, por € 78) inclui 72 horas de transporte e entrada gratuita em todos os museus e pontos turísticos da cidade.

Estudos econômicos sugerem que a tarifa social, quando bem implementada, pode ajudar a equilibrar o sistema de transporte público, ao moderar a demanda e incentivar um uso mais racional do sistema. Além disso, análises de sistemas de transporte em cidades europeias, como Tallinn, revelam que a tarifa social, não apenas aumenta o acesso ao transporte, mas também contribui para uma melhoria geral na qualidade do serviço. Além disso, essa associação benéfica a outros setores da cidade, como as atividades culturais, gera a inclusão tanto de moradores da cidade em ações que talvez não pudessem estar inclusos, como beneficia o turismo local, podendo gerar mais renda para a cidade como um todo — em especial as mais turísticas.

 Lá fora há outras cidades atentas. Chama a atenção o caso dos EUA, que tem uma forte cultura automobilística e onde a posse de um carro está mentalmente associada a progresso, independência e ao “sonho americano”. No país onde o carro próprio é o desejo de todo jovem-adulto, Kansas City (Missouri) é conhecida por ser a primeira cidade a implementar a tarifa zero no transporte público, em 2017. Mostrando que esse é um sistema benéfico para a população, ao longo dos anos, vimos algumas cidades aderirem à ideia, como São Francisco, na Califórnia. Já em 2023, houve um salto: 25 cidades de estados como Washington, Colorado, Ohio, Virgínia, Nova Jersey, Oregon e Carolina do Norte começaram a fazer testes de tarifa zero, incluindo Boston (Massachusetts) e Nova Iorque.

Na China temos a maior experiência de incentivo social já realizada em todo o mundo, em Chengdu, a cidade dos pandas-gigantes, uma metrópole com mais de 20 milhões de habitantes. Em 2012, Chengdu liberou os passageiros do pagamento das viagens de ônibus até as 7 horas da manhã, com o objetivo de diminuir o congestionamento. Hoje, mais de dez anos depois, 116 linhas são gratuitas durante todo o dia e as restantes saem parcialmente gratuitas por meio do bilhete eletrônico.

O Brasil já possui as tecnologias necessárias para uma ampla e bem-sucedida adesão à tarifa social, garantindo transparência e confiabilidade nas operações. A bilhetagem eletrônica oferece um controle preciso sobre o fluxo de passageiros. Aliada a avanços como validadores com biometria facial e telemetria, a bilhetagem eletrônica poderia garantir uma transição suave rumo à maior adoção da tarifa social, com autenticação segura e geração de informações detalhadas para relatórios, evitando erros e fraudes no sistema. Em Florianópolis, por exemplo, a tecnologia por trás do transporte público foi fundamental para a isenção correta da tarifa nos dias determinados pela prefeitura.

Para que o país abrace definitivamente essas ideias, precisamos de um programa nacional de apoio às novas tarifas para garantir a sustentabilidade financeira do sistema. O envolvimento dos governos estaduais e federal é imperativo para fornecer subsídios, evitando prejuízos tanto para os municípios quanto para as empresas e operadoras do setor de transporte público, além de proporcionar mais qualidade de vida para a população.


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Como identificar relações amorosas abusivas

08/06/2024 08h30

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O Dia dos Namorados está chegando e se tornou muito comum trocar presentes e fazer declarações amorosas. Se por um lado essa prática apresenta expressões de afetividade, carinho e dedicação, por outro, pode ocultar traços de algo muito frequente na nossa cultura: as relações abusivas.

Viver um relacionamento abusivo é um processo mais complexo do que se pode supor à primeira vista. Raramente um relacionamento já se inicia evidenciando as características abusivas. Normalmente, trata-se de um processo que vai se aprofundando ao longo do tempo de convivência a partir de um domínio psicoemocional de uma das partes sobre a outra. 

Esse é um assunto sério e que merece absoluta atenção e cuidado de todos os segmentos sociais. De acordo com dados do relatório publicado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), somente em 2023 foram registrados 1.463 casos de feminicídio no Brasil, cerca de um caso a cada seis horas. Esse é o maior número registrado desde que a lei contra feminicídio foi criada, em 2015.

A pesquisa apontou que 18 estados apresentaram uma taxa de feminicídio acima da média nacional, de 1,4 mortes para cada 100 mil mulheres. Entre eles, o estado de Mato Grosso apresentou a maior taxa no ano passado, com 2,5 mulheres mortas por 100 mil. Entre 2015 e 2023, um total de 10,65 mil mulheres foram vítimas de feminicídio.

Afinal, por que esse é um problema que atinge muito mais as mulheres do que os homens no Brasil? A resposta é um tanto quanto óbvia, somos um País de bases extremamente patriarcais e machistas, o que significa dizer que, simbolicamente, as mulheres tendem a ocupar um lugar de inferioridade no tecido social e, por isso, são mais vulneráveis a todo tipo de violência. É pelo mesmo motivo que se torna, frequentemente, mais difícil para elas saírem ou evitarem situações de violência.

O psiquiatra austríaco Viktor Frankl fala de dois comportamentos humanos que favorecem a perpetuação de situações de violência: o conformismo e o totalitarismo. O primeiro (conformismo) é caracterizado pela aceitação sem oposição do que fazem conosco por não sabermos o que fazer. Já no segundo (totalitarismo), há uma imposição da vontade de um dos parceiros, desconsidera-se completamente a outra pessoa e suas as diferenças, não há empatia.

Assim, uma relação abusiva é necessariamente totalitária, já que uma das partes desconsidera deliberadamente a outra e a subjuga às suas vontades. É importante frisar que uma relação abusiva não começa declaradamente abusiva, ela vai construindo um domínio sobre o outro.

Inicialmente, há uma tendência ao encantamento, movimentos sedutores com elogios, agrados e dedicação quase exclusiva à pessoa. Posteriormente, vai-se havendo um controle em todas as instâncias da vida do outro: rede de relacionamento, vestimenta, lugares aonde vai, atividades de lazer, etc. Por fim, surgem as críticas, o menosprezo e os xingamentos, proibições no ir e vir, exclusão da convivência com amigos e familiares e agressões que podem escalar de humilhações psicológicas para físicas.

Há na vítima um sentimento em níveis variados de insegurança e inferioridade, além da baixa estima e da percepção distorcida da relação consigo, da relação e da realidade. O agressor costuma se manter em um patamar de alguém que “não faz por mal” ou “que exerce um cuidado além da conta” ou “que mudará”. 

Mesmo tendo a percepção do que está acontecendo, são muitos os fatores que podem dificultar para que a vítima saia de um relacionamento abusivo, tais como a dependência financeira, a dependência emocional, a pressão familiar, a pressão religiosa, o medo do que pode acontecer se denunciar e a falta de apoio social para sua emancipação.

Trata-se de uma problemática cultural no Brasil que deve implicar a todos nós, uma vez que estamos educando os nossos filhos e filhas a partir de como nos relacionamos em sociedade e da maneira como desenvolvemos e exercemos a nossa cidadania.

Políticas públicas de apoio a vítimas de abuso têm crescido no Brasil, contribuindo para a conscientização social e a introdução de novas perspectivas em nossa cultura. Graças a essas ações, cada vez mais pessoas têm buscado ajuda por meio dos serviços de saúde mental públicos e privados para construir novas relações e romper com o ciclo da violência.

Ainda assim, é preciso mais. Mais conscientização, mais políticas de educação e promoção social, mais iniciativas que nos aproximem pela via do afeto, da convivência com as diferenças, em que a perspectiva totalitária de um indivíduo ser subjugado pelo outro não faça mais sentido.

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Caminho da vida

08/06/2024 08h00

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Sabemos por meio das lições diárias que a vida nos oferece que, apesar das limitações intelectuais, nos encontramos sempre a caminho. Nada é definitivo. Tudo é passageiro. Tudo é vulnerável. Tudo em seus limites. E nós, míseros humanos, nos sentimos insaciáveis. Isso significa busca permanente de maneiras de viver.

Buscamos sempre caminhos possíveis. Buscamos sempre verdades que preencham o vazio da alma. Buscamos algo que consiga saciar a sede do eterno. Buscamos algo além do comum que consiga saciar a fome de amar e de ser amado, confiar e encontrar confiança, acreditar e ser acreditado.

Por esses assim chamados caminhos, ter a surpresa agradável de encontrar Deus e saborear sua grandeza de alma, sua generosidade no coração e sua misericórdia em suas mãos. Esse Deus de poucas palavras e de muito amor. Esse Deus de nada exigir e tudo doar na gratuidade. Esse Deus que não perturba, mas tudo renova.

Essa seria a imagem que todos e todas deveriam contemplar em seu interior. E deveria comunicar a tanta gente perdida nesse mundo por lhe faltar alguém que console na tristeza e lhe devolva a serenidade nos momentos amargos.

O Mestre dos mestres tantas vezes, em sua caminhada missionária, alertou a todos quantos quisessem segui-lo que não tivessem medo. O caminho, por vezes, se tornaria íngreme, o caminhar seria cansativo e desgastante. Era preciso coragem e confiança naquele que se encontrava no mesmo caminho.

A felicidade se encontra justamente nesse caminhar. Mas, apesar desse alerta, muitos desistiram e o abandonaram. Outros negaram reconhecê-lo e seguiram por outros caminhos. Outros o traíram e o condenaram. Outros juraram contra ele, o condenando à morte e morte de cruz.

A fidelidade de Deus viu-se transgredida e destruída. Mas ele não pensa em vingança, pensa em perdão e misericórdia, porque os humanos não entendem o amor divino. E isso poderia causar dificuldades, sem contar que Deus pode se aproximar da humanidade. Mas ele continua acreditar em uma convivência fiel.

O evangelista Marcos, em seus ensinamentos, mostra muito claramente as dificuldades que o Mestre estava encontrando para atender a tantos necessitados. Eram tantos que não sobrava espaço para o descanso e a alimentação. Revela o tanto que se dedicava e o tanto de desgaste por atender.

Mostra o tanto que seus seguidores deveriam aprender em esforço por acolher, atender e servir. Assim, hoje essas necessidades continuam e desafiam a generosidade dos também seguidores do Mestre dos mestres.

Mas o mundo de hoje tem maneiras diferentes de olhar as necessidades dos irmãos e das irmãs. Alegam que não sobra tempo para a caridade, não sobra tempo para a oração, não sobra tempo para a generosidade, não sobra tempo para a misericórdia. Não sobra tempo para Deus.

Entendemos que Deus terá que se contentar com as sobras de tempo. Terá que se contentar com as sobras de amor. Terá que se contar apenas com as sobras de bens a serviço da vida e da dignidade desses seres marginalizados e condenados a sobreviver com humanos e divinos.

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