Artigos e Opinião

Editorial

Verba da Saúde não pode financiar fraude

Crimes que atingem diretamente a saúde pública e seu orçamento deveriam, sim, ser tratados com maior severidade pela legislação, pois esta verba faz falta para a coletividade

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A revelação de um esquema que desviava recursos públicos da Saúde em Mato Grosso do Sul, valendo-se de decisões judiciais em caráter de urgência para a aquisição irregular de medicamentos, expõe uma distorção grave em um sistema que deveria existir justamente para proteger vidas. Nesse cenário, a atuação da Defensoria Pública do Estado merece reconhecimento.

Frequentemente criticada por gestores em meio ao debate sobre a judicialização da Saúde, a instituição demonstrou, na prática, seu papel essencial ao identificar indícios de abusos e acionar os mecanismos de controle.

Não se trata de um detalhe menor. O mecanismo explorado pela quadrilha aproveitava uma fragilidade estrutural: decisões liminares concedidas com base na urgência de pacientes – muitas vezes em estado grave, como no caso de pessoas com câncer –, nas quais não há tempo hábil para uma análise aprofundada.

Essa brecha, criada para salvar vidas, foi distorcida para alimentar um esquema que, conforme revelado, envolvia superfaturamento milionário na aquisição de medicamentos em situação irregular no País.

O mérito, contudo, não é apenas da Defensoria. A resposta articulada da Polícia Civil, do Ministério Público de Mato Grosso do Sul e da Procuradoria-Geral do Estado mostra que, quando as instituições funcionam de maneira coordenada, é possível enfrentar até mesmo esquemas sofisticados de desvio de recursos públicos.

A investigação e o avanço das apurações indicam que há capacidade de reação – e isso precisa ser ressaltado.

Ainda assim, o episódio levanta questões incômodas. Recursos destinados à Saúde não são apenas números em uma planilha orçamentária; representam atendimento, tratamentos, cirurgias e, em muitos casos, a chance de sobrevivência de milhares de pessoas.

Cada real desviado significa menos acesso, mais filas e maior sofrimento para quem depende exclusivamente do sistema público. O orçamento é limitado e indivisível: quando uma parte é capturada por fraudes, toda a estrutura sente o impacto.

Há, também, um dilema inerente à judicialização da Saúde. Se, por um lado, ela é instrumento legítimo para garantir direitos quando o Estado falha, por outro, abre espaço para distorções quando não há mecanismos suficientes de controle.

O caso revelado evidencia que a urgência, embora necessária, pode ser explorada por agentes de má-fé que se aproveitam da pressão sobre o Judiciário.

Diante disso, é inevitável discutir o rigor das punições. Crimes que atingem diretamente a saúde pública e seu orçamento deveriam, sim, ser tratados com maior severidade.

Não se trata de clamor punitivista, mas de reconhecer a gravidade de condutas que desviam recursos de um setor essencial e afetam, em última instância, vidas humanas.

O episódio é um alerta. Mas também é um exemplo de que instituições vigilantes fazem a diferença. Entre a fragilidade do sistema e a necessidade de proteção, a resposta deve ser firme, contínua e, sobretudo, exemplar.

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Reforma tributária e contratos de aluguel

Locatários frequentemente partem do pressuposto de que, na ausência de cláusula contratual específica, não há risco de aumento significativo no valor do aluguel além dos reajustes ordinários

23/04/2026 07h45

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A reforma tributária, cuja implementação ocorrerá de forma gradual entre 2026 e 2033, já começa a produzir efeitos concretos, ainda que de maneira indireta, em diversos setores da economia.

Um dos impactos menos debatidos, mas potencialmente relevantes, recai sobre os contratos de locação, tanto residenciais quanto comerciais.

Locatários frequentemente partem do pressuposto de que, na ausência de cláusula contratual específica, não há risco de aumento significativo no valor do aluguel além dos reajustes ordinários.

No entanto, essa percepção ignora um elemento essencial: a temporalidade dos contratos.

Todo contrato de locação possui prazo determinado. E, inevitavelmente, a maioria desses contratos será renovada dentro do período de transição da reforma tributária.

É justamente nesse momento, na renovação, que os efeitos da nova estrutura fiscal tendem a se materializar de forma mais evidente.

A razão é simples. A reforma implicará mudanças na carga tributária incidente sobre atividades econômicas, inclusive aquelas relacionadas à exploração de imóveis.

Ainda que o contrato vigente não preveja repasse direto desses custos, o locador, ao se deparar com uma elevação de encargos, buscará reequilibrar economicamente a relação contratual no momento da renegociação.

Isso significa, na prática, que há uma forte tendência de aumento nos valores de locação ao longo desse período de transição.

Trata-se de um movimento de mercado: custos maiores tendem a ser repassados, especialmente em setores onde há demanda consolidada, como o imobiliário.

No caso das locações comerciais, o impacto pode ser ainda mais sensível, uma vez que empresas também estarão absorvendo os efeitos da reforma em suas cadeias produtivas.

Esse cenário pode gerar um efeito cascata, pressionando ainda mais os valores praticados.

Diante disso, é fundamental que locatários adotem uma postura preventiva. A renovação contratual não deve ser tratada como mera formalidade, mas como um momento estratégico de análise.

É essencial verificar se o valor proposto está alinhado com a realidade do mercado e com as condições específicas do imóvel.

Além disso, a assessoria jurídica especializada torna-se um diferencial relevante. Um profissional com conhecimento em Direito Imobiliário e Tributário poderá avaliar não apenas os aspectos contratuais, mas também os reflexos indiretos da reforma, contribuindo para decisões mais seguras e equilibradas.

A reforma tributária não atua apenas no plano macroeconômico. Seus efeitos se desdobram no cotidiano, alcançando relações privadas como os contratos de locação. Ignorar esse movimento pode resultar em surpresas financeiras indesejadas.

Antecipar-se, por outro lado, é a melhor forma de preservar o equilíbrio e a previsibilidade nas relações contratuais.

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A fala destemperada de Trump

Um tempo em que o verbo se antecipa ao pensamento, em que a palavra deixa de ser instrumento de construção para se transformar em arma de impacto imediato

23/04/2026 07h30

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A fala recente de Donald Trump envolvendo o papa Leão XIV não é apenas mais um episódio de sua conhecida retórica impulsiva.

É, antes, um sintoma eloquente de um tempo em que a linguagem pública se degrada, perde filtros e abdica da liturgia mínima que se espera de quem ocupa ou já ocupou o poder.

Vivemos, de fato, um mundo alucinado. Um tempo em que o verbo se antecipa ao pensamento, em que a palavra deixa de ser instrumento de construção para se transformar em arma de impacto imediato.

O problema não está apenas no conteúdo da fala, mas na forma. Há coisas que simplesmente não se dizem – ou, se ditas, exigem o véu da metáfora, a elegância da indireta, o cuidado da diplomacia.

A história da política é, também, a história da linguagem. Dos discursos de Cícero à sutileza estratégica de Maquiavel, passando pelo cerimonial de corte de Luís XIV, a palavra sempre ocupou papel central na construção do poder. Não por acaso, o exercício da liderança exige domínio da forma, do tom e da oportunidade.
 

Trump, ao contrário, parece cultivar o improviso como método e a grosseria como estilo. Sua fala, ao tocar uma figura de elevada simbologia espiritual como o papa, ultrapassa a fronteira da crítica política para ingressar no terreno da indelicadeza gratuita. É como dizer, para usar uma analogia recente, que “chinês come cachorro”. Não se trata de liberdade de expressão, mas de ausência de refinamento. É a linguagem que escorrega para o preconceito, para o simplismo, para a infantilização do debate.

Um estadista – ou alguém que aspire a sê-lo – não precisa abdicar da firmeza para exercer a elegância. Ao contrário: a verdadeira força política se expressa, muitas vezes, na capacidade de dizer sem ferir, de criticar sem vulgarizar, de discordar sem descer ao nível do insulto. A diplomacia, afinal, é a arte de administrar conflitos por meio da palavra.

O episódio revela algo mais profundo: a erosão dos padrões civilizatórios no discurso público. Em tempos de redes sociais, a recompensa está no impacto imediato, no corte viral, na frase que provoca reação instantânea.

O algoritmo premia o exagero, não a ponderação. E líderes que se adaptam a essa lógica acabam por reforçá-la, criando um círculo vicioso de radicalização verbal.

O resultado é uma arena pública mais ruidosa, porém menos qualificada. O debate perde densidade, a argumentação cede lugar ao ataque e a política se aproxima perigosamente do espetáculo. O que deveria ser diálogo transforma-se em performance.

No caso específico da fala sobre o papa, o dano não é apenas institucional ou diplomático. É simbólico. O papa representa, para milhões, não apenas uma autoridade religiosa, mas um referencial moral.

Atacá-lo de forma desabrida é, em alguma medida, desconsiderar esse universo simbólico e, por consequência, os próprios fiéis que nele se reconhecem.

É possível – e legítimo – discordar do Vaticano, de suas posições, de sua atuação global. Mas há formas e formas de fazê-lo. Entre a crítica fundamentada e a grosseria há uma distância que separa o estadista do agitador.

No fundo, a questão que se impõe é simples: que tipo de linguagem queremos ver prevalecer na vida pública? A que constrói pontes ou a que cava abismos? A que ilumina ou a que incendeia?

A resposta a essa pergunta definirá não apenas o nível do debate político, mas a própria qualidade da democracia.

Porque, no fim das contas, não é apenas o que se diz que importa, é como se diz. E é aí que, muitas vezes, se revela a verdadeira estatura de um líder.

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