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Voto feminino é uma história que vai além da eleição presidencial

Hoje, as mulheres constituem a maioria do eleitorado brasileiro. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), são aproximadamente 83,9 milhões de eleitoras em 2026, equivalentes a 52,84% do total

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O debate sobre o voto feminino reúne questões de cidadania, autonomia e participação nas decisões públicas. No Brasil, esse direito foi reconhecido pelo Código Eleitoral de 1932 e incorporado à Constituição de 1934, após um processo de mobilização em que participaram mulheres como Bertha Lutz, bióloga, educadora, diplomata e política brasileira. Conhecer essa trajetória permite compreender que a presença feminina na política tem uma história de organização e reivindicação.

Hoje, as mulheres constituem a maioria do eleitorado brasileiro. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), são aproximadamente 83,9 milhões de eleitoras em 2026, equivalentes a 52,84% do total.

Essa maioria numérica, porém, reúne experiências, condições econômicas e posições políticas diversas. Não é um contingente homogêneo.

Também há diferenças na definição do voto. Em pesquisa do Datafolha divulgada em setembro, a pergunta espontânea sobre a eleição presidencial encontrou indecisão entre 32% das mulheres e 19% dos homens.

Paralelamente, as redes sociais deram visibilidade ao fenômeno das tradwives, influenciadoras que apresentam modelos de vida centrados na dedicação doméstica e em papéis tradicionais de gênero.

Pesquisas sobre essas criadoras de conteúdo examinam a tensão entre a promoção da dependência feminina e o trabalho comercial desenvolvido por elas próprias nas plataformas digitais. A escolha pessoal de se dedicar ao lar e a defesa de restrições à autonomia das mulheres são questões distintas.

A discussão sobre participação política, entretanto, abrange mais do que a disputa presidencial, pois as eleições em 2026 também abrangem os governos estaduais, o Senado, a Câmara dos Deputados e as assembleias estaduais e a Câmara Legislativa do Distrito Federal. Cada uma dessas instituições exerce atribuições próprias.

Na esfera federal, o Legislativo participa da elaboração das leis e da fiscalização do Executivo. A Câmara dos Deputados, por exemplo, atua no acompanhamento de despesas, na análise de contas e na fiscalização financeira e orçamentária. Essas funções ajudam a explicar por que a composição do parlamento tem consequências para a administração pública, independentemente de quem ocupa a Presidência.

A história do voto feminino e o funcionamento das instituições oferecem, assim, duas dimensões complementares para compreender as eleições: quem participa das escolhas públicas e quais poderes serão exercidos pelos representantes eleitos. Há um campo de discussão sobre cidadania e representação que vai além da polarização presidencial.

Madeleine Albright, política e secretária de Estado dos EUA entre 1997 e 2001, dizia que “há um lugar especial no inferno para mulheres que não ajudam outras mulheres”. A frase incomoda e talvez seja justamente esse o seu valor: colocar sob exame a distância entre defender a igualdade e abrir espaço para que outras participem das decisões.

Ser maioria entre quem vota e ter acesso aos espaços de poder são coisas diferentes. Essa distância merece atenção para além da disputa presidencial. Que obstáculos ainda limitam a participação feminina? Como a solidariedade entre mulheres convive com nossas diferenças políticas? E o que significa representação em uma sociedade na qual as experiências das mulheres são tão diversas?

Uma sociedade mais justa e equitativa passa também pela qualidade dessas respostas. O voto feminino tem uma história de conquistas, mas igualdade na participação pública continua sendo uma questão do presente.

ARTIGO

Segunda época

12/10/2026 08h15

Arquivo

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Precisamente no século passado, quando ainda no colégio, eu era craque em desenho geométrico, embora “perna de pau” em matemática. Vivia um ano escolar de satisfação, pois a grade escolar considerava como média final de uma única matéria a soma das duas notas daquele saber acadêmico.

Até então eram essas as regras pedagógicas que foram alteradas no fim do ano e que para minha surpresa após os exames, passaria com elogio em desenho e seria reprovado com louvor em matemática. De nada adiantou o “jus sperneandi”, meu protesto, pois a decisão desfavorável transformaria a minha garantia em um infortúnio.

A parte mais difícil era revelar aos olhos do meu pai a ocorrência, a decepção, o súbito e justificar a frustração do resultado daquele fracasso retumbante e ouvir sobre o fato pesaroso, primeiro aquela preleção e a seguir a repreensão provável.

Pois bem, o que ouvi? – A segunda época foi feita para o aluno (palavras da salvação). Sabe o que significava? 

Significava uma segunda chance e ali já estaria posto tanto o rol das obrigações e das perspectivas negativas: o fim das férias, ter de estudar, fazer o dever de casa que não tinha feito, a possibilidade de mudar de escola e companheiros pelo fato de ficar atrasado, o valor das mensalidades dobradas que pesariam no orçamento, ouvir durante um ano a mesma “inana”, e o pior, a desconfiança sobre as expectativas que tinham sido colocadas sobre meus ombros, como a oportunidade de mostrar a habilidade de aceitar e driblar as vicissitudes da vida juvenil. 

Tudo se acertou, e felizmente compreendi que na vida não existe certeza, pois a incerteza nos ronda e não podemos adivinhar o futuro, embora devamos ter a capacidade de adaptação ao desafio e gerenciar a rotina diária.

Metaforicamente trazendo essa lembrança para o contexto das eleições e o resultado atual, posso dizer que o segundo turno nas eleições nada mais é que uma segunda época. 

Uma chance para corrigir as falhas de planejamento separando-as dos fatores externos, avaliar friamente que se sucedeu, o que foi errado, fazer autocritica sem apegar-se ao resultado negativo, e considerar que a reprovação não é um ponto final e sim uma oportunidade de rebater o fracasso a partir de uma nova perspectiva e atitude desenhando a estratégia a ser assumida.

Mudar a abordagem, tentar com ferramentas mais afiadas, evitar inteligentemente a persistência na teimosia cega é o combustível que move os realizadores diante dos obstáculos, pois o triunfo não pertence a quem não cai, mas a quem domina a arte de se levantar mais forte depois do tombo.

Analistas políticos afirmam que parcelas da população canalizaram falsamente suas frustrações socioeconômicas contra o sistema político estabelecido, e que supostamente falhou em entregar estabilidade e o crescimento sustentável, uma narrativa desleal, incluindo mentiras sobre a precarização dos serviços públicos e de salários irreais.

Com discursos xenofóbicos, negacionistas e fascistas sempre relacionados na tríade, ordem, pátria e segurança os movimentos da direita ganham força sub-repticiamente. E assim alimentam o medo sobre o descontentamento dos bens materiais e os valores tradicionais consolidando sua principal força de contestação e poder.

Para enfrentar e passar no segundo turno, e conquistar indecisos, os progressistas devem se travestir das mesmas ideias propostas pelos seus adversários políticos, como concentrar sua comunicação digital em um número reduzido de temas e produzir conteúdo adaptado para esses formatos dinâmicos, saindo das bolhas tradicionais de mídia escrita acadêmica e serem repetidos e diretos para a fixação das narrativas.

Importante é substituir termos técnicos por uma linguagem simples e universal pautando as decisões governamentais que afetam diretamente a renda e o bem-estar familiar e ter em mente que o radicalismo costuma afastar o cidadão moderado. A prática mostra que se deve evitar o confronto de crenças pessoais, mantendo o foco estrito no papel social do Estado e combatendo boatos de viés anticlerical e saber que o radicalismo costuma afastar o cidadão moderado, todavia sempre alertando sobre as conquistas reais com propostas concretas e as relacionadas ao futuro do emprego, bem-estar e os direitos sociais. 

A direita tem demonstrado vantagem estratégica no uso das redes sociais e na comunicação digital direta ao capturar os anseios das novas gerações de eleitores, e pautar costumes em defesa da família tradicional e dos valores religiosos para os mais velhos. 

Considerar tais objetivos será um ponto de partida para uma virada no segundo turno eleitoral, valendo-se do aprendizado para quem entendeu o significado da segunda época.

EDITORIAL

Proibição sob pressão dos vizinhos

Nem as promessas comerciais da indústria do tabaco devem ser aceitas sem questionamento nem a proibição pode ser considerada eficaz apenas por existir

12/10/2026 08h00

Capa editorial correio do estado

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A abertura dos mercados da Argentina e do Paraguai a alternativas ao cigarro convencional impõe ao Brasil um desafio que já não pode ser tratado apenas sob a ótica da proibição. Como mostramos nesta edição, os países vizinhos passaram a permitir produtos como cigarros eletrônicos, dispositivos de tabaco aquecido e bolsas de nicotina. Embora alguns contenham nicotina, essas alternativas buscam eliminar ou reduzir a combustão, responsável pela produção de diversas substâncias tóxicas presentes na fumaça do cigarro tradicional.

A decisão dos vizinhos representa um xeque-mate para a política brasileira? Talvez ainda não, mas torna mais difícil sustentar uma estratégia que convive com a oferta clandestina e a ausência de um mercado legal regulado. Se mantiver as restrições, o Brasil corre o risco de ampliar o espaço para o contrabando e a comercialização de produtos sem controle adequado de procedência, composição e qualidade, afinal, a proibição não impede que mercadorias atravessem as fronteiras.

Quando existe demanda por produtos proibidos, o comércio ilegal encontra meios de atender os consumidores. Isso não significa que a liberação acabará com o contrabando, mas evidencia que proibir não elimina o consumo nem garante, por si só, a proteção da população.

A regulamentação precisa, portanto, entrar no debate sem preconceitos ou conclusões antecipadas. Os defensores dessas alternativas argumentam que a ausência de combustão pode reduzir a exposição a determinadas substâncias tóxicas. A indústria, naturalmente, tem interesse comercial na expansão desse mercado e suas alegações precisam ser avaliadas com rigor científico e independência.

Também é necessário reconhecer que esses produtos não são inofensivos. A nicotina causa dependência, e os riscos variam conforme a tecnologia, a composição e a forma de consumo. Reduzir a exposição a algumas substâncias não significa comprovar segurança, tampouco justifica recomendar esses produtos a quem não fuma. Proteger crianças, adolescentes e não fumantes deve continuar sendo prioridade.

Ainda assim, tratar todas as formas de consumo de nicotina como se fossem idênticas não contribui para uma política pública eficiente. Uma eventual regulamentação poderia estabelecer padrões de fabricação, rastreabilidade, tributação, restrições à publicidade, controle de acesso e fiscalização. Poderia também gerar arrecadação e oferecer instrumentos para combater o comércio clandestino.

O Brasil precisa superar os vieses que contaminam essa discussão. Nem as promessas comerciais da indústria devem ser aceitas sem questionamento nem a proibição pode ser considerada eficaz apenas por existir. As decisões precisam se apoiar em evidências científicas independentes.

A pergunta que se impõe é objetiva: vale a pena proibir produtos cuja procura persiste e cuja oferta já encontra espaço nos países vizinhos? A resposta exige avaliar riscos, custos e benefícios, sem confundir regulamentação com incentivo ao consumo. O compromisso do poder público deve ser com a saúde da população, e isso exige políticas capazes de enfrentar a realidade, em vez de simplesmente ignorá-la.

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