Ônibus para familiares e amigos, velório e enterro completo pagos, em cemitério particular, com comida farta. A despedida de Kleber da Silva Rodrigues, conhecido como Klebinho, integrante da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC), morto em confronto armado com policiais civis em Ponta Porã, no dia 10, é um contraste considerável com a situação da família do policial civil Wescley Dias Vasconcelos, 37 anos, executado na mesma cidade do interior de Mato Grosso do Sul dia 6 de março.
O Sindicato dos Policiais Civis de Mato Grosso do Sul (Sinpol/MS) iniciou campanha de doação entre filiados e não-filiados do órgão para arrecadação de dinheiro para a mudança da mulher do investigador e o filho dele, de 5 anos. Eles voltarão para Brasília (DF), terra natal de Wescley. A ajuda solicitada é também para oferecer algum apoio aos dois para se manterem enquanto não ganham a pensão do policial.
Segundo o presidente do sindicato, Giancarlo Miranda, a burocracia atrasa o início do pagamento da pensão em até quatro meses, o que complica a situação da família do policial no período.
A demora do trâmite é por conta do processo. A família, com apoio do Sinpol, pede a pensão à Polícia Civil, que repassa o pedido à Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp), responsável por encaminhar a papelada à Agência de Previdência do Mato Grosso do Sul (Ageprev-MS), que só inicia o pagamento após autorização do Executivo.
"A gente pede há tempos que o governo do Estado crie um fundo de indenização para pagamento imediato aos policiais vitimados pela violência", disse Miranda. Segundo o sindicalista, Mato Grosso do Sul não paga indenização à categoria, diferente de estados como São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, que estabelecem seguro a seus agentes de segurança, desde que o óbito ocorra em horário de trabalho ou por ação criminosa, como execução ou latrocínio (morte em assalto).
A reportagem procurou a Sejusp para verificar qual era o andamento do processo de pagamento de pensão do investigador, mas a pasta divulgou que detalhes serão divulgados na segunda-feira (19).
'PARTIDO'
Burocracia de um lado, privilégio do outro. Os parentes de Klebinho tiveram ônibus, ganharam verba imediata e funeral integralmente pago pela facção criminosa.
Inquéritos do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público de São Paulo e Polícia Civil daquele estado apontam que casos como o de Klebinho, um membro de destaque do PCC, a organização criminosa financia todos os custos. Um dos relatórios das autoridades revelou que são mantidos até jazigos em cemitérios particulares de luxo de cidades específicas, como Ponta Porã.
"Você tem uma oferta grande de benefícios aos 'batizados'", disse o jornalista Bruno Paes Manso, pesquisador do Núcleo de Estudos sobre a Violência (NEV) da Universidade de São Paulo (USP), uma das referências em estudos sobre a facção crimninosa.
Segundo Manso, o modelo de negócio que possibilitou a expansão do 'Partido', como é chamada a facção entre os seus filiados, foi justamente os benefícios a seus integrantes. "Com o pagamento de uma mensalidade, se tem acesso a vários serviços. Há conhecimento de que quando preso, os membros ganham advogados, as famílias cestas básicas, ajuda de custo nas viagens para visitas", disse.
Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública evidenciam como o modelo de gestão atraiu a massa criminosa. Em 2001, quando o PCC iniciou as primeiras rebeliões de vulto nos presídios paulistas, eram cerca de 200 filiados. Hoje, quando controlam quase que a totalidade do fluxo do tráfico de drogas do Brasil, estima-se algo em torno de 1.800 membros, sete vezes mais.
"Aliando-se ao PCC abre-se uma oferta grande de benefícios empresariais ao traficante, contatos, meios de produção e transporte, armas, empréstimos para assaltos", disse Manso.
Professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) de São Paulo, ex-subsecretário Nacional de Segurança Pública e pesquisador dos métodos de atuação do crime organizado, Guaracy Mingardi disse que em estados como Mato Grosso do Sul a oferta financeira do PCC se tornou vantajosa.
"Diferente de outros estados, em Mato Grosso do Sul era benéfico uma aliança com o PCC, afinal suas regras disciplinaram as relações nos presídios, como o fim do estupro, por exemplo, além dos benefícios às famílias e as justificativas e aprovações prévias para os assassinatos. Acabou a pistolagem", disse.
ORGANIZAÇÃO
Para Mingardi, os estados devem agir por conta própria, trocando informações e planejando atuação conjunta para atacar a facção. "Há muito que o governo federal abandonou a inteligência na fronteira. Os estados têm que unir com o que tem, trocar informações sobre essas rotas do Paraguai, seus desdobramentos, os controladores, integrantes. Inteligência de quem é de rua, sente de perto o problema", disse.
"(O PCC) não é tão organizado quanto se pensam. Não há uma estrutura empresarial de alto rendimento. Mas muito amadorismo. Muitos dos beneficíos são somente para as lideranças e o modelo é pouco democrático, com os integrantes da base muitas vezes esquecidos, apesar do alto faturamento", concoluiu Manso.
Patinetes postos no Belmar Fidalgo - Foto: Paulo Ribas / Correio do Estado

