Márcio dos Santos Nepomuceno, o Marcinho VP, um dos chefões da facção criminosa Comando Vermelho (CV), está preso há 30 anos e, desde janeiro de 2024, é interno na Penitenciária Federal em Campo Grande.
Mesmo com todo esse tempo longe da sociedade, a Polícia Federal (PF) e a Polícia Civil já fizeram quatro operações com mandados de prisão contra ele e seus familiares porque, apesar da detenção, investigações indicam que ele segue no comando de ações de tráfico de drogas e de armas e como chefe da facção criminosa.
Ontem, Marcinho VP foi alvo de um novo mandado de prisão, desta vez porque a PF afirma que ele utilizava um canal de comunicação, por meio de dois sobrinhos, para manter contato com integrantes da alta cúpula da organização, que estão em liberdade.
A análise de dados de um dos principais líderes da facção, foragido da Justiça, revelou que os dois sobrinhos do preso atuariam como mensageiros entre ele e o CV.
Segundo as investigações, um dos alvos visitava frequentemente o chefão em Campo Grande, após contatos com a liderança foragida no Rio de Janeiro. Mensagens indicam que integrantes da organização criminosa ainda reconhecem o custodiado como líder do CV.
Um dos familiares de Marcinho VP ocupa cargo comissionado em câmara municipal da Baixada Fluminense e adquiriu, nos últimos dois anos, patrimônio que se mostra, em princípio, incompatível com a renda declarada.
Por causa dessas informações a Força Integrada de Combate ao Crime Organizado de Mato Grosso do Sul (Ficco-MS) e o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado Nacional do Ministério Público Federal (Gaeco Nacional/MPF) deflagraram ontem a Operação Cesura, para desarticular o canal.
As equipes policiais cumprem um mandado de prisão preventiva, dois mandados de prisão temporária e dois mandados de busca e apreensão, nos municípios do Rio de Janeiro (RJ) e de Belford Roxo (RJ).
A prisão preventiva é cumprida na Penitenciária Federal na Capital, onde o investigado permanecerá custodiado. As medidas foram decretadas pela 3ª Vara Federal de Campo Grande.
A investigação teve início a partir de provas compartilhadas pelo Gaeco/MPF no Rio de Janeiro, obtidas no âmbito da Operação Red Fox, que apura o tráfico internacional de armas de grosso calibre e de drogas pelo Suriname, fronteira norte do País.
Arnaldo Ribeiro, fornecedor de armas do CV, foi preso nesta fase, no dia 22 de junho deste ano. De acordo com a PF, ele movimentou R$ 150 milhões.
De acordo com as investigações da Superintendência da PF no Rio de Janeiro e do Gaeco/MPF, Arnaldo Ribeiro negociou a compra de 10 fuzis AK-47 para a facção.
Além do fornecedor de armas do CV, a mulher dele, Denise Mendonça, também foi detida pela polícia surinamesa em uma mansão em Paramaribo. O casal foi extraditado e recebeu voz de prisão pela PF ao desembarcar em Belém (PA).
Arnaldo negociava diretamente com Edgard Alves Andrade, o Doca, um dos chefões do CV e que está foragido. Doca foi alvo de prisão da Operação Red Fox, mas não foi encontrado.
Já Denise, de acordo com a PF, era uma operadora logística e financeira do esquema. Além do casal, outros dois investigados foram presos na Red Fox.
BLACKBONE
Na semana passada Marcinho VP já havia sido alvo de outra operação da Polícia Federal dentro da Penitenciária Federal.
A Operação Blackbone investiga o fato de que, de dentro do presídio, ele comandava o monopólio do fornecimento de internet em comunidades do Rio de Janeiro, por meio do uso de armas e ameaças.
O esquema utilizava empresas provedoras para lavar os recursos obtidos com a atividade criminosa, em conjunto com familiares e outras lideranças. O monopólio era nos Complexos do Alemão, da Penha e do Chapadão.
Na operação, foram cumpridos 23 mandados de prisão preventiva e 24 mandados de busca e apreensão expedidos pelo Supremo Tribunal Federal (STF), nos municípios do Rio de Janeiro, Nova Iguaçu, São João de Meriti, Teresópolis, Maricá e Magé, todos no Rio.
A sua esposa, Márcia Gama Nepomuceno, e seu filho Lucas Santos Nepomuceno, também foram presos na operação.
Além disso, Márcia é apontada em investigações anteriores como um dos elos de comunicação da facção entre o sistema prisional e integrantes fora dos presídios. Lucas teve sua prisão revogada na segunda-feira.
Desde janeiro de 2024, Marcinho VP está custodiado na Penitenciária Federal em Campo Grande - Foto: Gerson Oliveira / Correio do EstadoCHEFE DO CV
Em abril o traficante foi alvo de um mandado de prisão porque, segundo a Polícia Civil do Rio de Janeiro, Marcinho VP continua como um dos principais cabeças da facção criminosa.
Marcinho VP está preso desde o fim de agosto de 1996 e, em 2010, foi transferido para o sistema penal federal. Nesses quase 30 anos já passou por vários presídios, até chegar ao de Campo Grande, em janeiro de 2024.
Mesmo estando em Regime Disciplinar Diferenciado (RDD), em que o detento permanece em cela isolada, sem contato com outros presos e tem todas as conversas com advogados e familiares gravadas, a polícia afirma que Marcinho VP ainda comanda ações da organização criminosa, como a lavagem de dinheiro.
Segundo a reportagem, a operação foi resultado de 1 ano de investigações baseadas em dados extraídos de dispositivos eletrônicos apreendidos e no cruzamento de informações financeiras. Durante a investigação eles miraram em suspeitos de atuar na movimentação e ocultação de recursos provenientes do tráfico de drogas.
FAMILIARES
Em março uma megaoperação da Polícia Civil do Rio de Janeiro mirou integrantes e aliados do Comando Vermelho, incluindo familiares do traficante.
Segundo as autoridades, mesmo preso há três décadas, ele continua exercendo influência dentro da estrutura da facção e é apontado como integrante do chamado “conselho federal permanente” do grupo, responsável por decisões estratégicas.
Entre os presos na operação estava o vereador carioca Salvino Oliveira (PSD), investigado por suposta ligação com integrantes da organização criminosa.
Segundo a investigação, ajudariam a manter a articulação do grupo fora do sistema prisional.
Um dos procurados foi Landerson, sobrinho de Marcinho VP e apontado pela polícia como responsável por intermediar contatos entre lideranças da facção, integrantes que atuam em comunidades dominadas pelo CV e pessoas ligadas às atividades financeiras do grupo. Ele ainda não foi localizado.
As investigações indicaram que o Comando Vermelho mantém uma estrutura organizada com conselhos nacionais e regionais responsáveis por decisões estratégicas e articulação entre integrantes em diferentes estados.
*SAIBA
Denúncia do MPRJ
Em maio deste ano, após operação realizada em abril que indicava Marcinho VP como chefe do Comando Vermelho e sua atuação, por meio de sua família, na lavagem de dinheiro da facção, o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) denunciou à Justiça o traficante, sua mulher, Marcia Gama Nepomuceno, seu filho Mauro Nepomuceno, o rapper Oruam, e outras nove pessoas por crimes de organização criminosa e lavagem de dinheiro.
(Colaborou Neri Kaspary)


