Dois anos são suficientes para destruir 14? No caso do Ki-Frutas, na esquina das ruas Calarge e Pedro Celestino, mercado que foi tradicional por uma década da classe média campo-grandense, sim.
Exatos 24 meses após o fechamento defintivamente da unidade da Vila Glória, na região central da Capital, o que ficou do espaço inaugurado em 2002, além de lembranças, foi a dor de cabeça causada pela invasão de moradores de rua e viciados em drogas no local.
O Correio do Estado esteve no prédio completamente abandonado no exato dia que marca o segundo aniversário do fechamento de portas do mercado e encontrou sujeira, mau cheiro e muita reclamação dos vizinhos.
Das gôndolas cheias de hortaliças, frutas de primeiro nível e produtos até então de encontro exclusivo por ali, nada restou. Literalmente. Segundo vizinhos, além dos usuários, agentes do mercado negro aproveitaram o abandono para furtar geladeiras e poutros equipamentos que poderiam ser revendidos.
"Não deixaram nem as prateleiras. A gente já viu caminhão, kombi e até van parar e tirar tudo daí de dentro. Assusta, nem sabemos o que está acontecendo", disse a aposentada Filomena Souza, 72 anos, moradora da região.
Situação idêntica à enfrentada pelo comerciante Altair Feirão, 63, que tem uma distribuidora de coco verde em frente ao decadente prédio e que já perdeu as contas das vezes que acionou a Polícia Militar por flagrar a retirada de bens de dentro do local.
"Muitos falam que é acordo com os proprietários, mas a dúvida fica né. Já tiraram mais de R$ 300 mil daí de dentro. Até os balcões", contou.
CRACOLÂNDIA
O maior dos problemas para quem mora e trabalha nos arredores, contudo, são os viciados. Além do mau cheiro causado pelo acúmulo de fezes e urina, cujos rastros já são visíveis para quem passa ao lado do portão de entrada, os hábitos tiveram que ser mudados. Basta anoitecer que os usuários começam a aparecer.
"Agora é o sol se por e fechamos as portas", disse o comerciante Nelson Hokama, 68, um dos proprietários de um bar vizinho do antigo mercado, além de vizinho de parede.
Para Hokama, as dores da situação são ainda maiores. Sua família já era dona do terreno onde está o sacolão, nos anos 1950. Com o tempo, a transofrmação do local em chácara em lote, já nos anos 1980, para depois virar o mercado chique da cidade, no novo milênio, teve o amargo sabor de um presente de Natal desgraçado em 2016.
Grupos se reúnem para usar e distribuir drogas, e muitos cometem delitos para manter o vício. Produtos, fios, lâmpadas, torneiras e vários outros objetos que faziam parte da estrutura do Ki-Frutas foram levados. Diante da escassez acentuada do que furtar, os ladrões invadem outros imóveis e não deixam nada para trás; nem mesmo produtos de limpeza escapam.
Mário Name, 53 anos, gerente de uma empresa de instalação e manutenção de ar condicionado, que fica aos fundos do prédio, na Rua Calarge, teve prejuízo com furto nos últimos dias. Na madrugada do dia 10 de setembro, ladrões invadiram o pátio da empresa por meio da antiga sala de máquinas do mercado, arrombaram dois carros e levaram cerca de R$ 4 mil em duas caixas de ferramentas e escadas.
Em 2013: frutas ao invés de entulhoComo se não bastasse, no último dia 1º o local voltou a ser alvo de ataque. "Como nós já estávamos nos precavendo, furtaram apenas uma máquina de solda que estava na garagem, avaliada em R$ 350", contou ele que, diante da situação caótica, tomou medidas por conta própria. "Eu mesmo entrei no mercado e soldei a porta do fundo da casa de máquinas e, sempre que há suspeita chamamos a polícia", disse.
Em meio ao cenário longe do ideal, ainda há clientes desavisados que vão ao local. Hokama contou que mesmo dois anos se passando há gente que cherga perguntando sobre o que um dia foi o Ki-Fruta. "Alguns só olham e vão embora correndo mesmo", disse, rindo.
AÇÕES
Por meio de nota, a prefeitura informou que equipes do Serviço Especializado em Abordagem Social realizam constantes ações no local para acolhimento dos viciados. Na última visita, ocorrida no dia 27, à tarde, cinco usuários estavam pelo local e os mesmos se recusaram a conversar com os agentes, "demonstrando bastante agressividade."
"Ressaltando que, diariamente, a equipe SEAS realiza busca ativa pelas ruas do município, abordando e oferecendo os serviços da Assistência Social, porém há algumas recusas ao atendimento e acolhimento por parte das pessoas em situação de rua", diz o texto.
Procurado, o Governo do Estado, de responsabilidade Reinaldo Azambuja (PSDB), não retornou a reportagem.
A reportagem não conseguiu localizar os antigos proprietários do mercado, em litígio com os ex-funcionários, para comentar a situação.
Poucos antes da falência: prateleiras, gôndolas e ,muita cor ao invês do cheiro de fezes e urina

