A prisão da presidente da Santa Casa de Campo Grande, Alir Terra Lima, e de dois integrantes da cúpula administrativa do hospital provoca uma mudança no comando da maior unidade hospitalar de Mato Grosso do Sul. Vice-presidente da instituição, Heitor Heitor Miguel Scheibeler passa a ocupar a linha de frente de administração em meio à Operação Antidotum, deflagrada nesta sexta-feira (11) para investigar supostas fraudes milionárias em contratos da entidade.
Além de Alir, segundo apuração do Correio do Estado, foram presos Alessandro Dias Junqueira e Rinaldo Halme Romano, diretores administrativo e financeiro, respectivamenete.
Também estão entre os presos Paulo Duarte Cruz, Beatriz Lemes da Silva, diretora do plano de saúde da Santa Casa, e Monique Gregório, responsável pelos serviços de digitalização de prontuários. Ao todo, foram expedidos seis mandados de prisão preventiva.
Com parte da alta administração atingida simultaneamente pela operação, Heitor ganha protagonismo na condução da Santa Casa justamente no momento em que a instituição enfrenta uma das maiores crises administrativas recentes.
A investigação do Grupo Especial de Combate à Corrupção (Gecoc) e do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) apura irregularidades em pelo menos dois núcleos de contratos.
O prejuízo identificado até o momento chega a R$ 4,9 milhões, mas o Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) ressalta que o valor total ainda está sendo apurado.
Um dos contratos investigados previa o pagamento de R$ 5,4 milhões ao longo de três anos para digitalização de prontuários. Segundo o MPMS, somente no primeiro ano teriam sido desviados R$ 1,4 milhão, por meio de pagamentos sem a correspondente prestação dos serviços.
Outra frente envolve contratos celebrados pela Operadora Santa Casa Saúde com empresas pertencentes ao mesmo grupo econômico.
Somente em 2025, aproximadamente R$ 9,6 milhões teriam sido pagos a essas empresas, provocando, segundo a investigação, prejuízo mínimo de R$ 3,5 milhões à instituição.
O MPMS afirma ainda que contratos, pagamentos e prestações de contas teriam sido sistematicamente ocultados de órgãos de controle, entre eles o Conselho Fiscal da própria Santa Casa e a Controladoria-Geral do Estado.
As suspeitas seguem sob investigação, e as prisões preventivas não representam condenação.
Comando em meio à crise
A entrada de Heitor na linha de frente ocorre, portanto, em circunstâncias diferentes de uma troca administrativa convencional. De uma só vez, a operação alcançou a presidente e os diretores administrativo e financeiro do hospital.
O cenário aumenta a responsabilidade sobre o vice-presidente para garantir a continuidade administrativa de uma instituição que mantém serviços de alta complexidade e ocupa posição estratégica na rede pública de saúde de Mato Grosso do Sul.
Apesar da operação desta sexta-feira, os atendimentos aos pacientes agendados e às pessoas já internadas foram mantidos normalmente, segundo informações divulgadas pela instituição.
A mudança ocorre ainda no momento em que uma ação civil pública pede à Justiça uma intervenção temporária na Santa Casa, com a nomeação de administrador provisório ou junta interventiva pelo período inicial de 180 dias.
O pedido também prevê afastamento temporário da presidente e da diretoria financeira dos poderes de gestão. Até o momento, trata-se de um pedido submetido à Justiça.
Quem é Heitor Scheibeler
A chegada de Heitor Miguel Scheibeler à linha de frente da Santa Casa de Campo Grande não ocorre por acaso. O atual vice-presidente percorreu diferentes postos da administração do hospital nos últimos anos e integra a cúpula da instituição desde, pelo menos, 2020.
Naquele ano, registros da própria Santa Casa já apresentavam Heitor como diretor-secretário adjunto. Dois anos depois, em fevereiro de 2022, ele aparecia como secretário da instituição durante a gestão de Heitor Rodrigues Freire, então presidente do hospital.
A permanência na administração continuou com a mudança de comando ocorrida em 2023. Quando Alir Terra Lima assumiu a presidência da Santa Casa pela primeira vez, Heitor foi empossado como diretor-secretário para o triênio 2023-2025.
Ele permaneceu próximo ao núcleo decisório da instituição durante todo o primeiro mandato de Alir. Em novembro de 2025, quando a chapa “Por Amor à Santa Casa” foi reeleita para mais três anos, Heitor esteve entre os nove nomes eleitos para o Conselho de Administração e voltou a ser escolhido diretor-secretário.
A nova diretoria tomou posse em 2 de janeiro deste ano. Naquele momento, a presidência permaneceu com Alir, enquanto Jary de Carvalho e Castro assumiu novamente a vice-presidência e Heitor iniciou mais um mandato como diretor-secretário.
A configuração, porém, durou menos de três semanas. Em 20 de janeiro, Jary renunciou à vice-presidência alegando motivos particulares e a intenção de voltar a se dedicar exclusivamente às atividades profissionais. Já naquele momento, Heitor era apontado como o provável nome para ocupar a vaga.
A substituição se concretizou e, atualmente, a própria Santa Casa apresenta Heitor Miguel Scheibeler oficialmente como vice-presidente da Diretoria Corporativa. Ele também integra o Conselho de Administração da entidade.
A trajetória colocou Heitor na linha sucessória justamente no momento mais delicado da atual gestão.
Nesta sexta-feira (11), a Operação Antidotum atingiu diretamente parte da cúpula administrativa da Santa Casa, com as prisões da presidente Alir Terra Lima e dos diretores administrativo e financeiro, Alessandro Dias Junqueira e Rinaldo Halme Romano.
Com a presidente e outros integrantes da administração presos preventivamente, Heitor passa de um cargo que assumiu há poucos meses para o centro das decisões envolvendo o maior hospital de Mato Grosso do Sul.
De primeira mulher na presidência à prisão em operação
Advogada, Alir Terra Lima chegou ao comando da Santa Casa de Campo Grande cercada de simbolismo. Eleita em novembro de 2022, tornou-se a primeira mulher a assumir a presidência da instituição em mais de um século de história.
Sua chapa, “Por Amor à Santa Casa”, recebeu 49 votos, contra 39 da concorrente, e ela tomou posse em 2 de janeiro de 2023.

Alir permaneceu à frente do maior hospital de Mato Grosso do Sul durante todo o triênio 2023-2025 e conseguiu renovar o mandato.
Em novembro do ano passado, foi reeleita para comandar a instituição por mais três anos. Desta vez, a chapa foi única e recebeu os votos dos 55 associados que participaram da eleição.
O segundo mandato começou oficialmente em 2 de janeiro deste ano, quando Alir tomou posse para a gestão 2026-2028. Na ocasião, afirmou que a administração pretendia investir no plano de saúde e na Escola de Saúde da instituição, além de buscar o fortalecimento financeiro e da formação profissional.
Pouco mais de oito meses depois da nova posse, a trajetória à frente da Santa Casa sofreu uma ruptura. Nesta sexta-feira (11), Alir foi presa preventivamente durante operação do Grupo Especial de Combate à Corrupção (Gecoc) e do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), que investiga supostas fraudes em contratos ligados à instituição.
As suspeitas ainda são investigadas e a prisão preventiva não representa condenação.



