Titular do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) desde o início da gestão do presidente Jair Bolsonaro (PL), a sul-mato-grossense Tereza Cristina Dias (DEM) fala sobre o agronegócio e os rumos da produção no Estado e no País.
Tereza Cristina Corrêa da Costa Dias - Perfil: Nasceu em Campo Grande (MS) e é graduada em Engenharia Agronômica pela Universidade Federal de Viçosa (Minas Gerais).
No fim da década de 1990, foi convidada para ocupar a Segunda-Secretaria da Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul (Famasul).
Deixou o Executivo estadual para concorrer ao cargo de deputada federal, sendo eleita em 2014, quando passou a ocupar uma cadeira no Congresso Nacional, representando o setor produtivo.
Em 2018, Tereza Cristina foi reeleita para mais uma legislatura como deputada federal.
No fim do mesmo ano, foi convidada pelo presidente Jair Bolsonaro para assumir o comando do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. No início de 2019, assumiu o cargo de ministra da Pasta.
Em entrevista ao Correio do Estado, a ministra destaca que atua para que os produtores se mantenham no ramo e não desistam em decorrência das perdas registradas na agricultura no último ano.
Em 2021, a safra de milho em Mato Grosso do Sul sofreu com a quebra, e a estimativa é de que o ciclo atual de soja também apresente redução.
Ainda de acordo com ela, os produtores rurais de MS precisam estar atentos às previsões meteorológicas para, se preciso, mudar de estratégia na próxima safra para evitar mais prejuízos “e buscar culturas mais rústicas, como, de repente, em vez do milho, plantar sorgo ou alguma outra cultura de inverno que seja mais segura”, afirma Tereza Cristina.
Sobre a pecuária, a ministra diz que um dos preceitos do Mapa é a diversificação dos mercados e que tem trabalhado pela ampliação da relação comercial com outros países.
Ela ressalta que, apesar de Mato Grosso do Sul ter perdido há alguns anos o posto entre os primeiros maiores produtores de gado do País, o Estado “ganhou em qualidade”.
Na política, Tereza Cristina deve concorrer como representante do Senado Federal por Mato Grosso do Sul e se mantém como um dos nomes fortes para carregar votos para a reeleição do atual presidente e formar um forte time no Estado.
CORREIO DO ESTADO – O agronegócio se destacou durante toda a pandemia, acredita que com esses problemas climáticos e estimativas de uma produção menor ele pode deixar de ser protagonista da economia do Brasil e de Mato Grosso do Sul?
Tereza Cristina – O agro sempre produziu e vem produzindo cada vez mais, porque utiliza tecnologia. É um segmento que tem, no Brasil, uma importância enorme, porque nós temos terra, água, tecnologia e bons produtores.
O agro sempre se destacará no Brasil. Neste ano, de novo, os produtores rurais produziram, aumentaram a área de produção, mas, infelizmente, alguns estados vêm passando por uma forte estiagem, e um pedaço do nosso estado – o sul de Mato Grosso do Sul – também passa por esse problema.
O que o governo federal está fazendo ou pode fazer para ajudar o produtor rural nesse momento de dificuldades enfrentadas por conta do clima?
O produtor rural tem já previsto, no Manual de Crédito Rural, algumas medidas que podem ser solicitadas quando da ocorrência de problemas climáticos como esse que estamos enfrentando neste ano. Um exemplo é o pedido de prorrogação das parcelas de custeio e de investimento; quem tem seguro, pode acionar para que venha rapidamente e, assim, receber o mais breve para poder se programar para a próxima safra.
E o pequeno produtor tem o Proagro, que é obrigatório. Caso ele tenha algum tipo de perda, pode acionar rapidamente e, assim, receber em alguns dias. Dessa maneira, ele primeiro não fica inadimplente com o banco e, depois, também pode se programar para o plantio da safrinha.
O que não podemos deixar é o produtor afetado pela estiagem abandonar a produção. Estamos estudando medidas de curto, médio e longo prazo para que o produtor brasileiro possa ter fôlego para enfrentar situações adversas. As medidas possíveis serão anunciadas nos próximos dias.
O agricultor de MS vem de uma quebra na safra de milho 2020/2021 e agora já temos perdas estimadas em mais de 1,3 milhão na soja 2021/2022. O que o agricultor pode fazer para tentar ter melhores resultados na próxima safrinha?
Primeiro, ele tem de pedir a prorrogação de suas dívidas para não ficar inadimplente e poder acessar linhas de custeio novamente. Deve acompanhar de perto a situação do clima para a safrinha, se informando das previsões do Inmet e de outras instituições de meteorologia, para que faça o plantio na época mais adequada.
Deve obedecer também à janela do zoneamento agrícola de risco climático, que é o Zarc, para que possa estar coberto pelo seguro. Isso porque a safrinha é uma safra que tem mais problemas de clima incerto.
Então, o produtor tem de estar muito preparado, para que ele não tenha mais perdas, e também buscar culturas mais rústicas, como, de repente, em vez do milho, plantar sorgo ou alguma outra cultura de inverno que seja mais segura.
Eu acho que ele tem de estar muito antenado e amparado na assistência técnica para que tenha segurança nesta safrinha que começa agora, a partir de março.
Com o embargo chinês à carne brasileira, Mato Grosso do Sul ampliou a relação comercial com outros países. É importante ampliar a relação comercial com mais países para não ser tão dependente de um único parceiro comercial?
Com certeza. É isso que o Ministério da Agricultura vem fazendo na sua área de relações internacionais, abrindo mais mercados no exterior para nossa proteína animal.
Porque não se deve depositar todos os ovos na mesma cesta, o ideal é ter alternativas para exportar os nossos produtos. Nós crescemos muito nesse período da suspensão de 90 dias com a China, aumentamos muito as nossas exportações para os Estados Unidos.
O rebanho bovino de MS reduziu nos últimos anos, acredita que o Estado pode voltar a ser um dos maiores produtores do Brasil? Ou deve focar na diversificação da produção?
Mato Grosso do Sul reduziu o seu rebanho, mas aumentou muito a sua eficiência. Então, há um rebanho menor, mas também há um tempo menor para o abate desses animais, com encurtamento do ciclo.
Mato Grosso do Sul continua sendo um grande player no setor de carne bovina no Brasil e um player com qualidade. Mato Grosso do Sul tem rebanho geneticamente muito bom. Temos hoje uma boa parte de nosso rebanho que é abatido por meio do programa novilho precoce, que é uma carne especial, mais macia.
Enfim, o produtor, o pecuarista de Mato Grosso do Sul, vem ganhando em qualidade e, há muitos anos, isso tem refletido na qualidade dessa carne que o Estado produz.
Além de outras proteínas que vêm crescendo muito, como a suinocultura, a avicultura e a piscicultura. Essas quatro atividades, esses quatro segmentos, têm crescido muito em Mato Grosso do Sul nos últimos anos. Essa diversificação é, com certeza, muito importante.
O Ministério da Agricultura traçou alguma estratégia para não ter problemas futuros em relação aos fertilizantes?
O Ministério da Agricultura, primeiramente, criou, há um ano e meio, um grupo de estudos que acaba de finalizar o Plano Nacional de Fertilizantes, para fazer com que o Brasil seja menos dependente das importações dos três principais produtos de fertilizantes: nitrogênio, potássio e fósforo.
Hoje, o Brasil tem uma dependência muito grande desses insumos. Por isso, quando há algum problema lá fora, nesses países que exportam para o Brasil, há uma grande preocupação.
Eu estive há pouco na Rússia conversando sobre o assunto com os maiores exportadores, para garantir que o Brasil teria o seu fornecimento assegurado por aquele país. Temos hoje um problema na Bielorrússia – de sanções internacionais – que pode prejudicar as exportações para o mundo, e o Brasil importa 20% desse país.
Nós temos também um outro importante fornecedor que é o Marrocos, fornecedor de fósforo. Enfim, temos de mudar essa dependência de quase 90% em relação à nossa demanda. Temos de baixar essa dependência e começar a produzir mais, no Brasil, os fertilizantes que são fundamentais para o sucesso da nossa agricultura.
A UFN3, em Três Lagoas, seria uma alternativa para o suprimento de fertilizantes no País?
Ajudaria em parte. Ajudaria muito no suprimento de ureia, pois é uma fábrica de nitrogenados. O insumo mais importante para o seu funcionamento é o gás, que deverá ser suprido pelo gás que vem da Bolívia ou por outra alternativa que a Acron esteja conversando com a Petrobras.
A ministra já definiu qual caminho deve seguir em relação ao partido?
Esse assunto já foi tão falado em nosso estado. Eu faço parte do DEM, que está em processo de fusão com o PSL para se tornar o União Brasil. Estou aguardando a homologação e em tratativas com o meu partido. Se não for possível, tenho de achar um novo caminho.
Especula-se que há a possibilidade de a senhora concorrer como vice do presidente Jair Bolsonaro, há essa intenção? Ou deve focar realmente no Senado?
Sua pergunta já começou certa: especula-se. Isso é especulação. Meu projeto é concorrer ao Senado. Sou pré-candidata ao Senado pelo meu estado, Mato Grosso do Sul.
Em Mato Grosso do Sul, a ministra vai apoiar a candidatura de Eduardo Riedel ao governo?
Esse é um momento de muitas conversas, de ver como todos os partidos vão caminhar, quais são as coligações que poderão ser feitas, visto que hoje só podem ocorrer na majoritária. Então, as conversas estão acontecendo entre todos.
Já conversei com vários candidatos ao governo que estão com seus nomes colocados. Mas isso, na verdade, só vai acontecer, de fato, quando resolvermos o partido, definir com quem nós vamos caminhar, e depois, lá na frente, após as convenções. Aí sim nós teremos as coligações já feitas nas convenções partidárias.



