Cidades

Ação Civil

Negligência da Santa Casa pode ter causado morte de paciente

Jussara Delmondes, de 49 anos, contraiu infecção que resultou em seu óbito após haste intramedular colocada no fêmur não ser retirada no tempo correto

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Jussara Marisa Aparecida Pereira Delmondes, de 49 anos, morreu em outubro do ano passado por causa de uma infecção bacteriana, após a Santa Casa de Campo Grande não retirar uma haste intramedular de sua perna no tempo estipulado clinicamente.

Nascida com paralisia cerebral, Jussara nunca andou ou falou durante sua vida. Por ser uma pessoa acamada e com uma certa idade, seus ossos foram ficando cada vez mais frágeis e atrofiados, dependendo sempre de ajuda externa para realizar ações do cotidiano.

No final de 2024, Jussara quebrou o fêmur após sua mãe tentar colocar a fralda nela. Ela foi levada para uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) e, posteriormente, encaminhada para a Santa Casa.

Após análise da situação, o médico responsável pelo caso decidiu que a melhor opção era colocar a haste intramedular, implante ortopédico de titânio ou aço que atua como uma “tala interna”, que tem a função de estabilizar a fratura, manter o alinhamento e distribuir a carga. Essa cirurgia foi realizada em janeiro de 2025.

No primeiro retorno ao médico depois da cirurgia, a mãe e a sobrinha de Jussara solicitaram que a haste fosse retirada, mas o médico explicou que os ossos ainda não tinham colado e calcificado, e por isso não retiraria a estrutura naquele primeiro momento.

Além disso, o médico recomendou que a família esperasse mais 30 dias para que, no próximo retorno, fosse mais viável a retirada do instrumento.

Neste primeiro retorno, Kamila Delmondes, a sobrinha da paciente, já havia informado que, em razão da haste ser exposta, estava com medo de acontecer uma infecção.

Porém, o médico a tranquilizou sobre a situação e ensinou como limpar e higienizar a área – o que era seguido à risca pelos parentes todos os dias.

O próximo retorno estava marcado inicialmente para ocorrer em março, mas não aconteceu por conta da greve da Santa Casa.

Mesmo que não falasse, Kamila percebeu que Jussara estava com aparência de dor, o que ela desconfiou ser por causa da haste.

Diante disso, a levaram ao atendimento 24 horas do hospital, onde os enfermeiros realizaram a mesma limpeza já feita todos os dias no local da cirurgia e liberaram a paciente, sob a justificativa de que “não tinham o que fazer”.

Depois de alguns dias, a mãe percebeu um corpo estranho no céu da boca de Jussara, do qual as profissionais da Unidade Básica de Saúde (UBS) recomendaram que fosse retirado no Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian (Humap).

Lá, além da retirada do corpo estranho, os familiares de Jussara tentaram dar um “jeitinho” para que um médico ortopedista conseguisse avaliar a região da cirurgia na perna, já que fazia muito tempo desde o último retorno na Santa Casa.

Contudo, o médico se recusou a fazer a avaliação justamente por Jussara ser paciente da Santa Casa, e não do Humap.

Depois de seguidas tentativas, o retorno à Santa Casa foi marcado para abril. Chegando ao hospital, outra surpresa: não havia médico disponível para atendê-la. A mesma situação ocorreu seis meses depois, no dia 7 de outubro.

No mesmo dia, para não perder tempo, Kamila e Jussara foram ao Centro Regional de Saúde (CRS) do Aero Rancho, onde foram atendidas por um médico.

Ao explicar toda a situação para o profissional, ele ligou no Centro Especializado Municipal (CEM) para saber se o local poderia receber Jussara e finalmente retirar as hastes. Mas, por se tratar de fratura exposta, o caso da paciente fugia da alçada da unidade, estendendo mais ainda a novela.

Com uma nova tentativa frustrada, o médico do CRS aconselhou Kamila a procurar a Defensoria Pública de Mato Grosso do Sul, o que foi feito no mesmo dia, 7 de outubro.

Ao ser atendida, a responsável pelo caso de Jussara na Defensoria explicou que a Santa Casa deveria ter direcionado os pacientes para outro hospital por conta da paralisação. Ao fim, ela foi colocada em uma fila de espera na Secretaria Municipal de Saúde (Sesau) para tentar vaga em outra unidade.

Porém, 16 dias depois, na manhã de 23 de outubro, a mãe de Jussara foi acordá-la, mas ela não reagia e estava gelada. Horas depois, a morte foi constatada, cerca de 10 meses depois da fratura.

Na certidão de óbito, a causa da morte aparece como “insuficiência respiratória aguda, choque séptico, foco cutâneo de joelho direito, haste intramedular extrema infectada (outras condições significativas que contribuíram para a morte), fratura de fêmur direito em 2024”.

“Eu não culpo o médico por não ter atendido ela. Mas, sim, o Estado por não ter repassado [dinheiro] para Santa Casa para que os médicos pudessem trabalhar e culpo a Santa Casa por não ter remanejado ela para outro hospital. Primeiro porque ela era uma paciente que não andava e não falava, e eles estavam cientes que ela estava com essa haste para fora. O médico sabia que aquilo poderia ter uma infecção, mas ele falou que não, que isso não aconteceria”, explica Kamila.

Hoje, Kamila e a família de Jussara estão juntando os documentos e procurando advogados para entrar com um pedido de ação indenizatória contra a Santa Casa, pela negligência do hospital com a situação da paciente.

Kamila conta que não vai desistir, especialmente pela sua avó, mãe de Jussara, que está em tratamento contra um câncer e quer que esta história seja divulgada para que não aconteça o mesmo com futuros pacientes. 

AÇÃO

O caso de Jussara foi um dos encontrados pela Defensoria Pública ao aprofundar investigação nos gargalos da Santa Casa. Além de Jussara, outros casos parecidos também foram observados, o que chamou a atenção do órgão.

De acordo com a defensora pública Eni Maria Sezerino Diniz, coordenadora do Núcleo de Atenção à Saúde (NAS), muitos pacientes observados estavam com mais de um ano sem retirar implantes ortopédicos, que deveriam ser extraídos dentro de três a quatro meses.

“Nós estávamos recebendo e judicializando pacientes com dois anos, dois anos e meio sem retirar e sem a perspectiva de realizar a retirada. Eles precisavam judicializar, entrar com ação para retirar um pino ou uma gaiola ortopédica e, enquanto isso, ele não pode trabalhar, não há cicatrização adequada e pode sofrer infecções”, afirma.

Diante disso, a Defensoria ingressou com uma ação civil pública no Poder Judiciário contra a Santa Casa, solicitando informações e respostas do porque esses pacientes estão ficando tanto tempo com os implantes ortopédicos, visto que a retirada deles está prevista no contrato assinado entre paciente e hospital antes da cirurgia.

Para que as partes (Estado, Município, Santa Casa e Defensoria Pública) cheguem em um acordo, o Poder Judiciário marcou uma audiência para hoje.

RESPOSTA

Em nota enviada à reportagem, a Santa Casa se posicionou apenas sobre a primeira ação, reportada pelo Correio do Estado ontem, que colocou as filas invisíveis do hospital na mira.

“Importante destacar que a redução do número de salas simultaneamente abertas em determinados períodos não significa redução da capacidade de atendimento às urgências e emergências”, diz na nota sobre o fato de a defensora ter encontrado salas de cirurgia fechadas.

Sobre o caso de Jussara e a demora para retirada de implantes ortopédicos de seus pacientes, a instituição ainda não se posicionou, mesmo com o contato da reportagem.

Já a Sesau também foi contatada e afirmou que acompanha “permanentemente a situação da rede hospitalar de Campo Grande e reconhece os desafios históricos relacionados à demanda por procedimentos de média e alta complexidade, especialmente nas áreas ortopédica e cardiológica”.

“Após a vistoria realizada conjuntamente com a Defensoria Pública, Ministério Público e equipes técnicas da Sesau na Santa Casa, a Secretaria notificou formalmente a instituição para apresentação de esclarecimentos e de um plano de ação corretivo diante de problemas identificados”, diz a nota da secretaria.

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tentou transferência

STJ decide manter bicheiro Rogério de Andrade no presídio federal de Campo Grande

O bicheiro teve negada sua transferência para o sistema prisional do Rio de Janeiro e vai permanecer preso em um presídio federal de segurança máxima

13/09/2026 18h00

Rogério de Andrade está preso em Campo Grande desde 2024

Rogério de Andrade está preso em Campo Grande desde 2024 Foto: Reprodução

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O bicheiro Rogério de Andrade teve negada sua transferência para o sistema prisional do Rio de Janeiro e vai permanecer preso em um presídio federal de segurança máxima. A decisão, divulgada neste sábado, 12, é do Superior Tribunal de Justiça (STJ) que negou o pedido de transferência feito pela defesa do contraventor. Rogério de Andrade está preso na Penitenciária Federal de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul. A reportagem não conseguiu contato com a defesa do preso.

O Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro havia determinado a transferência de Andrade de volta para o sistema prisional fluminense, atendendo a um pedido da defesa, mas o Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) entrou com recurso.

Conforme o MP, o acórdão do tribunal violou a legislação e o entendimento consolidado pelo STJ ao exigir a existência de fatos novos para justificar a permanência do preso no sistema federal.

Ao acolher o argumento do Ministério Público, o relator ressaltou que, para a renovação da medida, ou seja, a permanência em unidade de segurança máxima, é suficiente a persistência dos motivos que fundamentaram a transferência inicial, desde que demonstrada em decisão devidamente fundamentada. 

A decisão do STJ destaca que o juízo inicial havia indicado elementos concretos para a manutenção de Rogério de Andrade em presídio federal, sendo elas a posição de liderança em organização criminosa, o cenário de disputa violenta pelo controle da exploração do jogo do bicho, a influência sobre agentes públicos para o desenvolvimento de suas atividades criminosas e o parecer da Diretoria da Polícia Penal Federal contrário ao retorno do custodiado ao sistema prisional estadual.

Crimes e contravenção

Rogério Costa Andrade, que também é patrono da escola de samba Mocidade Independente de Padre Miguel, foi preso em outubro de 2023 após o Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) apresentar nova denúncia contra ele pelo homicídio de Fernando Iggnácio, genro de Castor de Andrade e que disputava com Rogério o espólio do jogo do bicho de Castor.

Ele é apontado como o chefe de um grupo criminoso "voltado para a prática de diversos crimes", entre eles homicídio, corrupção, contravenção e lavagem de dinheiro.

Rogério é sobrinho de Castor de Andrade, um dos maiores chefes do jogo do bicho no Rio e patrono da Mocidade Independente de Padre Miguel. Castor morreu em 1997, vítima de doença cardíaca, e a morte iniciou uma disputa familiar pela herança.

Na disputa, estavam Paulinho de Andrade, filho de Castor, assassinado na Barra da Tijuca, em 1998, crime atribuído a Rogério, e Fernando Iggnácio, que era casado com a filha de Castor e que também assassinado, em 2020. 

O assassinato ocorreu no estacionamento de um heliporto no Recreio dos Bandeirantes, logo após Iggnácio desembarcar de helicóptero, retornando de sua casa de praia em Angra dos Reis. Ele foi atingido por três tiros de fuzil, um deles na cabeça

Rogério Castor Andrade foi apontado como mandante do assassinato de Fernando Iggnácio e foi preso em outubro de 2024.

O contraventor foi transferido da Penitenciária de Segurança Máxima Laércio Pellegrino (Bangu 1), no Complexo de Bangu, na Zona Oeste do Rio, para o presídio federal de Campo Grande no dia 12 de novembro de 2024.

* Com Estadão Conteúdo

CAMPO GRANDE

Semed defende escola e denúncias envolvendo merenda viram 'guerra de versões'

Para a Pasta da Educação da Capital, registros de "casos isolados" de crianças com "indisposição gástrica em dias distintos" não teriam associação com a alimentação escolar

13/09/2026 17h30

Para os pais há uma sobrecarga no time de merendeiras e Semed diz que escola integral só possui duas profissionais na cozinha, escaladas conforme turno e demanda

Para os pais há uma sobrecarga no time de merendeiras e Semed diz que escola integral só possui duas profissionais na cozinha, escaladas conforme turno e demanda Marcelo Victor/Correio do Estado

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Após novas reclamações de crianças sobre o aspecto da merenda, a Secretaria Municipal de Educação (Semed) de Campo Grande saiu em defesa da escola municipal integral de Campo Grande contra as denúncias feitas por pais e responsáveis, o que faz com que os casos de supostas intoxicações causadas por alimentação escolar indevida tornem-se uma "guerra de versões" na Capital. 

Há cerca de uma semana voltaram a pipocar denúncias contra a Escola Municipal Hilda de Souza Ferreira, com pais indicando que seus filhos voltaram a passar mal, reclamaram da merenda, citando até mesmo existência de um suposto 'quadrado da disciplina' que aconteceria em sala de aula, após a Semed afirmar em um primeiro momento que a alimentação escolar na Rede Municipal (Reme) segue protocolos rigorosos de recebimento, armazenamento, preparo e distribuição, com acompanhamento técnico permanente.

Questionada sobre os novos casos citados na primeira semana de setembro, a Pasta reforçou através da Superintendência de Alimentação Escolar (Suale) que averiguou todas as denúncias relacionadas à alimentação oferecida na unidade e saiu em defesa da Escola Municipal Hilda de Souza Ferreira.

Após novos relatos de pais alegando que seus filhos vomitaram em casa após comerem, por exemplo, frutas impróprias para o consumo na merenda escolar, a Pasta da Educação de Campo Grande afirma que os registros apurados seriam referente a "casos isolados" de crianças que apresentaram "indisposição gástrica em dias distintos". 

"Sem evidências de relação entre as ocorrências ou de associação com a alimentação escolar. Dessa forma, os episódios não caracterizam um problema recorrente ou específico da cozinha da unidade ou mesmo da alimentação ofertada", complementa a Semed em nota. 

Guerra de versões

Com medo de sofrer mais represálias, as mães e pais que preferem não se identificar descrevem alguns ocorridos com seus filhos segundo o que escutam das próprias crianças. Eles reclamam que a escola tem sido "mascarada" para receber as visitas da Semed, já que as intercorrências voltam a acontecer com o passar dos dias. 

Para os pais e responsáveis há uma sobrecarga inclusive no time de merendeiras, já que a unidade estaria com colaboradores em falta. 

Conforme a Semed, essa unidade que oferece ensino integral em Campo Grande atualmente conta somente com duas merendeiras responsáveis pelo preparo e pela distribuição, que obviamente seriam organizadas em escalas conforme os turnos e demandas da escola, não havendo portanto mais do que uma profissional por período.  

Ainda assim, a Semed reforça que a cozinha escolar e os procedimentos de recebimento, armazenamento, preparo e distribuição dos alimentos "são acompanhados semanalmente pelas nutricionistas da Suale, que prestam orientação técnica à equipe e verificam as condições higiênico-sanitárias e operacionais do serviço".

Isso porque os responsáveis pelos alunos da E.M Hilda de Souza alegam ainda ter dificuldade ao buscarem respostas e explicações junto à direção e coordenação do colégio, sem ter o conhecimento de como estão as questões de higiene no local, e temem por não terem retorno do corpo gestor sobre, por exemplo, como poderia estar a situação até mesmo da caixa d'água da escola, o que poderia estar causando as indisposições nos estudantes.

"A Semed e a Suale permanecem atentas às manifestações da comunidade escolar e mantêm o acompanhamento contínuo das unidades, adotando as providências necessárias sempre que alguma situação nos é comunicada", conclui a Semed em nota. 

 

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