Cidades

OPERAÇÃO DA PF

PF apura trabalho escravo em fazenda de candidato a deputado federal em MS

Carlos Bernardo confirmou ser dono da propriedade em Porto Murtinho, onde foram encontrados 23 trabalhadores em situação irregular e 14 armas; candidato nega irregularidades e vínculo com o arsenal.

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Uma fazenda pertencente ao empresário Aparecido Carlos Bernardo (União Brasil), candidato a deputado federal por Mato Grosso do Sul nas eleições deste ano, foi alvo de uma operação da Polícia Federal (PF) e do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) nesta quinta-feira (17), em Porto Murtinho.

O próprio Carlos Bernardo confirmou ao Correio do Estado que é proprietário da fazenda alvo da ação. Ele, entretanto, negou qualquer vínculo com as armas encontradas no local e contestou as suspeitas relacionadas às condições de trabalho dos funcionários.

Durante a operação, agentes encontraram 23 trabalhadores em situação trabalhista irregular e apreenderam 14 armas de fogo de grosso calibre, além de munições. Parte do armamento estava em situação irregular e algumas armas apresentavam numeração suprimida.

A operação apura a possível submissão de trabalhadores a condições análogas à escravidão e a ocorrência de tráfico de pessoas para fins de exploração laboral.

Ao ser procurado pela reportagem, Carlos Bernardo confirmou ser dono da propriedade, mas afirmou que frequenta pouco a fazenda e que chega a passar cerca de seis meses sem ir ao local.

O candidato também afirmou desconhecer a existência das armas apreendidas e negou ser proprietário de qualquer uma delas.

“Eu não sou proprietário de armamento nenhum, eu não tenho arma, eu não uso arma. Eu vou nessa fazenda, às vezes demora até seis meses para eu ir nessa fazenda”, afirmou.

Bernardo também contestou a possibilidade de trabalhadores serem submetidos a condições análogas à escravidão na propriedade. Segundo ele, os funcionários possuem alojamentos climatizados e recebem alimentação ao longo do dia.

“Quando diz trabalho análogo, você conhece alguma fazenda que todos os funcionários que trabalham na fazenda, nos seus alojamentos, têm ar-condicionado? Pois é, na fazenda que foi mencionada, nossa, todos os funcionários têm ar-condicionado”, declarou.

Segundo o empresário, duas cozinheiras são responsáveis pela alimentação dos trabalhadores, com café da manhã, almoço, café da tarde e jantar.

“Todos os funcionários trabalham livres, têm alimento, têm duas cozinheiras. Elas preparam café da manhã bem cedo, bem reforçado, preparam almoço bem reforçado, café da tarde, a merenda bem reforçada, e à noite. O pessoal vem para tomar banho e eles que cuidam do quarto deles, mas todos os quartos têm ar-condicionado”, afirmou.

Carlos Bernardo classificou como injusta a associação da propriedade a trabalho em condições análogas à escravidão e disse que repudia esse tipo de prática.

“Agora vem dizer que é um trabalho análogo, sabe? É muita injustiça, porque eu sou contra isso, eu abomino isso. Eu não compactuo com isso”, declarou.

O candidato também atribuiu a repercussão do episódio a uma suposta perseguição política contra ele.

A afirmação é de Bernardo e não há, até o momento, elementos apresentados publicamente que comprovem motivação política para a operação.

“Meu nome está no meio por causa de perseguição política. Eu me sinto assim, não tem explicação. O meu erro maior, acho que agora, foi entrar na política e agora, muito mais com chance de me eleger, estou sofrendo uma implacável perseguição desleal”, disse.

Vista aérea da fazenda de Carlos Bernardo, em Porto Murtinho, alvo de operação da Polícia Federal e do Ministério do Trabalho. Foto: Divulgação/PF.

Bernardo afirmou ainda que não responsabiliza as forças policiais que participaram da ação e disse ter sido informado de que a investigação teria começado após denúncia.

“Hoje eu me surpreendi com esse ato. Não estou aqui culpando a polícia, as polícias que participaram desse ato. Estou dizendo o seguinte: foi uma denúncia, dizem que foi uma denúncia, ou duas, não sei”, declarou.

Bernardo nega ser dono das armas

Sobre as 14 armas encontradas durante a operação, Carlos Bernardo afirmou desconhecer o armamento e disse não saber em qual ponto da propriedade ele foi localizado.

“As armas que foram encontradas são armas que foram encontradas lá na fazenda. Ninguém sabe onde, porque não mostraram onde foram encontradas. Eu tenho desconhecimento dessas armas aí”, disse.

Armas, munições e dinheiro encontrados durante operação na fazenda de Carlos Bernardo, em Porto Murtinho. Foto: Divulgação/Polícia Federal.

O candidato afirmou que não possui arma registrada em seu nome e sustentou que não poderia responder por eventual armamento pertencente a funcionários da propriedade.

“Funcionários que trabalham por lá têm o direito de comprar e de fazer o que eles quiserem. Eu não tenho como me envolver com isso. Eu não tenho arma no meu nome”, declarou.

Bernardo também argumentou que propriedades rurais daquela região costumam manter armas em razão da distância dos centros urbanos e de ocorrências de furto de gado.

“Naquela região, para você ter ideia, todas aquelas fazendas têm armamento lá. Por quê? Porque o Estado não garante a segurança para nós lá. Está longe de tudo, está na divisa com outro país, é uma roubalheira de gado na região”, afirmou.

Ele acrescentou que ocorrências envolvendo furto de gado poderiam ser verificadas junto à delegacia de Porto Murtinho.

“Procura saber na delegacia de Porto Murtinho que você vai ver o quanto de boletim de ocorrência e fatos narrados por eles de ladrão de gado que tem naquela região. Você ter uma arma na fazenda é proteção, porque senão os caras invadem a tua fazenda, roubam de madrugada, roubam na tua frente”, declarou.

A Polícia Federal ainda não informou oficialmente a quem pertencem as armas encontradas na propriedade. Também não foram divulgados os modelos e calibres do armamento, a quantidade total de munições recolhidas nem quem seria responsável pela guarda das armas.

A existência de armas com numeração suprimida deverá ser investigada para determinar a origem do armamento e eventuais responsabilidades.

Estrangeiros teriam sido recrutados

Segundo a Polícia Federal, a investigação teve início a partir de informações de que trabalhadores estrangeiros estariam sendo recrutados informalmente e levados para a propriedade rural, onde seriam mantidos em situação de vulnerabilidade.

Entre os elementos investigados estão a ausência de registro trabalhista, possível retenção de pagamentos e restrições à liberdade dos trabalhadores para deixar a propriedade.

Durante o cumprimento do mandado de busca e apreensão, as equipes encontraram 23 trabalhadores em situação trabalhista irregular.

A nacionalidade deles não foi divulgada. Também não foi informado oficialmente há quanto tempo estavam na propriedade, quais funções desempenhavam ou de que maneira teriam sido recrutados.

Outro ponto que ainda deverá ser esclarecido é se os 23 trabalhadores foram formalmente reconhecidos pelo Ministério do Trabalho e Emprego como vítimas de trabalho em condições análogas à escravidão.

A distinção é importante porque, até o momento, a Polícia Federal informou oficialmente que foram encontrados trabalhadores em situação trabalhista irregular, enquanto a possível submissão a condições análogas à escravidão permanece como objeto da investigação.

Carlos Bernardo rebateu a suspeita e afirmou que, nas empresas administradas por ele, as relações de trabalho seguem regras e princípios que, segundo ele, são incompatíveis com as práticas investigadas.

“Trabalho análogo à escravidão, eu abomino isso aí. É totalmente fora de contexto, não faz parte. Eu tenho o pessoal que trabalha comigo nas empresas que nós gestionamos, não existe essa de trabalho análogo. Tudo tem que ter o seu respeito, a sua ética, as suas regras, e regras têm que ser feitas para serem cumpridas”, declarou.

Candidato confirma propriedade da fazenda

A confirmação feita pelo próprio Carlos Bernardo reforça informações públicas que já relacionavam o empresário à atividade rural em Porto Murtinho.

Em junho, durante as comemorações pelos 114 anos do município, o site oficial do candidato informou que o empresário possui propriedade rural em Porto Murtinho e mantém investimentos na região.

Outra publicação registrou Bernardo como proprietário de empreendimento rural no município. Na ocasião, ele recebeu homenagem da Câmara Municipal de Porto Murtinho durante sessão solene alusiva ao aniversário da cidade.

Com a declaração concedida ao Correio do Estado, não há mais dúvida quanto ao vínculo do empresário com a propriedade alvo da operação: Bernardo confirmou ser o proprietário da fazenda, embora negue responsabilidade pelas armas encontradas e conteste as suspeitas relacionadas às condições de trabalho.

Bernardo contesta vínculo com universidade

Durante a entrevista, Carlos Bernardo também contestou informações relacionadas à Universidade Central do Paraguai (UCP).

O empresário afirmou que não é proprietário da instituição e disse que sua atuação esteve ligada à representação de estudantes brasileiros.

“Eu não sou dono dessa faculdade desde 2019. Eu nunca fui dono, na verdade. Eu era um dos diretores para representar o acadêmico brasileiro”, afirmou.

Segundo Bernardo, seu vínculo com a instituição terminou posteriormente e ele atualmente não integra a direção nem possui participação na universidade.

“Não faço parte do corpo diretivo, não sou proprietário dessa faculdade e muito menos de outra”, declarou.

A relação de Bernardo com a instituição já foi objeto de versões divergentes. O próprio site da UCP já o apresentou como CEO, enquanto a universidade declarou à imprensa paraguaia que ele não integra sua estrutura administrativa e que uma relação comercial mantida anteriormente teria terminado.

Bernardo afirmou ainda que sempre trabalhou desde a infância e negou envolvimento com atividades ilícitas.

“Eu fui de levantar cedo, seis horas da manhã, com seis anos de idade, enfrentando os frios do Paraná para trabalhar. Eu sempre trabalhei, eu sempre busquei, eu nunca me envolvi com coisa errada, eu nunca me envolvi com nada errado”, afirmou.

Rebanho milionário declarado à Justiça Eleitoral

Carlos Bernardo, de 60 anos, concorre a deputado federal pelo União Brasil com o número 4455. O empresário declarou à Justiça Eleitoral patrimônio de aproximadamente R$ 28,7 milhões.

A maior parcela do patrimônio declarado está relacionada justamente à pecuária. São 4.544 cabeças de gado avaliadas em R$ 18,4 milhões.

A relação de bens informada à Justiça Eleitoral também inclui R$ 3 milhões em cotas da Bernardo Administração e Participações, um Porsche Cayenne avaliado em aproximadamente R$ 1,41 milhão, R$ 800 mil em cotas da KS Táxi Aéreo e R$ 500 mil declarados em dinheiro em espécie.

Em seu perfil oficial de campanha, Bernardo se apresenta como empresário e afirma possuir mais de 30 anos de experiência em gestão.

Ele já disputou uma vaga de deputado federal em 2022 e concorreu à Prefeitura de Ponta Porã em 2024. Neste ano, voltou a disputar uma cadeira na Câmara dos Deputados.

Investigação continua

A Polícia Federal informou que as investigações prosseguem para esclarecer as circunstâncias dos fatos e identificar eventuais responsáveis e outros envolvidos.

Com a confirmação do próprio Carlos Bernardo de que é proprietário da fazenda, permanecem pendentes outros pontos centrais da investigação, entre eles quem administrava diretamente o local, a nacionalidade dos trabalhadores, como ocorreu o recrutamento, por quanto tempo permaneceram na propriedade e quem seria o proprietário ou responsável pelas 14 armas encontradas.

Também deverá ser esclarecido se havia retenção efetiva de salários ou documentos, se existiam restrições à saída dos trabalhadores e se as irregularidades encontradas serão caracterizadas pelo Ministério do Trabalho e Emprego como condições análogas à escravidão.

Em relação ao arsenal, Bernardo nega qualquer vínculo com as armas e afirma que não possui armamento em seu nome.

As circunstâncias da apreensão, a origem das armas e a eventual responsabilidade pela posse do material continuam sob investigação.

O que prevê a lei

Caso a investigação confirme a prática de trabalho em condição análoga à de escravo e haja condenação, os responsáveis podem responder pelo crime previsto no artigo 149 do Código Penal, cuja pena é de dois a oito anos de reclusão e multa, além da punição correspondente a eventual violência praticada.

Já o tráfico de pessoas para submissão a trabalho em condições análogas à escravidão, também investigado no caso, é previsto no artigo 149-A e tem pena de quatro a oito anos de reclusão e multa, com possibilidade de aumento em circunstâncias previstas em lei.

 

risco permanente

Empresário morto em acidente de moto em MS será sepulato do PR

Acidente com uma motocicleta de altas cilindradas aconteceu no entroncamento da BR-267 com a BR-163, em Nova Alvorada do Sul

12/10/2026 08h22

Fabrício Gustavo Silvino Barbosa, de 34 anos, será sepultado na cidade de Morumbi, no interior do Paraná

Fabrício Gustavo Silvino Barbosa, de 34 anos, será sepultado na cidade de Morumbi, no interior do Paraná

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Fabrício Gustavo Silvino Barbosa, de 34 anos, dono de um lava-jato em Nova Alvorada do Sul, morreu após sofrer um acidente com sua moto de alta cilindrada na tarde deste domingo (11), no entroncamento da BR-267 com a BR-163, na saída de Nova Alvorada do Sul para Dourados e Bataguassu. Ele será sepultado no interior do Paraná.

Segundo informações do site Alvorada Informa, o motociclista estava almoçando com familiares e saiu para fazer uma compra no posto Jumbo, na BR-267. Ao retornar para a cidade, perdeu o controle da moto na rotatória e teria batido com a cabeça em um poste de iluminação pública. O capacete se soltou e ele sofreu traumatismo craniano e outras fraturas.

Fabrício chegou a ser reanimado pelos socorristas do Corpo de Bombeiros e encaminhado ao Hospital Municipal Francisca Ortega, mas cerca de três horas depois foi anunciada sua morte.

Conforme anúncio da Pax Primavera, ele foi velado durante quatro horas na capela da empresa em Nova Alvorada do Sul e, ainda durante a madrugada desta segunda-feira (12) o corpo foi levado para a cidade de Marumbi, no Paraná, onde será sepultado.

As circunstâncias do acidente ainda não foram divulgadas e a Polícia Civil estava em busca de imagens de câmeras instaladas na região para tentar descobrir se algum outro veículo teve participação no acidente. As imagens também podem revelar se o acidente foi resultado de um possível excesso de velocidade, já que a motocicleta conduzida é de alta cilindrada.

Embora o acidente tenha acontecido na BR-267, as imagens da concessionária que controla a BR-163 podem ajudar na investigação, já que a fatalidade aconteceu na rotatória que serve de entroncamento para as duas rodovias. 
 

Consumo

Fronteira de MS vira epicentro de impasse regulatório sobre vapes e nicotina

Enquanto Paraguai e Argentina criam regras e tributação a cigarros eletrônicos, veto da Anvisa estimula rota ilícita de R$ 7,8 bilhões

12/10/2026 07h30

Executivo da indústria do tabaco apresenta formas de consumo de nicotina sem fumaça e combustão em Buenos Aires, na Argentina, durante a Technovation

Executivo da indústria do tabaco apresenta formas de consumo de nicotina sem fumaça e combustão em Buenos Aires, na Argentina, durante a Technovation Eduardo Miranda

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A recente decisão do Paraguai e da Argentina de regulamentar a comercialização de alternativas ao tabaco tradicional, como bolsas de nicotina, cigarros eletrônicos e tabaco aquecido, criou um intenso contraste regulatório na América Latina e aumentou a pressão sobre o Brasil. Enquanto os países vizinhos estabelecem marcos sanitários com limites de nicotina, controle de qualidade e arrecadação de impostos, o Brasil mantém a proibição total fixada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). 

Para Mato Grosso do Sul, que compartilha centenas de quilômetros de fronteira com o Paraguai, o descompasso tem impacto direto, e poderá consolidar a região como a principal rota de entrada do contrabando desses dispositivos para o mercado brasileiro.

Executivo da indústria do tabaco apresenta formas de consumo de nicotina sem fumaça e combustão em Buenos Aires, na Argentina, durante a TechnovationBolsas de nicotina, que têm sabores diversos, assim como pastilhas e chicletes, foram liberadas no Paraguai e na Argentina / foto: Eduardo Miranda

No início deste mês de outubro, a Dirección Nacional de Vigilancia Sanitaria (Dinavisa), do Paraguai, aprovou a resolução que autoriza e fixa regras para a fabricação, importação e venda de bolsas de nicotina. 

Tratam-se de produtos que têm sabores de menta, cereja, entre outros, como chicletes e balas para adultos, mas que por terem nicotina em sua composição, podem causar dependência. 

A norma estabelece o limite máximo de 16,7 mg de nicotina por bolsa, exige advertência sanitária ocupando 10% da embalagem, proíbe vendas a menores de 18 anos e restringe a publicidade. Uma das marcas mais famosas no mundo é a Zyn, vendida em embalagens parecidas com a de pastilhas, e que agora será comercializada no País vizinho ao Brasil. 

No Paraguai, os cigarros eletrônicos já contavam com regulação, limitando a nicotina nos líquidos a 2%. Pouco antes, em maio deste ano, a Argentina adotou medida semelhante com a Resolução 549/2026 do Ministério da Saúde e a Disposição 2543/2026 da Anmat, encerrando proibições históricas e fixando limites de 20 mg/ml para e-liquids e restrição de sabores a tabaco e mentol.

GUINADA

A guinada dos vizinhos expõe a vulnerabilidade de Mato Grosso do Sul. Cidades fronteiriças como Ponta Porã, vizinha a Pedro Juan Caballero, enfrentam rotineiramente a entrada ilegal de mercadorias. 

Segundo dados apresentados pela Philip Morris International (PMI) no evento Technovation 2026, em Buenos Aires, ao qual o Correio do Estado participou como convidado, 35% dos cigarros convencionais consumidos no Brasil já são ilícitos, vindos majoritariamente do Paraguai. 

Com a legalização dos novos produtos do outro lado da fronteira, a tendência é de que haja o fortalecimento do fluxo ilegal em direção a MS. Levantamento da Escola de Segurança Multidimensional da USP com o Instituto Ipsos, publicada em primeira mão pelo Correio do Estado, aponta que 10 milhões de brasileiros consomem dispositivos eletrônicos e bolsas de nicotina em um mercado informal de R$ 7,81 bilhões por ano, sem qualquer fiscalização ou recolhimento de tributos.

No encontro em Buenos Aires, executivos da PMI criticaram a postura brasileira. A fala mais contundente veio de Can Kuterdem, presidente da PMI para a América Latina e Canadá, que classificou o posicionamento da Anvisa como dogmático.

“A Anvisa tem uma ideologia, não ciência. A FDA dos Estados Unidos aprovou nossos produtos após três anos de análise científica rigorosa, mas no Brasil não podemos sequer solicitar formalmente uma revisão porque tudo é proibido”, afirmou Kuterdem. 

O executivo apontou a contradição da política nacional: “No Brasil, infelizmente, o produto mais prejudicial, que é o cigarro tradicional, é legal, enquanto alternativas melhores são banidas. Muitos oficiais de saúde lutam contra as empresas de tabaco há anos e acham difícil aceitar que a solução possa vir do próprio problema. Mas investimos US$ 16 bilhões em tecnologia para oferecer alternativas. As regras de proibição só abordam a oferta, não a demanda. Os brasileiros são espertos, vão até a fronteira e compram os produtos”, declarou.

O vice-presidente da PMI para a América Latina, Matias O’Farrell, ressaltou que a proibição alimenta o mercado clandestino nas fronteiras. 

“O consumidor já está lá, quer queiramos ou não. A ideia das regulamentações na Argentina e no Paraguai é saber exatamente o que está entrando no País”, explicou o executivo, que ainda afirmou que os dispositivos eletrônicos da empresa (Veev, a marca de Vape, e Iqos, a marca de tabaco aquecido) são rastreáveis e, ao contrário dos cigarros, são imunes (até agora) à falsificações. 
“Eu não acredito em proibições. O Brasil é o mercado mais importante da América Latina e eu nunca vou discutir o País desistindo dele. Continuaremos mostrando as evidências científicas”, declarou O’Farrell.

A crítica ao atraso regulatório foi endossada por Christos Harpantidis, diretor global de Assuntos Corporativos da PMI: “Quando os governos ficam presos ao passado e não investem tempo para entender as novas tecnologias, eles não progridem. Quando analisam a ciência, percebem que regular é melhor para a saúde pública, a economia e a arrecadação”. 

Tommaso di Giovanni, vice-presidente de Comunicação e Engajamento, destacou os riscos da falta de regras: “Se você proíbe, deixa apenas uma escolha ao consumidor, a mais perigosa, que é o cigarro. No Brasil, há dezenas de milhões de fumantes de fumantes e quase 10 milhões de usuários de cigarros eletrônicos consumindo produtos ilegais sem controle de qualidade”, explicou.

O que são as alternativas ao cigarro?

O vape (cigarro eletrônico), o tabaco aquecido e o sachê de nicotina (bolsa de nicotina) são alternativas ao cigarro convencional, projetadas para entregar nicotina por diferentes métodos, mas com uma característica em comum: a ausência total de combustão.

O vape consiste em um dispositivo eletrônico que vaporiza um líquido (e-liquid), composto por propilenoglicol, glicerina, aromatizantes e nicotina. 

Executivo da indústria do tabaco apresenta formas de consumo de nicotina sem fumaça e combustão em Buenos Aires, na Argentina, durante a TechnovationDispositivo eletrônico para aquecer tabaco, alternativa ao fumo, pois não gera combustão / foto: Eduardo Miranda

O tabaco aquecido utiliza tecnologia de indução ou resistência elétrica para aquecer o tabaco prensado em temperaturas controladas, liberando um aerossol com nicotina sem queimar a matéria vegetal.

Já o sachê de nicotina é uma pequena bolsa de fibra vegetal para uso oral, colocada entre o lábio e a gengiva, na qual a nicotina é absorvida diretamente pela mucosa sem conter folhas de tabaco e sem gerar vapor ou fumaça.

Quanto aos impactos na saúde, a eliminação da combustão faz com que esses produtos liberem cerca de 90% a 95% menos compostos tóxicos e substâncias cancerígenas do que a fumaça do cigarro tradicional, representando uma estratégia de redução de danos para fumantes. Porém, esses dispositivos não são isentos de riscos à saúde. 

Por conterem nicotina, todos eles continuam sendo produtos altamente adictivos que causam dependência química e podem provocar efeitos no sistema cardiovascular. 

Por esse motivo, a comunidade científica e as autoridades regulatórias enfatizam que essas alternativas não devem ser iniciadas por não fumantes ou jovens, destinando-se exclusivamente a adultos que já consomem tabaco e buscam uma alternativa de menor risco ao cigarro comum.

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