Cidades

REFLEXOS INDESEJADOS

Quase metade dos presos
de MS são ligados ao tráfico

Gastos anuais do Estado com essa parcela da massa carcerária passam de R$ 130 milhões

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Rota do tráfico de drogas, tanto da cocaína boliviana quanto da maconha paraguaia – que seguem para os grandes centros brasileiros e mesmo para o exterior –, Mato Grosso do Sul tem 42% dos seus presidiários oriundos do comércio de drogas. É o delito com o maior número de incidências entre os motivadores de prisões no Estado.

São 6.957 presos, num universo de 16.736, segundo os dados mais recentes levantados pela Agência Estadual de Administração Penitenciária (Agepen), responsável pelo controle das unidades prisionais sul-mato-grossenses.

Somente essa parcela da massa carcerária representa aos cofres estaduais um custo mensal na ordem de R$ 11 milhões – perto de R$ 132 milhões anuais, a considerar todos os componentes que formam esses custos – de segurança à alimentação. São despesas para as quais não há uma contrapartida financeira do governo federal, a quem, inicialmente, cabe a responsabilidade por esse tipo de preso. Depois das prisões por tráfico, as maiores incidências são por roubo (19%) e homicídios (13%).

NÚMEROS

Basicamente, as prisões de traficantes que entram no Estado a partir da fronteira são feitas pelo Departamento de Operações de Fronteira, Polícia Militar, Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico, Polícia Rodoviária Federal e Polícia Federal.

Conforme dados da Agepen, somente em Corumbá, na fronteira com a Bolívia, no estabelecimento penal masculino, de 568 presos, 177 são oriundos do tráfico. Na unidade feminina, a proporção é ainda maior: são 107 detentas, das quais 89 do tráfico.

A situação é semelhante na fronteira com o Paraguai. Em Ponta Porã, por exemplo, no presídio masculino, de 557 detentos, 407 são traficantes. No feminino, de 87 internas, 60 tiveram prisões em decorrência do tráfico.

No Presídio de Segurança Máxima de Campo Grande, de 2.338 detentos, 1.019 foram presos por tráfico. Já na Penitenciária Estadual de Dourados, de 2.319 internos, 835 chegaram ao local também com prisão por tráfico.

Numa outra ponta, das mulheres em privação de liberdade em Mato Grosso do Sul, 85% delas são em decorrência do tráfico, que também produz outro reflexo: os estrangeiros. Hoje, são 167 detentos de várias nacionalidades. Em Corumbá são 34; Ponta Porã, 28; e em Dourados, 22 presos.

COMPENSAÇÃO

O secretário estadual de Justiça e Segurança Pública, Antônio Carlos Videira, observou que, desses quase sete mil presos oriundos do tráfico, pouco menos de 700 são efetivamente da Polícia Federal e  Justiça Federal, e mais de seis mil são condenados por juízes estaduais.

Segundo ele, quando se afirma que são presos do tráfico significa também que a investigação, prisão e inquérito são de competência originária da Justiça Federal. “A Polícia Civil só faz esse trabalho por força de um convênio. Convênio esse que hoje a gente quer discutir, para que haja um caminho de contrapartida do governo federal para ajudar no custeio ou, ao menos, diminuir as despesas de custeio na manutenção desses presos”, afirmou.

“Eles [os presos] estão sendo indiciados, denunciados processados e condenados, em sua grande maioria, pela Justiça Estadual, a partir de ações das polícias estaduais”,  destacou Antônio Videira, ressaltando que a competência originária é da Polícia Federal, mas o maior volume decorre de trabalho estadual.

O secretário explicou que, apesar da competência federal, procedimentos como lavratura de flagrante, termos circunstanciados, auto de infração atribuído a adolescente, elaboração de laudo no veículo que transportava a droga e laudo pericial da droga, entre outros, são feitos pela polícia e perícia estaduais, por força de convênio.

“Assim, os quase sete mil presos do tráfico de drogas que hoje estão dentro do sistema penitenciário estadual e que custam R$ 11 milhões por mês ao Estado seriam originalmente de atribuição da Justiça Federal. Mas convênio com o Ministério da Justiça, agora Ministério de Segurança Pública, faz com que a Polícia Civil realize os procedimentos. Não há de se dizer que os presos decorrentes do tráfico não são de atribuição federal.

“Se o Estado de Mato Grosso do Sul rescindisse esse convênio, todos os procedimentos – inquéritos, laudos etc – decorrentes do tráfico, passariam a ser encaminhados para a Polícia Federal. Isso entupiria a Federal, que não teria condições de se dedicar a outros procedimentos também importantes, como o tráfico internacional e a lavagem de dinheiro”, alertou Antônio Videira.

Ao justificar que o Estado apenas defende que a União participe de forma mais efetiva e direta na manutenção desse tipo de preso, o secretário fez questão de frisar   que “não há interesse do Estado em rescindir o convênio, tanto que o mantém vigente. A última versão foi assinada no governo passado, diga-se de passagem, por um secretário que era delegado da Polícia Federal.  O que se quer é apenas uma contrapartida da União na manutenção de todo esse sistema”. 

Operação Infiltrados

Advogada é presa em quadrilha de policiais traficantes em MS

Jéssica Santos foi alvo de prisão preventiva na Operação Infiltrados, que investiga desvio de drogas apreendidas por policiais; delegado também está entre os presos

24/09/2026 18h01

Inscrição da advogada na Ordem dos Advogados do Brasil

Inscrição da advogada na Ordem dos Advogados do Brasil reprodução site OAB

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A advogada Jéssica Santos é uma das pessoas presas na Operação Infiltrados, desencadeada pelo Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) nesta quinta-feira (24), em Campo Grande e no interior de Mato Grosso do Sul. Contra Jéssica, apurou o Correio do Estado, pesa um mandado de prisão preventiva por integrar uma quadrilha chefiada por policiais que traficavam as drogas que apreendiam.

No grupo, há até delegado de polícia, caso de Hoffman D’Ávila Cândido Souza, titular da 6ª Delegacia de Campo Grande, mas que ficou mais de cinco anos, de 2019 a fevereiro de 2026, na titularidade da Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico de Campo Grande (Denar), divisão policial que, justamente, deveria combater o tráfico de entorpecentes.

A participação de Jéssica não foi detalhada pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul. O Correio do Estado apurou, contudo, que ela tem um escritório de advocacia em sociedade com o marido — que não é investigado — e que teria um familiar envolvido com o narcotráfico.

Em uma busca no banco de processos criminais, o Correio do Estado encontrou processos em que Jéssica defende acusados de tráfico presos pela Denar.

Alvo de prisão preventiva, Jéssica está reclusa no Presídio Militar de Campo Grande pelo fato de ser advogada. O cumprimento do mandado de prisão contra ela foi devidamente acompanhado pela Ordem dos Advogados do Brasil em Mato Grosso do Sul (OAB-MS), que deve abrir processo ético-disciplinar contra a suspeita.

Por ter uma filha bebê, a expectativa é que Jéssica ingresse, nas próximas horas, com um pedido de relaxamento da prisão na Justiça.

Policiais traficantes

A Operação Infiltrados, do Gaeco, foi às ruas para cumprir 24 mandados de prisão preventiva nesta quinta-feira (24), dois mandados de prisão temporária e ainda 38 mandados de busca e apreensão nas cidades de Campo Grande, Dourados e Terenos.

A investigação teve início depois de as equipes do Gaeco descobrirem um grande esquema de desvio de droga apreendida, especialmente cocaína, por policiais. As informações chegaram ao conhecimento do Gaeco durante as operações Traquetos e Blindspot.

O desvio das drogas apreendidas ocorria por meio da omissão dos policiais ao realizarem os registros formais das ocorrências de parte da droga efetivamente arrecadada ou até mesmo pela subtração da cocaína do depósito da delegacia.

Os policiais civis, então, repassavam a droga a traficantes que não atuam no serviço público, como eles, dando seguimento ao comércio ilegal.

Entre os presos, há um delegado da Polícia Civil, policiais civis, policiais militares e um policial penal.
 

Trânsito

Sem solução provisória, MS-040 pode ficar até 60 dias sem caminhões

Restrição nos km 205 e 223 já chega ao 20º dia, enquanto concessionária ainda não definiu quando tráfego pesado será liberado

24/09/2026 18h00

Trecho da MS-040

Trecho da MS-040 Reprodução/PMRMS

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A MS-040 pode permanecer por até 60 dias com o tráfego de caminhões e outros veículos pesados restrito nos quilômetros 205 e 223, mas, 20 dias após o início das intervenções nas pontes, ainda não há uma solução provisória nem prazo definido para a retomada do fluxo normal. Em resposta ao Correio do Estado, a Agência Estadual de Regulação de Serviços Públicos de Mato Grosso do Sul (Agems) informou as alternativas disponíveis para o transporte de cargas, mas não apontou uma data para a liberação do trecho.

As intervenções começaram no início de setembro e impedem a passagem de caminhões e outros veículos pesados pelas duas estruturas. Para os demais veículos, o tráfego permanece em sistema de Pare e Siga. A orientação para o transporte de cargas é utilizar principalmente a BR-267, enquanto outras rotas também são indicadas conforme a origem e o destino.

O problema é que o desvio já mostrou, na prática, as dificuldades provocadas pela retirada dos caminhões da rota original. Na quarta-feira (23), carretas ficaram atoladas em uma estrada de terra no km 172 da MS-040 durante uma interdição. Os veículos teriam sido orientados a seguir pelo desvio e acabaram bloqueando a passagem nos dois sentidos. A Caminhos da Celulose indicou a BR-267 como alternativa para os veículos pesados.

A situação também deixou de ser apenas uma questão de obra. Em 18 de setembro, moradores, produtores rurais e transportadores bloquearam a MS-040 em Santa Rita do Pardo para protestar contra a restrição, que já havia chegado à segunda semana.

Trecho da MS-040

Desde o início das intervenções, a concessionária informou que os serviços nas pontes poderiam durar entre 30 e 60 dias. O prazo, porém, não significa que exista uma data definida para o retorno dos caminhões, já que a previsão está relacionada à duração dos trabalhos de manutenção.

É justamente nesse intervalo que permanece a principal questão: se a obra pode avançar por até dois meses, que medida será adotada para evitar que o transporte de cargas fique submetido durante todo esse período às rotas alternativas?

A cobrança ganhou força nesta semana, quando o deputado estadual Pedro Arlei Caravina levou o caso à Assembleia Legislativa e pediu informações sobre os laudos que fundamentaram a restrição, o cronograma das intervenções e a possibilidade de instalação de uma ponte provisória para liberar os veículos pesados. O parlamentar também relatou ter recebido da concessionária a informação de que uma nova avaliação seria feita no dia 25.

A possibilidade de uma estrutura provisória é especialmente relevante porque permitiria separar duas questões: a necessidade de executar o serviço nas pontes e a necessidade de manter o corredor de cargas funcionando. Até agora, porém, não há confirmação de que uma ponte móvel ou outra alternativa temporária será instalada.

ROTAS

Questionada pelo Correio do Estado sobre a situação, a Agems informou as alternativas disponíveis para os veículos pesados e os procedimentos de acompanhamento da concessão. A agência, no entanto, não apresentou uma data para a normalização do tráfego nos dois pontos.

A cada dia de restrição, caminhões são retirados de um dos principais corredores utilizados entre Campo Grande, Santa Rita do Pardo e a região da divisa com São Paulo, enquanto produtores e transportadores precisam absorver os custos e dificuldades das rotas alternativas.

A própria Agems destaca, desde o início da concessão, que acompanha a execução do contrato e fiscaliza as obras da Rota da Celulose. A concessão reúne 870,3 quilômetros de rodovias e prevê R$ 10,1 bilhões em investimentos.

Na prática, porém, a questão que permanece sem resposta é objetiva.

O Correio do Estado procurou a Caminhos da Celulose para saber quais serão os próximos passos. Até a publicação, não houve resposta.

 

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