Estrutura vai reunir dados inéditos sobre feminicídio, renda, saúde e desigualdade para orientar ações da Prefeitura e identificar bairros com maior vulnerabilidade.
Campo Grande passará a contar com um sistema permanente para monitorar a realidade das mulheres e direcionar políticas públicas com base em indicadores oficiais.
A prefeita Adriane Lopes regulamentou a criação do Observatório Municipal de Políticas Públicas para as Mulheres (OMPM), estrutura que ficará responsável por reunir, produzir e analisar informações sobre violência de gênero, saúde, autonomia econômica, educação e participação feminina.
A proposta é permitir que a administração municipal identifique áreas de maior vulnerabilidade e planeje ações específicas para cada região da cidade, utilizando indicadores oficiais para orientar a formulação e a avaliação das políticas públicas voltadas às mulheres.
A iniciativa representa uma mudança na forma como o município pretende formular políticas voltadas às mulheres.
Em vez de atuar apenas com demandas já consolidadas, o observatório terá como missão transformar dados em inteligência para a gestão pública, produzindo diagnósticos periódicos sobre a situação feminina em Campo Grande.
Entre as atribuições previstas no decreto estão o levantamento e a sistematização de informações, a elaboração de indicadores quantitativos e qualitativos, a publicação de boletins técnicos bimestrais e o monitoramento contínuo das políticas públicas destinadas às mulheres.
O trabalho também deverá subsidiar a elaboração e a atualização do Plano Municipal de Políticas para as Mulheres.
Outro ponto considerado estratégico é o mapeamento das regiões com maior incidência de violações de direitos.
A partir desses levantamentos, a Prefeitura pretende direcionar programas e investimentos para locais onde os índices de violência, vulnerabilidade social ou desigualdade forem mais elevados.
Na prática, o observatório funcionará como um centro permanente de pesquisa e produção de conhecimento dentro da administração municipal.
O decreto prevê que a estrutura poderá estabelecer parcerias com universidades, órgãos estaduais e federais, instituições de pesquisa e organizações da sociedade civil para ampliar a coleta e a análise de dados.
Além da produção de estatísticas, caberá ao órgão elaborar relatórios técnicos, acompanhar a efetividade das políticas públicas existentes e sugerir novas ações para enfrentar problemas identificados ao longo das pesquisas.
Dez áreas serão monitoradas
Os estudos produzidos pelo observatório serão organizados em dez eixos temáticos considerados prioritários pela administração municipal.
Entre eles estão:
- enfrentamento à violência contra a mulher;
- saúde integral;
- autonomia econômica, trabalho e renda;
- educação e capacitação;
- participação política;
- direitos humanos;
- assistência social;
- cultura, esporte e lazer;
- comunicação;
- sustentabilidade e meio ambiente.
A expectativa é que o cruzamento dessas informações permita compreender não apenas os índices de violência, mas também fatores sociais e econômicos que influenciam a qualidade de vida das mulheres em diferentes regiões da Capital.
Boletins periódicos
O decreto estabelece que o Observatório Municipal deverá divulgar boletins técnicos periódicos com indicadores atualizados. Os documentos servirão como base para decisões administrativas, planejamento de programas públicos e avaliação da eficácia das ações desenvolvidas pelo município.
A Comissão Gestora responsável pelo observatório será composta por até cinco integrantes, vinculados à Secretaria Executiva da Mulher. O grupo poderá realizar visitas técnicas, audiências públicas, reuniões com comunidades e pesquisas de campo para ampliar a qualidade das informações coletadas.
Outro aspecto previsto na regulamentação é que todo o tratamento dos dados deverá observar a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e a Lei de Acesso à Informação (LAI), garantindo segurança jurídica e proteção das informações utilizadas nas pesquisas.
Nova estratégia
Ao institucionalizar o Observatório Municipal de Políticas Públicas para as Mulheres, a Prefeitura busca criar uma ferramenta permanente para orientar decisões com base em evidências, permitindo que futuras ações voltadas ao enfrentamento da violência, à geração de renda, à saúde e à promoção da igualdade de gênero sejam planejadas a partir de dados oficiais, e não apenas da demanda espontânea dos serviços públicos.
A medida entrou em vigor com a publicação do decreto no Diário Oficial desta quarta-feira (22).
Cenário preocupante
A implantação do observatório ocorre em um cenário em que Campo Grande concentra o maior número de casos de violência contra a mulher em Mato Grosso do Sul.
Conforme o Dossiê Mulher Campo-Grandense, lançado pela Secretaria Executiva da Mulher (SEMU) e publicado no Diário Oficial do Município, mostra que a Capital registrou 9,2 mil boletins de ocorrência de violência contra a mulher em 2025, uma média superior a 25 registros por dia.
O levantamento também aponta que os atendimentos na Casa da Mulher Brasileira ultrapassaram milhares de casos ao longo do ano, com pico em março, período marcado pela repercussão do feminicídio da jornalista Vanessa Ricarte.
Em 2026, Mato Grosso do Sul já contabiliza 15 feminicídios até 19 de julho, reforçando a necessidade de políticas públicas baseadas em dados para identificar áreas de maior vulnerabilidade e direcionar ações de prevenção e proteção às mulheres.