Os trilhos da antiga Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB) não apenas transportaram passageiros e mercadorias. Eles ajudaram a desenhar o mapa de Campo Grande e influenciaram diretamente a formação econômica, social e cultural de Mato Grosso do Sul.
Mais de um século depois, parte dessa história permanece de pé em estações, casas ferroviárias e construções históricas espalhadas pela Capital, enquanto outras sucumbem lentamente ao abandono e à ação do tempo.
É justamente para impedir que essas memórias desapareçam que nasce a segunda edição do projeto Resquícios do Tempo, da artista visual Sara Welter, conhecida artisticamente como Syunoi.
A nova cartilha ilustrada, intitulada Resquícios do Tempo: Complexo Ferroviário, será lançada no dia 3 de julho, a partir das 17h, no Casarão Thomé, em Campo Grande, durante um evento gratuito que reunirá pesquisa histórica, artes visuais, teatro, música e debates sobre preservação patrimonial.
Além do caráter educativo, a publicação propõe um novo olhar sobre a ferrovia que impulsionou o crescimento da cidade e transformou a região em um importante polo de desenvolvimento.
Desenhos de nanquim e carvão ajudam a transmitir o desgaste sofrido pelos locais históricos de Campo GrandeFoto: Dafne Alana
ARTE QUE PRESERVA
A origem do projeto remonta à pandemia, quando Sara iniciou uma pesquisa independente sobre prédios históricos e abandonados de Campo Grande.
A curiosidade em entender a história desses lugares, muitas vezes ignorados por quem passa diariamente por eles, resultou em uma série de desenhos produzidos em nanquim e carvão.
Foi essa coleção artística que deu origem, em 2024, à primeira cartilha Resquícios do Tempo: Redescobrindo Campo Grande, distribuída gratuitamente em escolas, bibliotecas e espaços culturais da cidade.
“A ideia surgiu primeiro pelos desenhos. Eu queria entender o que eram aqueles lugares que estavam no cotidiano da cidade e passavam despercebidos pela maioria das pessoas. Alguns estavam abandonados. Os desenhos foram uma forma de guardar esses espaços na memória e manter essas histórias vivas”, explica a artista.
Ela lembra que um dos casarões retratados na primeira edição desabou poucos meses após o lançamento da cartilha.
“Hoje só restaram os desenhos e as fotografias daquele lugar. Isso mostra como a arte também pode ser uma forma de preservação”, afirma.
Ao todo, cerca de 2.500 exemplares da primeira edição, incluindo versões em braille, foram distribuídos gratuitamente.
TRILHOS DE CG
Se na primeira edição o foco estava em patrimônios históricos diversos da Capital, desta vez a pesquisa voltou-se exclusivamente ao Complexo Ferroviário da antiga NOB, conjunto tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
Segundo Sara, a escolha do tema nasceu da importância que a ferrovia possui para a história do Estado.
“Desde criança eu ouvia falar dos trens cruzando o Pantanal, das pessoas que chegaram aqui de trem. Sempre tive curiosidade de entender melhor essa história. Depois de conversar com pesquisadores e pessoas que trabalham com patrimônio, percebi que era necessário fazer uma pesquisa mais profunda”, conta a artista.
Durante meses, ela mergulhou em documentos, bibliografias, entrevistas e visitas aos locais históricos ao lado da arquiteta Bruna Costa Dias, integrante da equipe do Iphan em Mato Grosso do Sul.
Enquanto Bruna ficou responsável pelo levantamento técnico e histórico, Sara percorreu os espaços retratados, registrando detalhes arquitetônicos, fotografando edificações e ouvindo relatos de moradores.
O resultado é uma cartilha que reúne informações sobre 12 patrimônios ligados à ferrovia, entre eles a Estação Ferroviária, o Casarão Thomé, a Casa da Chefia, a Casa dos Empregados, a Caixa D’Água da NOB, a antiga baldeação para Ponta Porã e os vagões abandonados que permanecem como testemunhas silenciosas da história.
CONSTRUÇÃO
A nova edição exigiu aproximadamente quatro meses de produção.
Foram cerca de dois meses dedicados à pesquisa histórica, seguidos por outros meses de elaboração das ilustrações e finalização editorial.
Cada desenho foi produzido manualmente em nanquim e carvão, técnica que acompanha a artista desde o início de sua trajetória.
“O ‘Resquícios’ fala justamente desse abandono, desses lugares antigos dos quais sobraram apenas restos e histórias. O nanquim e o carvão ajudam a transmitir essa estética do desgaste do tempo, dos contrastes, da memória que insiste em permanecer”, detalha.
Embora todos os desenhos utilizem a mesma técnica, Sara explica que o tempo de produção varia conforme a riqueza de detalhes de cada construção.
“Alguns são muito mais complexos, exigem bastante observação e comparação com fotografias antigas e atuais. Produzir toda a série demanda bastante tempo”, pontua Sara.
EDUCAÇÃO PATRIMONIAL
Assim como ocorreu na primeira edição, a nova cartilha terá distribuição gratuita em escolas, bibliotecas, instituições culturais e também contará com exemplares em braille.
Além disso, oficinas educativas voltarão a fazer parte do projeto.
Na edição anterior, estudantes da Rede Municipal de Ensino (Reme) conheceram a história de diferentes patrimônios de Campo Grande e produziram desenhos que deram origem à chamada “Árvore da Memória”, instalação coletiva construída durante as atividades.
“As oficinas ajudam os alunos a compreender que aqueles lugares contam a história da cidade e também fazem parte da história deles. Todo mundo fica muito curioso para saber como os desenhos foram feitos e quais histórias existem por trás de cada patrimônio”.
Para Sara, iniciativas como essa fortalecem a educação patrimonial.
“A educação patrimonial faz com que as pessoas entendam a importância de conservar nossa história. É isso que mantém nossa cultura viva”, afirma.
PROGRAMAÇÃO
O lançamento da cartilha foi pensado como um encontro entre diferentes expressões culturais.
Durante toda a programação, o público poderá visitar a exposição com os desenhos originais produzidos para a publicação.
O evento contará ainda com palestra do historiador José Augusto Carvalho dos Santos, chefe da Divisão Técnica do Iphan em Mato Grosso do Sul, abordando a importância da preservação do patrimônio histórico.
Também haverá intervenção cênica do espetáculo “As Miragens do Asfalto”, apresentada pelo Teatro Imaginário Maracangalha.
Na parte musical, a banda Alien Sputnik fará um show acompanhado por um video mapping criado por Natacha Ik, projetado nas paredes do Casarão Thomé.
As imagens utilizadas na projeção foram produzidas a partir da video-performance da artista Madu Flores, registrada em um percurso performático filmado por Eduardo Marques e por Sara Welter.
>> Serviço
Lançamento da cartilha Resquícios do Tempo: Complexo Ferroviário
Data: Sexta-feira;
Horário: a partir das 17h;
Local: Casarão Thomé;
Endereço: Rua 14 de Julho, nº 3.169, Bairro São Francisco, Campo Grande;
A entrada é gratuita.
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