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Música

Cantora de MS lança versão de clássico japonês em bossa nova

Douradense, descendente de japoneses, transforma memórias e influências da infância em ponte musical entre duas culturas distintas

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Atravessar oceanos sem sair da própria história. É nesse território simbólico que a cantora nipo-brasileira Mariana Matsui constrói sua trajetória artística. Nascida em Dourados e criada com referências culturais brasileiras e japonesas, a artista lança no dia 1º de maio uma nova versão do clássico japonês “Kawa no Nagare no Yō Ni”, em parceria com Lisa Ono.

A releitura, que incorpora elementos de bossa nova e jazz, marca um percurso profundamente ligado à identidade, à memória e ao pertencimento.

A canção, eternizada na voz de Hibari Misora, é considerada uma das mais emblemáticas da música japonesa. Lançada originalmente em 1989, tornou-se um símbolo geracional, atravessando décadas e mantendo-se viva no imaginário coletivo do país. Na versão de Mariana, o arranjo ganha nova atmosfera, com influências da música brasileira, sem perder a delicadeza da original.

RAÍZES

Antes de alcançar palcos internacionais, a história de Mariana Matsui começa no interior de Mato Grosso do Sul. Foi em Dourados que ela viveu a infância e teve seus primeiros contatos com a música – e também com a cultura japonesa, que viria a se tornar um dos pilares de sua identidade artística.

A ligação com o Japão nasceu dentro de casa. Neta de uma imigrante japonesa, Mariana cresceu convivendo intensamente com a avó, a quem chama carinhosamente de “bachan” (vovó, em japonês).

As duas moravam lado a lado, e era na casa da avó que a futura cantora mergulhava em um universo cultural distinto: assistia à televisão japonesa, ouvia músicas tradicionais e conhecia artistas que marcaram sua formação musical ainda na infância.

“Foi tudo muito natural. Antes mesmo de entender o que era MPB ou jazz, eu já tinha essa conexão com a cultura japonesa”, relembra.

Aos quatro anos, já demonstrava interesse por música, incentivada por videogames e karaokês caseiros. Aos oito, começou a cantar.

Esse início precoce foi moldado por um ambiente cultural híbrido, característico de Mato Grosso do Sul, estado que abriga uma das mais fortes comunidades de descendentes japoneses no Brasil.

Além da influência familiar, Mariana destaca o acolhimento que recebeu ao longo da infância. Eventos locais, clubes e iniciativas culturais foram fundamentais para seu desenvolvimento artístico. “Eu tenho uma memória muito afetiva de tudo isso. Sempre fui muito bem acolhida”, afirma.

PONTE CULTURAL

Aos 14 anos, Mariana se mudou para São Paulo, onde aprofundou sua formação musical e deu os primeiros passos profissionais. Foi na capital paulista que entrou em contato mais direto com a música brasileira, especialmente a bossa nova, que, com o jazz, marca sua identidade artística.

Anos depois, em 2021, a cantora deu um novo salto ao se mudar para o Japão. A experiência, inicialmente motivada por circunstâncias pessoais, acabou se transformando em um ponto de virada em sua carreira.

“Foi lá que eu realmente comecei a entender minhas raízes. Eu sempre tive essa influência, mas viver no Japão me fez sentir isso de forma muito mais profunda”, explica.

No país asiático, Mariana se encontrou em um espaço de representatividade, sendo uma artista brasileira, com ascendência japonesa, levando a música do Brasil para um público que, surpreendentemente, já tem forte conexão com esse repertório.

GRANDES FÃS

Ao contrário do que muitos imaginam, a bossa nova não é apenas um símbolo cultural brasileiro – ela também é amplamente valorizada no Japão. Segundo Mariana, o país asiático está entre os maiores consumidores do gênero no mundo, superando inclusive o próprio Brasil em determinados nichos.

“O japonês, quando gosta de algo, se aprofunda. Eles estudam, colecionam discos, aprendem português. Já conheci pessoas que sabem mais sobre música brasileira do que eu”, relata.

Essa relação intensa com a música se reflete também na recepção do público aos shows da artista. Mariana conta que, ao incluir canções japonesas em seu repertório, frequentemente presencia reações emocionadas da plateia. “Já vi pessoas chorando durante as apresentações. Existe uma conexão muito forte”, diz.

Além disso, o fato de ter ascendência japonesa desperta identificação no público local, que vê na cantora uma espécie de ponte cultural. “Eles se sentem orgulhosos de ver alguém que cultiva essa ligação com o país deles”, afirma.

O SINGLE

A escolha de “Kawa no Nagare no Yō ni” como primeiro single do novo projeto não foi apenas estética, mas também profundamente afetiva.

A música, tradicional dentro da cultura japonesa, também faz parte da memória coletiva das famílias descendentes no Brasil.

“É uma canção que tocava muito na casa da minha avó. Ela me remete diretamente à minha infância, à minha família, à convivência entre gerações”, explica Mariana.

Ao revisitar a obra, a artista buscou ressignificar a canção a partir de sua própria trajetória. Para isso, incorporou elementos da bossa nova e do jazz, criando um arranjo que dialoga com sua identidade musical contemporânea.

A decisão também tem um significado pessoal importante. Aos 90 anos, sua avó acompanha com orgulho o lançamento do single em japonês – um gesto que a cantora define como uma forma de honrar suas origens em vida.

“Essa música me conecta com tudo: minha infância, minha família, minhas raízes. É um lugar muito especial no meu coração”, afirma.

Entre o Brasil e o Japão, entre o português e o japonês, entre a tradição e a reinvenção, a artista constrói um caminho singular, em que as diferenças não se anulam, mas se complementam.

“Eu me considero brasileira, mas minhas raízes orientais estão no meu DNA. Poder viver isso e levar a música brasileira para o Japão é um lugar de muita gratidão”, resume.

Capa do single “Kawa no Nagare no Yō Ni”, em parceria com Lisa Ono - Fotos: Divulgação

PARCERIA

Lisa OnoLisa Ono - Foto: Divulgação 

A participação de Lisa Ono no projeto reforça ainda mais essa conexão entre Brasil e Japão. Reconhecida como uma das principais responsáveis por popularizar a bossa nova no país asiático, a artista construiu uma carreira sólida ao longo de décadas, tornando-se referência nesse intercâmbio cultural.

O encontro entre as duas aconteceu no Japão e evoluiu de forma natural. “Quando pensamos no disco, o nome dela surgiu imediatamente. E foi um presente ter ela na faixa”, conta Mariana.

A parceria simboliza a continuidade de uma ponte entre gerações e culturas. Ambas compartilham trajetórias marcadas pela circulação entre Brasil e Japão, explorando identidades múltiplas por meio da música.

TURNÊ 

O lançamento do single marca o início de uma agenda intensa no Japão, com apresentações em eventos e espaços relevantes da cena musical do país. Entre os destaques estão participações no La Folle Journée Tokyo e na rádio J-WAVE FM, além de shows e eventos institucionais.

A turnê também funciona como uma prévia do álbum que Mariana prepara para lançar ainda este ano. Diferentemente do single, o disco será majoritariamente em português, reafirmando seu compromisso com a música brasileira, mas sem abrir mão das influências orientais que marcam sua trajetória.

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Coluna Entre Costuras e CuLtura: quando a collab vira estratégia

No Brasil, o movimento ganha força quando influenciadores deixam de ser apenas vitrines e passam a atuar como coautores ou, no mínimo, como signos culturais que legitimam uma coleção.

26/04/2026 15h00

Collab rescente da Riachuelo com a influenciadora de moda Silvia Braz

Collab rescente da Riachuelo com a influenciadora de moda Silvia Braz Foto: Divulgação

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Se antes as colaborações eram um recurso pontual de marketing, hoje elas se consolidam como uma estratégia poderosíssima de vendas. Mais do que produto, a collab virou estratégia e talvez seja esse o seu maior valor.

Não por acaso, vemos um boom de parcerias que atravessam não só marcas, mas também personas. No Brasil, o movimento ganha força quando influenciadores deixam de ser apenas vitrines e passam a atuar como coautores ou, no mínimo, como signos culturais que legitimam uma coleção.

É o caso da colaboração entre Silvia Braz e Riachuelo, que reforça um fenômeno interessante: a estética aspiracional traduzida para o fast fashion. Silvia não entrega apenas roupa entrega estilo. O closet da influenciadora vira estratégia de marca, e o resultado é previsível (e eficaz): desejo imediato e prateleiras esvaziadas.

Mas há um ponto mais profundo nessa equação: a collab não gera valor apenas para marca e influenciadora ela também reposiciona a experiência de consumo para o público.

No caso de Silvia e Riachuelo, há um acesso claro a uma moda com códigos mais sofisticados, normalmente associados a um circuito mais exclusivo, agora traduzidos em preço e escala. É a sensação de pertencimento a um universo mais aspiracional, sem a barreira tradicional de entrada.

E é justamente aí que entra uma das engrenagens mais eficientes e menos discutidas das collabs: a construção de uma certa exclusividade calculada. Drops limitados, sensação de urgência e peças que desaparecem rápido criam a impressão de raridade, mesmo dentro de uma lógica de produção em escala.

Não se trata exatamente de exclusividade no sentido clássico, mas de uma escassez coreografada, que transforma acesso em conquista e acelera o consumo.

No eixo celebridade + marca, o exemplo de Amir Slama e Jade Picon (já na terceira edição) mostra outro caminho: a continuidade. Em vez de um drop isolado, a collab vira plataforma. Jade não é só rosto é extensão de lifestyle, ajudando a reposicionar o olhar sobre a marca.

Collab rescente da Riachuelo com a influenciadora de moda Silvia BrazCollab rescente da Riachuelo com a influenciadora de moda Silvia Braz - Divulgação

Já no cenário internacional, a parceria entre H&M e Stella McCartney (e tantas outras ao longo dos anos) consolidou um modelo híbrido que poderíamos chamar de “fast fashion de luxo”. Aqui, o valor está na democratização simbólica: comprar não apenas uma peça, mas um fragmento de capital de moda.

Esse mesmo raciocínio aparece em collabs mais “inesperadas”, como Farm com Matte Leão ou ainda a união entre Farm e Dengo, que mistura moda e gastronomia com forte carga de brasilidade. Nessas interseções, o produto quase se torna secundário: o que se vende é experiência, identidade e pertencimento.

Porque, no fundo, collabs são sobre isso: criar comunidades temporárias. Quando duas marcas (ou uma marca e um influenciador) se encontram, somam não apenas públicos, mas universos simbólicos. E é nesse cruzamento que mora o desejo e essa sensação de novidade, conexão e exclusividade. 

Mas há um ponto de atenção: nem toda parceria sustenta valor no longo prazo. Collabs precisam ser episódicas, com começo, meio e fim, caso contrário, deixam de fortalecer a marca e passam a substituí-la.

Talvez seja esse o maior desafio da moda atual: equilibrar a velocidade das parcerias com a construção de identidade. Porque, entre costuras e cultura, uma coisa é certa, a collab só funciona quando costura algo maior do que roupa.

Collab rescente da Riachuelo com a influenciadora de moda Silvia BrazRenner em collab com a influnciadora de moda Livia - Divulgação

Dicas práticas para não perder (nem se perder):

Acompanhe redes sociais e newsletters das marcas, ative notificações para drops e, principalmente, filtre pelo seu repertório, porque, na era das collabs, comprar tudo é impossível, mas escolher bem virou posicionamento.

@gabrielarosastyle

 

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Guarda compartilhada de Pets: Justiça ou exagero?

A Dra. em psicologia Vanessa Abdo fala sobre o assunto na coluna desta semana

26/04/2026 14h30

Guarda compartilhada de Pets: Justiça ou exagero?

Guarda compartilhada de Pets: Justiça ou exagero? Foto: Divulgação

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A justiça deve decidir com quem fica um pet após a separação de um casal? Para alguns, isso soa como exagero. Para outros, é o reconhecimento de um vínculo legítimo. Nos últimos tempos, a chamada guarda compartilhada de animais de estimação tem provocado debates intensos e dividido opiniões.

Existe um argumento frequente de que "é só um animal" e que o sistema judiciário não deveria se ocupar disso. Mas essa visão ignora uma transformação importante: os pets passaram a ocupar um lugar afetivo central nas famílias. Eles não são mais acessórios da vida doméstica. São presença, companhia e, muitas vezes, parte da estrutura emocional de quem cuida.

Por outro lado, também é preciso cuidado para não romantizar tudo. Quando a justiça entra em cena, geralmente é porque o diálogo já falhou. E, em muitos casos, o pet deixa de ser apenas um vínculo afetivo e passa a ser instrumento de disputa. Não é sobre o bem-estar do animal, mas sobre quem "ganha" a relação. E isso, sim, é preocupante.

A questão talvez não seja se é exagero ou não, mas o que nos trouxe até aqui. Por que adultos não conseguem construir acordos sobre algo que envolve cuidado? Por que o conflito precisa escalar a ponto de exigir intervenção jurídica? Essas perguntas dizem mais sobre a qualidade das relações do que sobre o papel da justiça.

Reconhecer a importância emocional dos pets é um avanço. Transferir para o judiciário a responsabilidade de mediar vínculos afetivos pode ser um sinal de que ainda temos dificuldade em sustentar conversas difíceis e acordos maduros.

No fim, não se trata apenas de quem fica com o animal. Trata-se de como lidamos com o fim, com o outro e com aquilo que construímos juntos.

E talvez a pergunta mais honesta seja: estamos preparados para assumir, de forma adulta, os vínculos que escolhemos criar?

Vamos desatar esses nós?

@vanessaabdo7

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