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Capa B+: Entrevista exclusiva com o Chef e jurado do Masterchef Brasil Henrique Fogaça

Jurado no Masterchef, músico, empresário, pai, o chef tem história de vida inspiradora. "A equipe do Masterchef é como uma família pra mim, a relação que construímos torna o trabalho mais leve e divertido".

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Nascido em Piracicaba, o chef, empresário e músico Henrique Fogaça se interessou pela gastronomia quando foi morar em São Paulo com a irmã, aos 22 anos. Na época, ele precisava fazer a própria comida e para se aprimorar, pedia receitas para a mãe e a avó.

No começo da carreira, Henrique ia de madrugada ao Ceasa comprar novos ingredientes e passava a noite toda misturando, experimentando e testando suas descobertas. 

Fogaça estudava arquitetura, mas trancou o curso ao saber sobre os cursos de gastronomia que surgiam em São Paulo e decidiu se matricular no curso de chef executivo em 2001.

Durante os estudos, não perdeu a chance de realizar estágios em renomados restaurantes de São Paulo e com uma personalidade criativa e potente, sem medo de errar, já começava a se destacar no universo gastronômico. 

Tanta criatividade e ousadia fez Henrique partir para o empreendedorismo e, em 2005, inaugurar seu próprio restaurante, o Sal Gastronomia, na época, um pequeno café na Galeria Vermelho que acomodava cerca de 16 pessoas, e hoje já somam duas unidades e é considerado um dos melhores e mais procurados restaurantes da cidade.

''Mais do que comida boa, aqui no SAL você viverá uma experiência gastronômica, em um ambiente aconchegante, com uma equipe da qual me orgulho muito'', revela Henrique. 

Focado e com uma mente realizadora, buscando sempre inovar nas suas criações, em 2012, criou a Feira Gastronômica de comida de rua em São Paulo. No ano seguinte, 2013, inaugurou o Cão Véio, Gastropub voltado para lanches e, em 2014, abriu o Admiral's Place Whisky Bar na parte superior do Sal Gastronomia. Fogaça ainda é um dos sócios do restaurante Jamile.

O chef acredita que "Comida não pode ser um artigo de luxo", por isso, seus pratos são uma fusão da alta gastronomia com a culinária brasileira contemporânea. 

Fogaça costuma utilizar ingredientes que para alguns seriam comuns e os transforma em pratos impecáveis, repletos de sabor e apresentação impecável. 

Comunicador e com estilo marcante, em 2014, Fogaça estreou na TV, na BAND, como jurado do “Masterchef Brasil”, onde atua até hoje e ganhou notoriedade, além de vários fãs no Brasil, Angola e Portugal. 

O Chef Henrique Fogaça - Foto: Divulgação

Multifacetado, Fogaça ainda tem outros talentos, é vocalista e fundador da banda de hardcore “Oitão”.
Na música, sua banda de hardcore, Oitão, lançou a música “Borderless”, com direito a um videoclipe gravado na aldeia Tekoá Itakupé, uma comunidade indígena guarani no Pico do Jaraguá, em São Paulo.

Em 2017, lançou seu primeiro livro "Um Chef Hardcore", um relato autobiográfico que mistura momentos de sua vida e 30 receitas assinadas por ele. 

“Eu nunca fui acomodado, talvez seja por isso que a vida me permita viver todos os dias novos desafios. Sempre questionei, nunca me limitei, nem tão pouco concordei que eu não poderia fazer algo diferente e melhor a cada dia que nascia. Eu sempre acreditei que eu poderia receber ao menos um sim que pudesse fazer a diferença”, conta Fogaça.

Sua personalidade é forte e as mais de 100 tatuagens que tem pelo corpo evidenciam as características do chef, que é motociclista, estiloso, gosta de rock e andar de skate. 

“A caveira representa o que ele leva como lema em sua vida, por baixo dessa pele, independentemente da cor, credo ou classe social, somos todos iguais. O que importa é a nossa luta diária de querer fazer o melhor para o próximo e a si mesmo. Fazer o bem é algo que não é glória para ninguém, é a paz que toda alma deveria buscar ”, explica Henrique.

Fogaça é pai de Olivia, João e Maria Leticia. Olivia nasceu com uma síndrome rara e desconhecida e, desde então, Fogaça busca informações sobre tratamentos alternativos com o uso da cannabis e tem sido um grande aliado na causa.

Tanto que está desenvolvendo um instituto que leva o nome da filha para poder proporcionar a outras famílias um tratamento mais adequado e eficaz para crianças que sofrem com a síndrome possam ter uma vida melhor e com mais autonomia. O chef também participa de outros projetos sociais, como o “Chefs Especiais”, o espaço promove aulas de culinária para pessoas com síndrome de Down.

Depois da pandemia, desenvolveu outro projeto social juntamente com seus dois sócios do Restaurante Jamile, chamado “Marmita do Bem”, em que eles distribuíram marmitas para moradores de rua.

“Quando a minha filha Olivia nasceu a vida me deu uma nova oportunidade de ser melhor, dessa vez eu tinha mais um motivo para não ligar para os nãos da vida, eu já havia recebido um sim acompanhado de um sorriso leve e que me transforma todos os dias. Mas digo com propriedade que o que era um problema de saúde da minha pequena, me transformou em um homem melhor com ainda mais garra e força de vontade”, revela Fogaça. 

O Chef lançou em 2021 o livro 'O Mundo do Sal' pela Essential Idea Editora. Escrita por Henrique Fogaça e o jornalista Rogerio Ruschel. 

Durante os meses de pausa do Masterchef, Fogaça lançou uma linha exclusiva de óculos, em parceria com a famosa marca Evoke, passou tempo com sua família, correu no rally Mitsubishi Cup, criou um menu vegano para o seu restaurante, Sal Gastronomia, sendo incluído no Guia Garfinho de Ouro pela iniciativa, um símbolo importante de compromisso com a inclusão e a acessibilidade.

O Cão Véio ganhou novas unidades pelo Brasil, expandindo sua culinária e estilo descolado. O chef retornou como jurado do Masterchef em setembro. 

No mês de novembro, o chef recebeu duas honrarias pelo seu trabalho com a sociedade e pelo seu talento gastronômico. Sendo da ICDAM (Instituto Internacional de Comunicação Ações Humanitárias da Amazônia), que ao lado do seu amigo, Markone, foi reconhecido pelas práticas de cuidado pensando na Amazônia. Além disso, ele foi homenageado pela segunda vez com a honraria da Cruz do Mérito da Gastronomia.

Fogaça é Capa exclusiva do Correio desta semana, e também da gastronomia do Caderno com depoimentos sobre trabalho, vida pessoal e receita para você reproduzir na sua casa.

O Chef Henrique Fogaça é Capa do Correio B+ desta semana - Foto: Henrique Tarricone - Diagramação Denis Felipe e Denise Neves

CE - Fogaça você sempre foi uma pessoa inquieta e realizadora?
Porque você está sempre à frente de muitas funções.
HF -
 Eu sou uma pessoa que gosta de viver novas experiências, de estar em movimento. E se você se organizar dá para atuar em mais de uma área, vai depender mesmo do desejo de cada um, eu gosto desse movimento, de me desafiar, me traz até mais criatividade para a gastronomia, música e afins.

É bem corrido, mas estou acostumado, faz muito tempo que concilio várias ocupações ao mesmo tempo. Claro, tenho um time que me ajuda em tudo, mas eu gosto desse ritmo. Sou uma pessoa muito agitada, então acredito que me manter ocupado me ajuda a me centrar.

CE - Qual a sua história com a gastronomia, você sempre gostou, pensou nisso?
HF - 
O interesse pela gastronomia surgiu quando cursava o curso de Administração com ênfase em Comércio Exterior em São Paulo. Na época saí de Ribeirão Preto para morar na capital e estava cansado de comer comida congelada, e foi na necessidade de cozinhar, pegando receita da minha avó e experimentando tudo na cozinha que me entreguei à gastronomia e não parei mais.

Já fui bancário, office boy, trabalhei em locadora de vídeo, em imobiliária, em supermercado, em feira de roupas, como segurança e fiz panfletagem de shows de hardcore, mas decidi largar tudo para começar na gastronomia, que se tornou a minha paixão. 

CE - Como nasceu o Sal Gastronomia, como ele está hoje e qual o conceito?
HF -
 O Sal nasceu em 2005 em Higienópolis, São Paulo. Foi onde tudo começou, era um espaço pequeno, com um fogão usado e uma mesa comunitária. Lá, eu evoluí e cresci bastante como cozinheiro e chef de cozinha. Costuma levar meu filho João na cozinha, a gente sempre estava por lá, com meus irmãos e meus pais também.

Agora, depois de 18 anos da inauguração, ele vai mudar para uma nova sede na zona oeste da cidade, na região dos Jardins. Os clientes podem esperar um restaurante repaginado, moderno, acolhedor e bonito. Vamos manter os pratos clássicos, mas terão novidades no menu, surpresas dessa nova unidade. E nós ainda temos outra unidade no Shopping Cidade Jardim, que continuará funcionando normalmente. 

Henrique Fogaça - Foto: Divulgação

CE - Você é um empreendedor, após o Sal ser criando, conta pra gente um pouco sobre esse caminho…
HF - 
Comecei pequeno, vendendo hambúrguer na rua, então sempre me envolvi com tudo. Algo que levei quando abri o Sal, meu primeiro restaurante. Hoje também tenho o gastropub Cão Véio, sou sócio do restaurante Jamile. 

O segredo é saber de tudo! Cuido das compras, da qualidade dos ingredientes, que pra mim é fundamental, estou na criação dos cardápios, no dia a dia da cozinha. Além disso, é essencial servir comida boa, ter um ambiente bacana e excelência no atendimento.  

CE - Fogaça sobre ingredientes usados em seus pratos, nos conte o seu diferencial, ou melhor: “Comida não pode ser artigo de luxo”...
HF -
 Acredito que meu diferencial é o amor pelo trabalho, gostar de cozinhar, do ambiente da cozinha, de poder servir, receber as pessoas. O restaurante é um local onde as pessoas vão para comemorar alguma coisa e o ato de comer já é uma celebração. 

CE - A experiência como apresentador começou em 2014 com o Masterchef? 
HF -
Recebi o convite para participar do Masterchef em 2014 e confesso que entrei nessa experiência com curiosidade, era um formato ainda inédito no Brasil. Ao longo desses nove anos, a audiência do programa fortaleceu meu trabalho em diversos aspectos, com ela consegui levar diferentes experiências culinárias para as pessoas, e isso é incrível. 

A visibilidade do Masterchef me proporcionou investir nos projetos que eu acredito, então só tenho coisas positivas em relação ao programa. Me sinto muito grato pelo carinho dos fãs, eles estão sempre na torcida por mim, e valorizo muito isso!

Com a sua turma do Masterchef Brasil - Foto: Divulgação

CE - Ainda se lembra da sua estreia? Como foi?
HF -
 Eu sempre apostei muito nesse formato de reality, onde os competidores nos trazem tantas surpresas e emoções. Lá em 2014, quando o programa estreou, lembro de estar nervoso, mas sempre confiando no trabalho da equipe e da BAND.

CE - Porque você saiu do programa por um período? Sentiu falta?
HF -
 É sempre difícil pausar um projeto, ainda mais o Masterchef que se tornou uma família pra mim, mas foi uma pausa necessária e muito bem alinhada com a emissora e a direção, e sou grato por isso. Tinha outros projetos que queria retomar, precisava ficar mais tempo com a minha família, meus filhos, e foi um tempo muito precioso. 

CE - Como foi o retorno à família do Masterchef?
HF - 
Foi uma pausa curta, mas que me deu muita energia e empolgação para voltar! Gosto muito da dinâmica do programa, é muito gratificante conhecer as histórias dos participantes e perceber que, através da gastronomia, nós fazemos a diferença na vida deles! Aprendo muito. 

CE - Como é a relação de vocês?
HF -
 A equipe do Masterchef é como uma família pra mim, a relação que construímos torna o trabalho mais leve e divertido. 

Foto: Divulgação

CE - Fale um pouco sobre seus livros lançados Fogaça?
HF -
 Em 2017, lancei meu primeiro livro, “Um Chef Hardcore”, um relato autobiográfico, misturando momentos importantes e 30 receitas assinadas por mim. Em 2022, lancei o livro “O Mundo do Sal”, pela Essential Idea Editora e escrito por mim e pelo jornalista Rogério Ruschel. O livro apresenta a contribuição do sal para com a humanidade nos últimos 5.000 anos, sua influência na política, na economia, na cultura e na sociedade, além de algumas receitas especiais. 

Sempre gostei de me expressar, seja através da música ou da gastronomia, e a escrita foi outra maneira que encontrei de expressar o que eu acredito e a minha maneira de ver o mundo.  

CE - Nos conte suas milhares de tatuagens pelo corpo…
HF -
 Sim, são muitas! Eu fiz a primeira tatuagem com 15 anos e perdi as contas já, porque foi juntando um desenho no outro. Elas contam histórias de vida ligadas ao rock, cozinha, família, marcadas no corpo. 

Henrique Fogaça no Masterchef - Foto: Divulgação

CE - A relação com a sua filha é bastante emocionante, e você cravou uma luta usando tratamentos alternativos com o uso da cannabis, como está todo esse processo e evolução?
HF -
 A condição da minha filha Olívia é rara, os médicos não chegaram a um diagnóstico conclusivo sobre a síndrome que ela tem, mas pra mim se tornou uma inspiração. Cheguei a ouvir de alguns médicos que minha filha não iria sobreviver. Foi devastador para mim. No entanto, eu tinha convicção que iríamos lutar e vencer juntos. Assim que eu conheci o tratamento com o Canabidiol.

Desde então, a Olivia tem outra qualidade de vida, a evolução foi incrível! Ela vivia deitada e não tinha expressão facial. A curvatura da coluna dela guiava o olhar para baixo e tinha muitas convulsões. Três, quatro, cinco, seis por dia! Meu coração apertava quando o corpo da Olivia tremia e os olhos viravam. Mas, com o CBD tudo isso mudou. Hoje quando saímos juntos, ela olha pra tudo e fica até brava em lugares muito cheios. Ela está mais feliz, reage mais rápido. Quando falo com ela, dá um sorriso. Isso não acontecia antes. 

CE - Você está desenvolvendo um instituto com o nome da sua filha e também ajuda outros projetos sociais. Qual é o seu sentimento estando dentro do 3 setor dessa maneira?
HF - 
Muitas pessoas me procuram para entender sobre o assunto, porque o uso medicinal do Canabidiol ainda é um tabu no Brasil. Já nos Estados Unidos e na Europa o tema é mais abordado. Tenho como principal objetivo ajudar outras famílias com o acesso ao tratamento à base de canabidiol e desmistificar o uso medicinal da planta.

Criar um instituto envolve um processo burocrático, principalmente quando se trata de ter o objetivo de democratizar o acesso ao uso medicinal do canabidiol, então ainda estamos nesse processo. 

Estar envolvido em ações sociais me motiva enquanto pai, cidadão, pessoa e profissional, então sempre busco poder ajudar como posso, seja com o projeto chefs especiais, marmita do bem ou qualquer outra ação que possa contribuir para uma sociedade mais justa, acessível e humanitária. 

CE - Como você concilia tantas atividades com a sua vida pessoal?
HF -
 Eu tenho pessoas que trabalham comigo, vários braços direitos na cozinha, na parte de administração, assessoria de imprensa, pessoal do marketing, tem toda uma estrutura por trás. Isso ajuda muito na organização da minha rotina. 

Apesar de ter uma vida extremamente corrida e estar cada hora em um lugar, sempre me esforço para estar o máximo possível com os meus filhos, a Olívia, o João e a Maria que são meus grandes amores. 

                     Com a filha Olívia - Foto: Divulgação

CE - E a música, qual a sua relação com ela?
HF - 
Me considero um rockeiro desde os 10 anos de idade. A música foi talvez a minha primeira paixão, e o rock pesado definiu todo o meu estilo de vida.

Comecei ouvindo bandas bem clássicas, como AC/DC e Iron Maiden, e logo descobri as bandas nacionais, que foram as que eu mais me identifiquei, como Cólera e Ratos de Porão. Com o Oitão, banda que sou vocalista, pude realizar um dos meus sonhos mais antigos, e também é uma válvula de escape para a minha criatividade.

Acabamos de lançar o single “Borderless” com um videoclipe gravado na aldeia Tekoá Itakupé, uma comunidade indígena guarani no Pico do Jaraguá, em São Paulo. Também queremos lançar um vinil de sete polegadas com duas músicas. E já estamos compondo faixas para outro projeto, cujo título é “Indigesto” com letras mais ríspidas e fortes. 

CE - Prato preferido do Fogaça?
HF - 
Amo fazer comida caseira para a família, me traz lembranças boas. Os pratos vêm da época dos meus pais, uma comida gostosa, simples, farta em um lugar aconchegante que consegue servir bem toda a família. Por isso, meu prato favorito é arroz, feijão, farofa, um bife acebolado e um ovo frito com gema mole. 

CE - Expectativas para 2024…
HF -
 Continuar meus projetos profissionais, cuidar da minha saúde e estar perto dos meus filhos. Tem mais Masterchef pra gravar em 2024! Estou com um projeto de retomar meu canal no Youtube, trabalhar em vários segmentos, além da gastronomia. Muitas coisas boas vem por aí…

Moto, música e tatuagens também são paixões do empresário e Chef Fogaça - Foto: Divulgação

Cinema Correio B+

Pretty in Pink aos 40: o final reescrito, a trilha e o filme que definiu uma geração

Quatro décadas depois, o clássico de John Hughes segue atual ao revelar como classe, desejo e música moldaram uma das histórias mais influentes do cinema adolescente

16/05/2026 13h00

Pretty in Pink aos 40: o final reescrito, a trilha e o filme que definiu uma geração

Pretty in Pink aos 40: o final reescrito, a trilha e o filme que definiu uma geração Foto: Divulgação

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Nos anos 1980, adolescentes aprenderam rapidamente a reconhecer — e a esperar — os filmes assinados por John Hughes. O diretor que parecia saber “falar com a juventude” partia de fórmulas simples, mas o que o distinguia era menos a estrutura e mais o olhar: havia empatia, havia observação, e havia um interesse genuíno por personagens que o cinema raramente colocava no centro.

Em O Clube dos Cinco e Gatinhas e Gatões, os improváveis protagonistas deixavam de ser coadjuvantes sociais para se tornarem narradores de histórias sobre formatura, primeiro beijo e os desencontros silenciosos com os pais.

Em 1986, Hughes consolida esse movimento com um clássico imediato: A Garota de Rosa Shocking (Pretty in Pink), um filme que, quatro décadas depois, não funciona apenas como registro de uma geração, mas como um modelo emocional de como o cinema aprendeu a olhar para a juventude sem reduzir suas contradições.

Com roteiro de Hughes e direção de Howard Deutch, o filme nasce de um gesto simples e raro: levar adolescentes a sério. Não como arquétipos, mas como sujeitos atravessados por classe, desejo, vergonha e pertencimento.

A história de Andie Walsh, uma jovem de origem humilde que se apaixona por um garoto rico em meio a um ambiente hostil, é estruturalmente simples, mas emocionalmente precisa. É esse deslocamento — do clichê para a experiência — que sustenta sua longevidade cultural.

A lógica de classe que organiza o desejo

Se existe algo que diferencia Pretty in Pink de outras comédias românticas adolescentes da época, é a forma como o filme inscreve o romance dentro de uma estrutura social clara. Andie não é apenas uma outsider por estilo ou personalidade.

Ela é economicamente deslocada. A escola funciona como um microcosmo de hierarquias que não precisam ser explicadas porque já estão naturalizadas.

Blane, o interesse amoroso, não representa apenas um ideal romântico. Ele é também o acesso a um mundo que Andie observa de fora. E é justamente essa interseção entre desejo e pertencimento que o filme recusa simplificar. Quando Blane hesita, quando se afasta pressionado pelos amigos, o que está em jogo não é apenas covardia emocional, mas a dificuldade de atravessar uma barreira que o próprio filme insiste em tornar visível.

Nesse sentido, o conflito nunca foi exatamente um triângulo amoroso entre Andie, Blane e Duckie. O que se disputa ali é a possibilidade de circular entre mundos que não se misturam com facilidade.

Duckie e o gesto que atravessa gerações

Quarenta anos depois, poucas cenas resistem com tanta força quanto a dança de Duckie ao som de Try a Little Tenderness. O que poderia ser apenas um momento excêntrico se transforma, com o tempo, em uma espécie de manifesto involuntário sobre exposição e vulnerabilidade.

O próprio Jon Cryer revisitou recentemente a cena como um ponto de afirmação do personagem, um instante em que Duckie tenta provar seu valor em um mundo que o marginaliza.

Na época, parte do elenco considerou o momento constrangedor. Hoje, ele funciona como um dos gestos mais reconhecíveis do cinema adolescente, justamente porque não busca aprovação.

Há algo de profundamente contemporâneo nessa leitura. Em um ambiente cultural que recompensa a curadoria da imagem, Duckie permanece como um corpo fora de lugar que insiste em existir sem mediação.

Um final reescrito e o que ele revela

Um dos aspectos mais reveladores da história de Pretty in Pink está fora da tela. O final original previa que Andie terminaria com Duckie, mas a reação negativa do público em testes levou John Hughes a reescrever o desfecho, substituindo-o pelo encontro com Blane no baile.

Essa mudança não é apenas uma curiosidade de bastidor. Ela revela o quanto o filme já operava dentro de uma negociação com as expectativas do público. A lógica do conto de fadas — a ideia de que a protagonista deve terminar com o objeto de desejo — se impõe sobre a alternativa mais ambígua, reorganizando não apenas o final, mas a própria leitura emocional da história.

No ano seguinte, Howard Deutch e Hughes parecem revisitar essa decisão em Some Kind of Wonderful. O filme de 1987 funciona quase como uma variação estrutural de Pretty in Pink, mas desta vez mantendo o desfecho que havia sido abandonado: a escolha pelo melhor amigo, pela intimidade construída fora das hierarquias sociais.

Pretty in Pink aos 40: o final reescrito, a trilha e o filme que definiu uma geraçãoPretty in Pink aos 40: o final reescrito, a trilha e o filme que definiu uma geração - Divulgação

Ainda assim, embora tenha conquistado seu próprio público ao longo do tempo, nunca se aproximou do impacto cultural do filme anterior, como se a resolução mais coerente emocionalmente não fosse necessariamente a mais potente dentro do imaginário coletivo.

Mesmo tendo que alterar o fim, Pretty in Pink ainda tenta preservar Duckie, oferecendo a ele um gesto de continuidade, quase como uma promessa de que sua história não termina ali. É um compromisso curioso entre frustração e consolo, que diz muito sobre o tipo de romantismo que o cinema dos anos 1980 estava disposto a sustentar.

A trilha sonora como narrativa

Poucos filmes incorporaram a música de forma tão orgânica quanto Pretty in Pink. Não como pano de fundo, mas como extensão emocional dos personagens. O próprio John Hughes deixou claro que a trilha nunca foi um elemento secundário, mas parte central da construção do filme.

O diretor Howard Deutch inicialmente pensava em uma abordagem mais tradicional, baseada em música incidental, mas Hughes interfere diretamente nessa decisão ao insistir no uso de canções contemporâneas — não como hits isolados, mas como uma curadoria capaz de dialogar com o estado emocional das cenas.

A seleção mistura new wave, pós-punk e soul de maneira que hoje parece não apenas representativa, mas definidora de uma época. Esse desenho fica ainda mais evidente no processo de construção do final. Antes da mudança, o Orchestral Manoeuvres in the Dark havia composto Goddess of Love, pensada para o desfecho original com Duckie.

Com a alteração da narrativa, Hughes pede uma nova música que funcione emocionalmente para o reencontro entre Andie e Blane. OMD escreve If You Leave em menos de 24 horas.

O resultado não é apenas funcional. A música redefine o final, suaviza o conflito de classe, desloca a ambiguidade e entrega ao público uma sensação de resolução que o roteiro, por si só, talvez não sustentasse.

Esse é um ponto-chave para entender a trilha como curadoria. Ela não acompanha a história. Em momentos decisivos, ela a reorganiza.

Essa lógica explica por que tantas faixas parecem não apenas encaixar, mas definir momentos. Left of Center, de Suzanne Vega, não é apenas uma música; funciona quase como uma descrição da própria Andie. 

Please Please Please Let Me Get What I Want, dos Smiths, condensa o desejo adolescente em sua forma mais crua. E Bring on the Dancing Horses, do Echo & The Bunnymen, acrescenta uma camada de deslocamento que reforça a sensação de inadequação dos personagens.

Quarenta anos depois, o impacto dessa curadoria ainda é visível. Pretty in Pink ajudou a consolidar um modelo que se tornaria dominante nos anos seguintes: o de trilhas compostas por canções cuidadosamente selecionadas, capazes de viver fora do filme sem perder conexão com ele.

Mas talvez o mais interessante seja perceber que essa trilha não funciona apenas como nostalgia. Ela continua operando porque traduz algo que o filme também entende bem: a adolescência não é silenciosa. Ela se organiza por referências, por músicas, por aquilo que se escuta para tentar dar forma ao que ainda não se sabe nomear.

E, nesse sentido, Pretty in Pink não apenas usou música. Ele ajudou o cinema a escutar seus personagens. O relançamento em vinil rosa, com a inclusão de faixas como Otis Redding e Talk Back, não é apenas uma estratégia de mercado, mas o reconhecimento de que essa trilha continua sendo uma das mais influentes do cinema moderno, frequentemente listada entre as melhores já feitas.

O retorno aos cinemas e o que ainda resiste

Em 2026, Pretty in Pink voltou às salas em versão remasterizada em 4K, acompanhada de material inédito com Howard Deutch, reforçando algo que o tempo já tinha demonstrado: esse não é um filme que depende da nostalgia para existir.

Ele continua sendo revisitado porque ainda oferece uma leitura reconhecível sobre pertencimento, desejo e identidade. E talvez seja esse o ponto mais interessante ao olhar para seus 40 anos. O que poderia ter se tornado apenas um artefato dos anos 1980 permanece ativo porque nunca foi apenas sobre aquela década.

Foi, desde o início, sobre o desconforto de tentar ocupar um lugar no mundo sem saber exatamente onde esse lugar está.

E essa não é uma questão que envelhece.

CULINÁRIA

Conheça três adaptações de receitas clássicas sem a adição de farinha de trigo

Conheça três adaptações de receitas clássicas para celíacos; farinha de arroz, fécula de batata e amidos são opções sem glúten para substituir o trigo tradicional

16/05/2026 10h30

A farinha de arroz, ingrediente utilizado nessa quiche, é um dos principais substitutos da farinha de trigo, por isso muito utilizado em pratos salgados

A farinha de arroz, ingrediente utilizado nessa quiche, é um dos principais substitutos da farinha de trigo, por isso muito utilizado em pratos salgados Fotos/Divulgação

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Celebrado neste sábado, o Dia do Celíaco chama atenção para a necessidade de uma alimentação totalmente livre de glúten para pessoas diagnosticadas com doença celíaca.

A condição exige mudanças permanentes na rotina, atenção aos ingredientes utilizados e cuidados rigorosos para evitar contaminação cruzada durante o preparo dos alimentos.

Considerada uma doença autoimune e inflamatória, a doença celíaca é desencadeada pela ingestão de glúten, proteína presente no trigo, na cevada e no centeio.

Quando consumido por pessoas celíacas, o glúten provoca uma reação do organismo que atinge principalmente o intestino delgado, prejudicando a absorção de nutrientes e podendo desencadear sintomas como dores abdominais, diarreia, anemia, fadiga, perda de peso e desconfortos gastrointestinais recorrentes. Em alguns casos, os sinais são mais discretos, o que contribui para o subdiagnóstico.

Estudos científicos apontam que cerca de 1% da população mundial convive com a doença celíaca, embora muitos pacientes ainda não saibam que têm a condição.

Por isso, a data também reforça a importância da informação, do diagnóstico precoce e da ampliação do acesso a alimentos seguros e inclusivos.

Nos últimos anos, o mercado alimentício passou a oferecer mais opções voltadas ao público celíaco, impulsionando adaptações culinárias que permitem manter receitas tradicionais no cardápio sem abrir mão do sabor.

Ingredientes naturalmente sem glúten, como farinha de arroz, fécula de batata e amidos vegetais, ganharam espaço nas cozinhas domésticas e na indústria alimentícia, possibilitando versões alternativas de massas, salgados, pães e sobremesas.

Além de atender pessoas com doença celíaca, as adaptações também atendem consumidores que buscam reduzir o consumo de glúten no dia a dia ou experimentar novas possibilidades culinárias. 

Veja a seguir releituras de pratos clássicos bastante presentes na rotina dos brasileiros. As receitas utilizam ingredientes alternativos ao trigo e mostram que é possível adaptar preparos tradicionais de maneira prática, acessível e saborosa.

Massa de pastel com vários recheios

Ingredientes

Para a massa

  •  2 xícaras (chá) de farinha de arroz (300 g);
  •  1 xícara (chá) de fécula de batata (200 g);
  •  ½ xícara (chá) de amido de milho (50 g);
  •  4 ovos;
  •  1 colher (sopa) de azeite de oliva (13 ml);
  •  2 colheres (sopa) de óleo vegetal (26 ml);
  •  ½ xícara (chá) de água (140 ml);
  •  1 ½ colher (chá) de sal (7,5 g);
  •  1 colher (chá) de fermento químico (4 g);
  •  1 gema de ovo para pincelar.


Para o recheio de frango cremoso

  •  2 peitos de frango;
  •  6 xícaras (chá) de água;
  •  2 colheres (sopa) de óleo;
  •  2 cebolas picadas;
  •  2 tomates sem pele picados;
  •  Sal, pimenta do reino e salsinha picada a gosto;
  •  1 vidro de requeijão cremoso.

Para o recheio de carne refogada

  •  500 g de carne moída;
  •  1 cebola pequena;
  •  1 colher (sopa) de azeite;
  •  Sal a gosto;
  •  4 tomates sem pele;
  •  Pimenta do reino moída a gosto;
  •  Cheiro-verde picado a gosto.

Modo de Preparo

Massa

Em um recipiente, coloque a farinha de arroz, a fécula de batata, o amido de milho, o fermento e o sal. Faça uma cavidade no meio desses ingredientes e adicione o óleo vegetal, o azeite de oliva, os ovos (passe os ovos em uma peneira para evitar pontos amarelos na massa), e misture. Adicione a água e mexa até que não grude nas mãos ou no recipiente.

Deixe a massa descansar na geladeira por 30 minutos antes de abri-la.

Preaqueça o forno a 180° C por 10 minutos.

Em uma superfície lisa e limpa polvilhe a farinha de arroz e abra a massa com as mãos. Polvilhe a massa com a farinha e termine de espichá-la com o auxílio de um rolo também enfarinhado.

Quando a massa estiver fina, corte no formato desejado e adicione o recheio de sua preferência. Feche os pastéis.

Coloque-os em uma forma antiaderente e pincele a sua superfície com uma gema de ovo. Asse por 15 minutos a 180° C.
recheio de frango cremoso

Cozinhe os peitos de frango na água temperada com um pouco de sal e pimenta até ficarem macios. Escorra e desfie. Aqueça o óleo e doure a cebola.

Adicione o tomate e mexa até murchar. Junte o frango desfiado e cozinhe por alguns minutos. Acrescente o requeijão cremoso e misture bem. Acerte o sal, tempere com pimenta do reino e a salsinha. Aguarde esfriar para utilizar.

Recheio de carne refogada

Aqueça uma panela com o azeite. Refogue a cebola. Acrescente a carne e frite até que fique bem sequinha. Junte os tomates e refogue por alguns minutos. Tempere com o sal e a pimenta e junte o cheiro-verde picado. Misture bem.

Quiche lorraine

Ingredientes

Para a massa

  •  2 xícaras (chá) de farinha de arroz;
  •  125 g de manteiga gelada cortada em cubos;
  •  1 pitada de sal;
  •  100 ml de água gelada;
  •  50 ml de azeite.

Para o recheio

  •  50 ml de azeite;
  •  150 g de bacon em cubos;
  •  4 ovos;
  •  400 ml de creme de leite;
  •  120 g de queijo emmental ralado;
  •  Sal e pimenta-do-reino a gosto;
  •  10 g de noz-moscada.

Para a montagem

  •  4 ovos;
  •  400 g de farinha de linhaça dourada;
  •  400 g de farinha panko.

Modo de Preparo

Para fazer a massa, em um recipiente, misture a farinha de arroz, o sal e a manteiga com a ponta dos dedos, até formar uma farofa. Acrescente a água gelada aos poucos, até que a massa fique homogênea.

Coloque na geladeira coberta por um filme plástico por 25 minutos. Em seguida, abra a massa e forre a forma untada com o azeite. Faça furos na massa com um garfo e coloque para assar no forno preaquecido a 180° C por 10 minutos.

Para o recheio, em uma frigideira, aqueça o azeite e frite o bacon em fogo baixo até dourar. Retire e deixe escorrer. Em um recipiente junte os ovos, o creme de leite e o queijo ralado e misture bem com a ajuda de um fouet. Tempere com sal, pimenta e noz-moscada. Em seguida, acrescente o bacon.

Despeje a mistura uniformemente sobre a massa pré-assada e volte novamente ao forno por mais 25 minutos ou até começar a dourar e o recheio ficar firme. Desenforme e sirva em seguida.

Coxinha de batata-doce

Ingredientes

Para a massa

  •  4 batatas-doces cozidas e amassadas;
  •  1 colher (sopa) de azeite;
  •  Sal;
  •  2 colheres (sopa) de farinha de arroz.

Para o recheio

  •  1 xícara (chá) de azeite;
  •  2 dentes de alho amassados;
  •  ½ cebola cortada em cubos;
  •  400 g de frango desfiado;
  •  2 tomates sem sementes cortados em cubos;
  •  Sal e pimenta-do-reino a gosto;
  •  250 g de creme de ricota ou requeijão;
  •  Cebolinha ou salsinha picada (opcional).

Para a montagem

  •  4 ovos;
  •  400 g de farinha de linhaça dourada;
  •  400 g de farinha panko.

Modo de Preparo

  • Refogue a cebola e o alho na manteiga. 
  • Acrescente os cogumelos até dourar. 
  • Adicione o arroz e mexa por dois minutos. 
  • Coloque o vinho e espere evaporar. 
  • Aos poucos, adicione o caldo (uma concha por vez), mexendo sempre. 
  • Quando o arroz estiver al dente e cremoso (cerca de 18 minutos), desligue o fogo. 
  • Incorpore o parmesão e a salsinha. Sirva imediatamente.

 

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