Se você acompanha minha coluna aqui no Caderno B+ já teve a oportunidade de ler, mais de uma vez, sobre Marilyn Monroe. De documentários, a biografias e listas. Sou fã. E como ela completaria 100 anos em 1º de junho de 2026, volto a ela com gosto.
Talvez seja significativo que, um século depois de seu nascimento, ainda pareça impossível falar sobre ela apenas como atriz. Sua carreira durou apenas 17 anos e ainda assim, poucas personalidades do século 20 permanecem tão presentes no imaginário coletivo como Marilyn.
Por isso, o centenário da atriz está sendo celebrado quase como um evento cultural global. Em Londres, Los Angeles, São Paulo e diversas outras cidades, exposições, retrospectivas e homenagens tentam revisitar uma pergunta que parece acompanhar Marilyn desde os anos 1950: quem ela realmente foi?
As comemorações chegaram também ao Brasil. Em São Paulo, o MIS apresenta Marilyn Monroe Lost Shots, reunindo fotografias realizadas por Allan Grant poucos dias antes de sua morte. No Rio de Janeiro, o Estação NET Gávea promove uma retrospectiva com alguns dos filmes mais importantes de sua carreira.
Na National Portrait Gallery, em Londres, a mostra Marilyn Monroe: A Portrait reúne trabalhos de fotógrafos como Richard Avedon, Cecil Beaton, Eve Arnold, Milton Greene, Philippe Halsman e Sam Shaw. O objetivo não é apenas exibir rostos famosos ou imagens icônicas, mas investigar a construção de uma persona pública que continua fascinando gerações inteiras.
Mas talvez a homenagem mais reveladora esteja em Los Angeles. No Academy Museum, a exposição Marilyn Monroe: Hollywood Icon tenta desmontar uma leitura que acompanhou a atriz durante décadas: a da mulher passiva, vítima da indústria e prisioneira da própria beleza.
Ali estão figurinos, contratos, roteiros anotados, correspondências, objetos pessoais e peças históricas como o vestido rosa de Os Homens Preferem as Loiras e o célebre vestido branco de O Pecado Mora ao Lado. O que emerge desse material é uma figura muito mais interessante do que a caricatura da “loira ingênua” eternizada pela cultura popular.
A exposição mostra uma mulher que enfrentava executivos de estúdio, exigia aprovação de ensaios fotográficos, participava das decisões sobre figurinos e foi uma das primeiras atrizes a criar a própria produtora em Hollywood.
Uma artista que compreendia não apenas o próprio talento, mas também o valor econômico e simbólico da imagem que ajudava a construir.
Centenário de Marilyn Monroe: Voltar a Marilyn Monroe aos 100 anos é voltar a um mistério - DivulgaçãoTalvez essa seja uma das razões pelas quais Marilyn continua despertando interesse muito além do cinema.
Ela viveu em uma época que não possuía o vocabulário contemporâneo para discutir autonomia feminina, construção de imagem, saúde mental ou objetificação. Ainda assim, enfrentou todas essas questões. Falou abertamente sobre terapia quando isso ainda era considerado um tabu.
Questionou executivos poderosos. Defendeu escolhas que poderiam destruir carreiras na Hollywood dos anos 1950. Quando surgiu o escândalo envolvendo fotografias nuas feitas anos antes de sua fama, recusou-se a negar sua participação, mesmo pressionada pelo estúdio. “Eu precisava do dinheiro”, respondeu. “Não tenho vergonha disso.”
A frase continua surpreendentemente moderna.
Ao longo dos anos, o mito acabou obscurecendo a pessoa. A narrativa da mulher trágica muitas vezes se sobrepôs à da profissional inteligente. A da vítima eclipsou a da estrategista. A da fantasia apagou a da criadora. Talvez por isso o centenário seja tão interessante.
As exposições não estão tentando apenas celebrar Marilyn Monroe. Estão tentando recuperar partes dela que ficaram escondidas sob décadas de projeções coletivas. A mulher que surge dessas homenagens não é apenas a loira platinada congelada em imagens famosas.
É alguém que entendia profundamente o funcionamento de Hollywood e aprendeu a negociar seu espaço dentro de um sistema que raramente oferecia poder às mulheres. E, mesmo assim, nenhuma dessas iniciativas parece resolver completamente o enigma, porque Marilyn continua ocupando um lugar singular na cultura popular e o mundo ainda não consegue deixá-la para trás.
Cem anos depois de seu nascimento, continuamos olhando para Marilyn Monroe da mesma forma que a câmera parecia olhar para ela: incapazes de desviar os olhos por muito tempo.
E talvez porque, no fundo, ela nunca tenha sido apenas uma estrela de cinema. Marilyn Monroe se tornou a própria fantasia de Hollywood sobre si mesma e um dos grandes mistérios que o século 20 deixou para o século 21 tentar compreender.
Foto: Bruno Peres/Agência Brasil
Lybia da Costa Miglioli e Clotilde Alvarenga Ribeiro - Foto: Arquivo pessoal
Tayana Padilha - Foto: Arquivo pessoal

