Não é a primeira vez que Kenneth Branagh faz um filme que flerta com suspense, terror até e sustos. Mas se em “Voltar a Morrer” a história era 100% original e “Frankenstein” era uma adaptação do clássico de Mary Shelley, “A Noite das Bruxas” é uma revisão de um conto menos conhecido de Agatha Christie. A questão é, se você é tradicionalista pode estranhar o “novo” Hercule Poirot. Pode deixar, não trarei spoilers.
O filme começa 10 anos depois de “A Morte no Nilo”, e Poirot está “aposentado”, vivendo em Veneza. Ainda pessimista e amargurado depois lidar com vingança coletiva dos culpados em “Assassinato no Expresso Oriente” e a ganância dos assassinos no Egito.
Tudo está indo bem até que, na véspera do Dia das Bruxas, é ‘convocado’ a sair de seu exílio autoimposto quando sua amiga, a escritora Ariadne Oliver (Tina Fey, entrando para a franquia), pede ajuda para desmascarar uma farsa de sessões espíritas lideradas pela médium Joyce Reynolds (Michelle Yeoh).
Intrigado com a proposta, ele aceita e, no palazzo decadente e assombrado da famosa cantora de ópera Rowena Drake (Kelly Reilly), Poirot se depara não apenas com uma série de assassinatos como terá que se render à tese de maldição e espíritos ou seguir na aposta de lógica e racional.
Com essa base, para quem acompanha os filmes de Branagh, sabe que tudo é quase exageradamente dramático: os closes, os sustos, as interpretações. Mas funciona como
terror psicológico em uma Veneza deslumbrantemente fotografada. “A Noite das Bruxas” usa e abusa dos interiores escuros, da luz de velas e uma noite de tempestade para nos levar numa viagem sombria e ocasionalmente assustadora.
Foto: DivulgaçãoO conto original que é a base do filme foi publicado pela primeira vez em 1969, mas há pitadas de outras histórias escritas por Agatha Christie e que abordam o sobrenatural, tipo “The Last Seance”. Ariadne sempre foi apontada como o alter ego da escritora e Branagh abraça com vontade essa versão. Agatha Christie era cética e tinha prazer em ‘desmascarar’ médiuns e espiritas e ele consegue equilibrar as dúvidas no tom certo.
Para os leitores de Christie, há um elemento paradoxal: a história tem como base o conto “Hallowe’en Party”, mas é quase que apenas uma citação porque a trama é original e bem diferente. Opa, desculpem para quem conhece o culpado esse comentário é um spoiler porque não é o mesmo da história original.
Ou seja, é um convite para usar a fórmula tradicional de Poirot para chegar a “quem matou” seguindo a lógica. Eu acertei, mas isso porque sou mesmo “treinada”, certamente pode surpreender. E antes que reclamem da “heresia”, o bisneto de Agatha Christie é um dos produtores e aprovou as mudanças. Ter um “novo” Poirot funciona para ele, e para nós.
“A Noite das Bruxas” está em cartaz nos cinemas. Se quiser rever os dois filmes anteriores, “Assassinato no Expresso Oriente” e “Morte no Nilo”, eles estão no StarPlus. Vamos colocar as células cinzentas para funcionar!

Luciene Orsi Abdul Ahad e Jorge Abdul Ahad - Foto: Studio Vollkopf
Izabella Andrade - Foto: Arquivo Pessoal


