Os 23 contos de “O Futuro Te Espera”, escritos por Gustavo Tadeu Alkmim, recorrem a diferentes vozes para evidenciar as complexidades das relações humanas e as múltiplas maneiras de existir no mundo em contraposição a uma sociedade efêmera.
Doutor em Literatura e Estudos Culturais, o autor narra momentos cotidianos para tratar sobre as realidades política, social, econômica e psicológica.
Em uma das histórias, um homem encara o próprio corpo morto no caixão, enquanto faz uma retrospectiva de sua trajetória, repleta de conflitos no trabalho e nos relacionamentos. Em outro enredo, uma família, acostumada a nunca chorar e a guardar dentro de si todas as angústias, precisa se separar para buscar uma melhor qualidade de vida.
Ao explorar o extraordinário nas experiências do dia a dia, o escritor apresenta situações que retratam as inquietações humanas sobre a morte, os problemas emocionais da sociedade atual e os medos inerentes da existência.
Para isso, ele utiliza personagens profundos e múltiplos: há uma mulher “de bem” com aversão a pessoas em situação de rua, um adulto prestes a enterrar o pai que não se recorda da infância e um trabalhador que encontra conforto em uma mulher misteriosa.
“É uma experiência diferente para mim, que sempre vivi no mundo do Direito, embora com experiências no movimento associativo e no Conselho Nacional de Justiça. Sempre tive um carinho especial pela literatura. Então, na verdade, estou dando vazão a não só estudar literatura, mas também a produzir um pouco de obras pretensamente literárias”, diz o autor, em entrevista a um site carioca.
Um gari que trabalha todos os dias mesmo sem reconhecimento da população, um homem que somente depois de décadas percebe como perdeu momentos importantes em busca de dinheiro e um trabalhador imerso em uma rotina exaustiva também são alguns dos personagens com que Gustavo Tadeu Alkmim burila seu estilo literário no livro de estreia.
“Diz-se, da vida, que vivemos a traçar planos. Sobre o amanhã, o fim do mês, o ano que vem. Sobre o hoje à noite. A previsibilidade do futuro. Até que, sem licença, o imponderável acontece. E os planos viram incertezas, o previsível torna-se frustração. Assim foi com Roberto. Sol a pino, caminhada matinal, passadas espartanas, pensamentos nos compromissos – os planos – do dia. Coração acelerado, pontada no peito, queda brusca. Estendido na pista. Socorro imediato”, escreve Tadeu Alkmim em das histórias, na página 46.
“Procuro fazer uma narrativa sobre questões comuns que vivenciamos, principalmente a partir do meu próprio lugar de fala – um homem de classe média morador da zona sul –, mas tentando, também, dar voz a personagens de outras naturezas. Os principais temas são situações corriqueiras do ponto de vista das coisas que acontecem na rotina até as questões psicológicas e emocionais às quais todos estamos sujeitos”, afirma.
Dividido em duas partes, “O Sentido Trágico da Existência” e “E La Nave Va”, “O Futuro Te Espera” propõe uma linguagem simples e coloquial para promover nos leitores um maior senso de familiaridade com os textos ficcionais.
O autor comenta: “Meu livro tenta manter a ideia de uma literatura que pretende convidar o leitor a pensar sobre o mundo que o cerca, sem incorrer em textos de narrativas longas e cansativas, sem cair em uma linguagem panfletária”.
CRÍTICA
Sobre a obra, escreve o crítico Fernando Andrade: “A primeira pessoa do singular nunca reflete seu entorno. Tão imersa em seus pensamentos que o espaço com lugares e gentes acaba fora de foco. A primeira pessoa não faz poesia, pois não balança coletivos. ‘O Futuro Te Espera’ quando nós nos colocamos num vasto universo de corpos, interagindo nas ruas, circulando ideias para ações que chegam às vias de fato.
Como os personagens do livro do escritor Gustavo Tadeu Alkmim, seu primeiro livro de contos, ‘O Futuro Te Espera’, que apesar de algumas solidões, como no primeiro conto, onde um homem sente pela janela todo o peso de sua memória, e a infância pode espelhar-se em qualquer menino visto pela corte do vidro de um trem.
Já outro certo conto procura as vias transversais do cotidiano massificado pelo trabalho, pela ocupação, num feriado, onde o personagem observa o mundo girar e o porteiro se ocupar com seu inofensivo uniforme. Um respiro de liberdade des-normatizante.
Gustavo revela a seus leitores que o drama é fundamental para uma ideia de coletividade entre laços para pertences onde cada objeto, cada lugar parece ligado em um veio da memória. Daí ser tão importante certa citação ao diretor Fellini, onde a passagem do tempo, as lembranças circulam, não tão perenes, pela cabeça e pelo pensamento dos cidadãos de certa urbe”.
O AUTOR
Gustavo Tadeu Alkmim é desembargador do Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região, no Rio de Janeiro, e membro da Associação dos Juízes pela Democracia (AJD). Mestre e doutor em Literatura e Estudos Culturais pelo Departamento de Letras da PUC-Rio, também é aluno da Oficina Literária Ivan Proença, a mais antiga do País.


O ator Filipe Bragança é a Capa exclusiva do Correio B+ desta semana - Foto: Cássia Tabatini - Diagramação:Denis Felipe -
O ator Filipe Bragança é a Capa exclusiva do Correio B+ desta semana - Foto: Cássia Tabatini - Diagramação:Denis Felipe -


