Entre paredes antigas, móveis garimpados, afrescos desgastados pelo tempo e memórias que atravessam décadas, a Morada dos Baís voltou a respirar a presença de sua moradora mais enigmática.
É nesse espaço histórico de Campo Grande que ganha forma “Lydia”, longa-metragem de ficção produzido pela Pólofilme e inspirado na obra literária “História de T. Lídia Baís” (1960), escrita pela própria artista sob o pseudônimo de Maria Tereza Trindade.
Dirigido por Ricardo Câmara, com codireção de Mariana Villas-Bôas, o filme mergulha nas memórias, contradições, espiritualidade e processos criativos de Lídia Baís, uma mulher que rompeu padrões sociais no início do século 20 e construiu uma obra artística singular em um território ainda distante dos grandes centros culturais brasileiros.
Com filmagens iniciando nesta semana e com encerramento previsto para junho, o longa conta com recursos da Lei Paulo Gustavo, por meio da Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul, e apoio institucional da Fundação Municipal de Cultura de Campo Grande, que cedeu a Morada dos Baís e o Museu José Antônio Pereira como locações.
No elenco, nomes consagrados da cena sul-mato-grossense e nacional dividem espaço para reconstruir a trajetória da artista: Beatrice Sayd, Alzira E, Ney Matogrosso, Ana Brun – vencedora do Urso de Prata no Festival de Berlim –, além de Breno Moroni, Gisele Sater, Antônio Salvador, Bianca Machado e participações especiais de Duda Mamberti, Jéssica Barbosa Cauim e Zahy Tentehar.
Além da direção e do elenco, a equipe criativa reúne nomes como Joel Yamaji na direção-assistente, Alziro Barbosa na fotografia, Fabianne Rezek na direção de produção e Mariana Sued no figurino.
O roteiro é assinado por Melina Delboni, enquanto a produção leva a assinatura de Joel Pizzini e Juliana Domingos.
UMA MULHER SURREAL
Nascida em Campo Grande em 1900, Lídia Baís cresceu em uma família tradicional sul-mato-grossense, mas escolheu um caminho distante daquele reservado às mulheres de sua época. Enquanto o destino esperado era o casamento e a vida doméstica, ela decidiu seguir pela arte.
Entre viagens ao Rio de Janeiro, Paris e Alemanha, a artista circulou entre intelectuais e modernistas importantes do século passado. Conviveu com o pintor surrealista Ismael Nery, com o poeta modernista Murilo Mendes e com os irmãos pintores Henrique Bernardelli e Rodolfo Bernardelli.
Apesar da proximidade com nomes hoje consagrados, Lídia permaneceu durante décadas à margem da história oficial da arte brasileira. Realizou apenas uma exposição em vida, em 1929, no Rio de Janeiro, e acabou transformando o espaço doméstico em território criativo.
Na casa da família, pintou murais, escreveu textos, compôs músicas e desenvolveu uma linguagem artística própria, atravessada pela espiritualidade, o surrealismo e o expressionismo.
Para Ricardo Câmara, a trajetória da artista representa uma parte essencial da história cultural sul-mato-grossense.
“A Lídia Baís é uma história das artes de Mato Grosso do Sul. Ela pode ser considerada a mãe de todos os artistas sul-mato-grossenses. Uma mulher que nasceu em 1900, acompanhou todo o século 20 e esteve ao lado de alguns dos principais artistas brasileiros da década de 1920”, afirma o diretor.
Segundo ele, a ideia do filme nasceu durante a pandemia, quando teve contato mais profundo com a biografia da pintora. “Quando li o livro sobre a Lídia, pensei imediatamente que precisávamos fazer um filme sobre ela. Era uma história muito potente, muito cinematográfica”, relembra.
MEMÓRIA E INVENÇÃO
Embora inspirado em fatos reais, “Lydia” não pretende seguir o caminho tradicional das cinebiografias lineares. A proposta narrativa abraça a subjetividade e a fragmentação das memórias.
A codiretora Mariana Villas-Bôas explica que o filme nasce justamente da autobiografia escrita pela própria artista, uma obra que mistura realidade, fabulação e autorrepresentação.
“A autobiografia dela já é uma ficção sobre ela mesma. A gente vê a Lídia como uma multiartista, quase uma performance. Para nós, esse livro já é uma obra de arte”, afirma.
No longa, o eixo principal da narrativa acontece em 1929, ano da exposição da artista no Rio de Janeiro. A partir daí, diferentes tempos se sobrepõem. A infância, a juventude e a velhice de Lídia aparecem entrelaçadas em uma construção não linear.
“O filme é sobre memória. Não existe uma preocupação de contar a história cronologicamente. O tempo funciona como funciona a memória: você olha um objeto e imediatamente é levado para outra época da sua vida”, explica Ricardo.
A artista será interpretada em diferentes fases por Maria Alice Bispo (infância), Beatrice Sayd (fase adulta) e Alzira E (velhice).
A LÍDIA EM NÓS
Responsável por interpretar Lídia na fase adulta, Beatrice Sayd descreve a personagem como um mergulho emocional intenso. A atriz afirma que encontrou uma identificação imediata com a pintora. “Ela me representa. Acho que representa todas nós, mulheres. Esse lado da arte, da resistência, da coragem de enfrentar tudo para seguir os próprios sonhos”, diz.
Para a atriz, interpretar Lídia exige muito mais do que reproduzir trejeitos ou características físicas. O processo passa por compreender os conflitos internos da artista e transformá-los em humanidade.
“Cinema é simplicidade, mas chegar na simplicidade é muito difícil. Estou em processo ainda. Cada descoberta muda a forma como eu vejo a personagem”, conta.
Beatrice relata que um dos maiores desafios tem sido compreender a complexidade psicológica de Lídia. “Ela era uma mulher muito intensa, muito espiritualizada, inquieta. Pintava, escrevia, compunha, estava sempre criando alguma coisa. Acho que existe ali uma complexidade emocional muito grande”, afirma.
A atriz também estabelece paralelos entre sua trajetória e a da pintora. Assim como Lídia, ela deixou Campo Grande para seguir carreira artística ainda jovem. “Eu saí de casa aos 18 anos para ser atriz. Quando penso no que a Lídia fez nos anos 1920, numa Campo Grande que nem luz elétrica tinha direito, é impressionante”, pontua.
ROMPIMENTO COM A TRADIÇÃO
Outro personagem importante da narrativa é o pintor Henrique Bernardelli, interpretado por Breno Moroni. Mestre da protagonista, Bernardelli representa o embate entre a pintura acadêmica tradicional e as vanguardas modernas que começavam a surgir na Europa. “Ele acreditava que a pintura existia para retratar a realidade exatamente como ela é. Já a Lídia caminhava para o surrealismo, para uma arte mais subjetiva”, explica o ator.
Foto: Gerson Oliveira / Correio do EstadoMoroni afirma que o filme trabalha essa relação de maneira afetuosa, mas também conflituosa. “Havia respeito mútuo. Ele não a via como aluna, mas como discípula. Só que, aos poucos, ela começa a se rebelar artisticamente”, pontua.
Durante a entrevista, o ator também refletiu sobre o apagamento histórico sofrido por Lídia Baís. “Ela foi esquecida por ser mulher, por ser do interior, por ser uma artista que não se encaixava nos padrões. Mas ela entrou para a história da arte de verdade, e isso é uma fama que atravessa o tempo”, avalia o artista.
Moroni traça ainda um paralelo entre os conflitos enfrentados pela artista e os debates atuais sobre tecnologia, linguagem e transformação artística. “O novo sempre assusta. A Lídia rompeu padrões até dentro da arte, que já era rebelde por natureza”, destaca.
FAMÍLIA ACIMA DE TUDO
No filme, o patriarca Bernardo Baís será interpretado por Duda Mamberti. Figura importante na história de Campo Grande, o personagem aparece como um homem empreendedor, moderno para sua época, mas ainda preso às expectativas tradicionais sobre o papel feminino.
“Ele queria que a filha se casasse, tivesse filhos, seguisse o comportamento esperado para uma mulher daquele tempo”, explica o ator.
Ao mesmo tempo, Bernardo é retratado como um homem que admirava a arte e incentivava a educação da filha, ainda que em conflito com suas escolhas. “Ele brigava com ela, mas continuava financiando os estudos. Era um homem duro para os negócios, mas muito amoroso com os filhos”, aponta o ator.
Para Mamberti, o filme também tem a capacidade de ampliar o reconhecimento cultural do Estado. “Vai abrir uma janela enorme para a obra da Lídia e mostrar que Mato Grosso do Sul não é só agro, Aqui também existe arte, cultura e história”, destaca.
HISTÓRIA VIVA
Grande parte da força estética de “Lydia” nasce das próprias locações escolhidas para as filmagens. A Morada dos Baís, onde a artista viveu, se transforma em personagem central da narrativa.
Segundo Mariana Villas-Bôas, o espaço foi apropriado de maneira simbólica e afetiva pela equipe. “As paredes descascadas, os afrescos antigos, os objetos, tudo isso traz uma camada de tempo muito importante para o filme”, afirma.
A codiretora destaca que muitos elementos aparentemente surrealistas presentes no cenário partem de relatos reais sobre o cotidiano da artista. “As gaiolas, os animais empalhados, os objetos espalhados, tudo isso existia. Parece ficção, mas vinha da forma como ela enxergava o mundo”.
Já o Museu José Antônio Pereira será utilizado para representar a infância de Lídia, trazendo uma dimensão mais rural e ligada à natureza.
Nossa colunista Gabriela Rosa com os filhos Mássimo e Mila - Foto: Divulgação

