A literatura como ferramenta para ampliar a humanidade, transformar dores em pertencimento e fazer da periferia protagonista da própria história. Foi com esse discurso que o poeta, escritor e fundador da Cooperifa, Sérgio Vaz, marcou presença na 10ª Feira Literária de Bonito (FLIB), em um encontro que reuniu estudantes, professores e leitores de diferentes cidades de Mato Grosso do Sul.
Durante a conversa, mediada no Palco Literário da feira, Vaz alternou reflexões, poemas e respostas às perguntas do público. Em vez de uma palestra tradicional, o encontro se transformou em um diálogo sobre literatura, desigualdade, memória, política, arte e esperança.
Logo no início, o escritor explicou que sua literatura nasce da necessidade de traduzir a realidade da periferia para que ela possa ser compreendida por todos.
"A literatura mastiga a dor e entrega de um jeito que qualquer pessoa possa sentir. Eu quero que alguém leia a minha dor como se fosse a dor dele", afirmou.
Segundo o poeta, seu compromisso nunca foi escrever para os círculos intelectuais, mas para quem enfrenta diariamente as dificuldades das periferias.
"Eu sou escritor de território, terrivelmente engajado. Sou um artista cidadão. Minha preocupação é com a minha comunidade. Escrevo pensando nas pessoas da rua de cima, da rua de baixo, em quem encontro no ônibus, no metrô, na fila procurando emprego", pontuou.
Para ele, a literatura tem a capacidade de despertar sentimentos mesmo quando o leitor ainda não consegue explicar exatamente o que sentiu.
"Às vezes a pessoa diz que gostou de um poema, mas nem sabe por quê. Ela ainda não tem os signos para decifrar aquilo, mas alguma coisa já despertou dentro dela. A literatura lembra que você é um ser humano", defendeu.
Poesia contra as desigualdades
Um dos momentos mais marcantes da participação foi a declamação do poema "Os Miseráveis", inspirado na obra de Victor Hugo. No texto, Sérgio Vaz contrapõe as trajetórias de dois homens: um jovem negro e pobre que termina criminalizado e outro privilegiado que enriquece por meio da corrupção.
Nos versos, o poeta denuncia a desigualdade do sistema de justiça brasileiro e questiona a diferença de tratamento entre os crimes cometidos nas periferias e os praticados por pessoas poderosas.
A plateia respondeu com longos aplausos e, a partir dali, as perguntas praticamente deram lugar aos pedidos para que o escritor continuasse declamando seus poemas.
Escrever sem medo
Grande parte da conversa foi dedicada aos jovens presentes na FLIB. Questionado sobre como começar a escrever poesia, Sérgio Vaz deu um conselho direto.
"O mais difícil não é escrever um poema. O mais difícil é achar que alguém vai gostar dele. Então escreva. Quanto mais você escreve, mais encontra a sua identidade", orientou o poeta.
Ele também lembrou que passou anos tentando escrever como outros autores até descobrir que precisava encontrar a própria voz.
"Eu achava que poeta era quem escrevia difícil. Fazia textos que nem eu entendia. A virada aconteceu quando conheci a obra da Carolina Maria de Jesus e comecei a frequentar os palcos do hip-hop. Descobri que podia escrever do jeito que eu falava", disse.
Ao responder uma estudante que perguntou como encontrou seu estilo, reforçou que a medida do artista nunca deve ser o outro.
"Abaixo do radar também se voa. Você precisa fazer aquilo em que acredita, não aquilo que os outros esperam", pontuou.
A literatura pode mudar vidas
Ao recordar o trabalho desenvolvido há quase duas décadas na Fundação Casa e em penitenciárias paulistas, Sérgio Vaz contou que foi ali que compreendeu que todos gostam de poesia, mesmo aqueles que acreditam não gostar.
Ele lembrou que, ao recitar versos dos Racionais MC's para adolescentes privados de liberdade, ouviu um deles interrompê-lo para questionar: "Racionais é poesia?".
"Foi ali que eu descobri que todo mundo gosta de poesia. Só não sabe que gosta", contou.
Democratização da literatura
Sérgio Vaz destacou ainda a importância de eventos como a FLIB por levarem escritores para além dos grandes centros.
"Essa é uma das feiras mais charmosas que conheço porque acontece em praça pública. Democratizar a literatura é fazer com que todo mundo tenha acesso à palavra", disse.
Para ele, quem ocupa o lugar mais importante nesse processo não é quem escreve.
"O sagrado não é quem escreve. O sagrado é quem lê", pontuou.
]O poeta também reforçou que ver artistas negros e periféricos alcançando reconhecimento nacional inspira novas gerações.
"Quando jovens veem pessoas como Mano Brown, Ludmilla ou Anitta chegando ao topo, eles entendem que também podem ocupar esses espaços", afirmou.

