Estimativas recentes do Instituto Nacional de Câncer (Inca) apontam que, nos próximos dois anos, o Brasil deve atingir a casa de quase 78 mil novos casos de câncer de próstata, doença que, depois dos tumores de pele não melanoma, aparece com maior incidência entre os homens brasileiros. Por isso, especialistas aproveitam o chamado Novembro Azul para alertar sobre os sintomas e a importância da identificação o quanto antes para aumentar as possibilidades de tratamento.
Especialistas afirmam que a doença pode evoluir silenciosamente, sem provocar alterações que sejam muito perceptíveis ainda nas fases iniciais, esse fato somado aos desafios do autocuidado masculino criam uma barreira ainda maior para o tratamento do câncer. Dados sobre mortalidade indicam que há cerca de dois anos um total de 17.826 brasileiros morreram em decorrência dessa neoplasia maligna.
Em outras palavras, isso é equivalente a aproximadamente 49 mortes diárias causadas por câncer de próstata no Brasil em 2024. Importante esclarecer que, ainda que o Ministério da Saúde já tenha disponibilizado registros preliminares de 2025, o total específico de óbitos pela doença ainda precisa ser confirmado nessa base.
Nesse sentido, o Novembro Azul aparece como forma de conscientização para os homens, trazendo informação e combatendo o preconceito, tendo em vista que entre os principais equívocos ligados ao câncer de próstata está a crença de que a doença necessariamente vai provocar, por exemplo, algum tipo de alteração urinária.
FIQUE ATENTO
Como bem esclarece o médico urologista Dr. Ricardo Brandina, cirurgião robótico com mais de duas décadas de experiência em urologia e mais de 10 anos de atuação em cirurgia robótica, existem recortes da população que são considerados mais propensos a ter este tipo de câncer, o que inclui homens negros e pessoas com histórico familiar da doença.
Por esse motivo, a discussão sobre o assunto precisa começar próximo à casa dos 45 anos, cerca de cinco anos antes do recomendado pela Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) para que homens conversem com um especialista sobre a avaliação prostática.
Essas avaliações devem começar independente do aparecimento de sintomas, já que muitos tumores não apresentam manifestações nas fases iniciais. Casos de relatos de dificuldade para urinar, sangue na urina ou aumento da frequência urinária podem estar associados a condições benignas.
Antes de buscar um médico é preciso considerar pontos como: idade, histórico familiar, características individuais e condições gerais de saúde.
Uma das ferramentas utilizadas na avaliação da próstata é o exame de sangue que mede o antígeno prostático específico (PSA), porém seu resultado não determina sozinho a presença ou a ausência de um câncer, já que diferentes motivos podem causar alterações, o que inclui o crescimento benigno da glândula e algum tipo de processo inflamatório. Diante de uma suspeita, o urologista pode indicar exames complementares e, em determinadas situações, até mesmo uma biópsia com intuito de confirmar o diagnóstico.
Ainda assim é importante principalmente manter a calma, segundo o médico, já que a identificação de um tumor não necessariamente significa a necessidade de cirurgia, tendo em vista que, atualmente, existem diferentes estratégias terapêuticas que variam dependendo da agressividade da doença, sua extensão, a idade e as condições clínicas de cada paciente.
Entre essas aparecem a vigilância ativa, que é indicada para determinados tumores de baixo risco, a radioterapia e o tratamento cirúrgico. Já para aqueles casos em que é recomendada a operação, justamente a cirurgia robótica se destaca por auxiliar na precisão dos movimentos e na própria visualização das estruturas anatômicas, embora seus resultados dependam de fatores clínicos e da experiência da equipe.
Mesmo que o Novembro Azul concentre a atenção pública durante um mês, o cuidado com a saúde masculina exige continuidade. Manter o peso adequado, praticar exercícios físicos, evitar o tabagismo e adotar uma alimentação equilibrada são medidas importantes para a saúde geral, ainda que não eliminem o risco de câncer de próstata.
O acompanhamento ganha relevância especial entre homens com histórico familiar da doença, principalmente quando parentes próximos foram diagnosticados antes dos 60 anos.
AUTOCUIDADO DELES
Diante da campanha que traz como símbolo a fita azul, é importante reforçar que exames mais precisos, cirurgias menos invasivas e avanços no tratamento do câncer transformaram a medicina atual. O cenário hoje tem uma quantidade de recursos para diagnóstico e cuidado como nunca se viu antes, porém, um obstáculo antigo mantém-se quando o assunto é a avaliação médica e a dificuldade de fazer com que os homens cuidem da própria saúde.
Luís César Zaccaro é urologista, uro-oncologista e também cirurgião robótico, e destaca números da Sociedade Brasileira de Urologia que mostram que 46% dos homens acima dos 40 anos só procuram atendimento médico quando apresentam sintomas, porcentual que chega a 58% em caso de pacientes exclusivos do Sistema Único de Saúde (SUS). Do total, 32% se consideram muito preocupados com a própria saúde, ainda que metade admita sentir medo ou ansiedade sobre o assunto.
“Como urologista e cirurgião dedicado ao tratamento do câncer, convivo com essa realidade. Recebo pacientes que ignoraram alterações urinárias ou outros sintomas durante meses. Outros se surpreendem com diagnósticos importantes porque se sentiam saudáveis”, comenta.
O Novembro Azul traz justamente este ponto como uma de suas principais mensagens: falta de sintomas não significa ausência de doença.
Doenças avançadas exigem abordagens mais complexas, por esse motivo o diagnóstico precoce pode permitir tratamentos com intenção curativa, o que por sua vez não significa, porém, que todos precisem dos mesmos exames, como bem frisa o médico que acompanhou avanços importantes no tratamento do câncer de próstata nas últimas décadas.
“A cirurgia robótica, os exames de imagem e novas terapias ampliaram as possibilidades de cuidado. Mas nenhuma tecnologia elimina as dificuldades impostas por um diagnóstico tardio. Também precisamos reconhecer as raízes culturais da resistência masculina. Muitos homens cresceram associando a procura por ajuda à fraqueza e aprendendo a minimizar sintomas. Esse comportamento pode trazer consequências graves., complementa Luís César Zaccaro.
É importante destacar que não existe recomendação universal para a realização automática de exames em todos os homens sem sintomas. O Ministério da Saúde e até mesmo o Inca não recomendam que seja feito um rastreamento populacional indiscriminado, em razão dos riscos de diagnósticos e tratamentos desnecessários.
Por esse motivo, essa decisão precisa ser compartilhada na relação entre médico e paciente, considerando benefícios e possíveis consequências. O Novembro Azul, entretanto, não se limita ao câncer de próstata. Cuidar da saúde masculina envolve prevenir doenças cardiovasculares, controlar hipertensão e diabetes, combater obesidade e sedentarismo, abandonar o tabagismo e valorizar a saúde sexual e mental. Não basta viver mais: é preciso viver melhor.
A campanha oferece uma oportunidade para romper preconceitos e estimular o cuidado. Mas seu sucesso não deve ser medido apenas pelos exames realizados em novembro, e sim pela mudança de comportamento nos outros 11 meses.
“Depois de tantos avanços científicos, nosso maior desafio talvez seja o mais humano: mostrar que cuidar da própria saúde não é sinal de fragilidade, mas de maturidade e responsabilidade. O Novembro Azul dura um mês. O compromisso com a saúde deve durar a vida inteira”, conclui.
Ela compartilha de seu design autoral, e o talento de transformar o universo da arquitetura e designer - Divulgação
Talento de transformar o universo da arquitetura e designer - Divulgação
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O ator Hugo Bonèmer é a Capa exclusiva do Correio B+ desta semana - Foto: Sergio Santoian - Diagramação: Denis Felipe - Por: Flávia Viana
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