Depois de um fim de semana repleto de churrasco, doces, bebidas alcoólicas ou mesmo após uma viagem em que a alimentação saiu da rotina, é comum ouvir reclamações sobre sensação de inchaço, cansaço, dificuldade de concentração e até a impressão de que o corpo “demora para voltar ao normal”.
Embora muita gente atribua esses sintomas apenas ao excesso de comida, eles podem estar relacionados a um fenômeno cada vez mais discutido pela ciência: a inflamação silenciosa.
Também conhecida como inflamação crônica de baixo grau, essa condição acontece quando o organismo mantém o sistema imunológico constantemente ativado, mesmo sem haver uma infecção ou lesão evidente.
O processo costuma passar despercebido por muito tempo, mas pode comprometer o funcionamento do corpo e favorecer o desenvolvimento de doenças metabólicas e cardiovasculares.
A nutricionista funcional e integrativa Luanna Caramalac explica que esse tipo de inflamação é diferente da resposta natural do organismo a uma gripe ou um machucado.
“A inflamação silenciosa ou inflamação crônica de baixo grau é um estado em que o organismo permanece constantemente ativando o sistema imunológico, mesmo sem uma infecção aparente. Diferentemente da inflamação aguda, que é uma resposta natural e temporária do corpo, essa inflamação é persistente e pode favorecer o desenvolvimento de doenças como obesidade, diabetes, doenças cardiovasculares e até alguns transtornos autoimunes”, afirma.
Segundo ela, justamente por não provocar sintomas intensos no início, muitas pessoas convivem durante anos com esse processo sem perceber que algo está errado.
DEMORA NA RECUPERAÇÃO
A sensação de peso que permanece por dias após períodos de exagero não é causada apenas pelo aumento temporário da ingestão de calorias. De acordo com a especialista, normalmente esses momentos concentram diversos fatores capazes de desencadear respostas inflamatórias.
“Esses períodos reúnem excesso de açúcar, álcool, alimentos ultraprocessados, poucas fibras, noites maldormidas, desidratação e estresse. Tudo isso altera a microbiota intestinal, favorece retenção de líquidos, aumenta a resistência à insulina e dificulta a recuperação do organismo”, explica.
Como consequência, surgem sintomas como barriga inchada, indisposição, sensação de peso, alterações no humor e menor disposição para realizar as atividades do dia a dia.
Embora muitas pessoas recorram a dietas extremamente restritivas ou jejuns prolongados para “compensar” os excessos, essa estratégia nem sempre ajuda o organismo.
“O corpo já possui órgãos especializados em desintoxicação, como fígado, rins, intestino e pele. Depois de um período de excessos, o melhor caminho é voltar à rotina saudável, priorizar alimentos naturais, boa hidratação, sono adequado e atividade física. Medidas muito restritivas podem aumentar o estresse metabólico e dificultar ainda mais a recuperação”, orienta.
SINTOMAS IGNORADOS
Um dos principais desafios da inflamação silenciosa é justamente identificar seus sinais. Como eles costumam aparecer de forma gradual, acabam sendo encarados como algo normal da rotina.
Entre os sintomas mais frequentes estão: cansaço persistente; dificuldade para emagrecer; barriga inchada; alterações intestinais; dores nas articulações; dores de cabeça frequentes; dificuldade de concentração; sono não reparador; e maior frequência de infecções.
Segundo Luanna Caramalac, muitas pessoas acreditam estar saudáveis simplesmente porque não receberam um diagnóstico de doença.
“Muitas convivem diariamente com esses sintomas sem perceber que eles podem indicar um desequilíbrio metabólico”, diz.
Ela relata que é bastante comum pacientes procurarem atendimento apenas por estarem cansados ou por não conseguirem perder peso e descobrirem que esses sintomas fazem parte de um quadro maior.
“Durante a avaliação clínica, associamos histórico, hábitos de vida, sintomas e exames para identificar possíveis causas como alterações intestinais, resistência à insulina, excesso de gordura visceral, deficiências nutricionais ou outros desequilíbrios que favorecem a inflamação crônica. O objetivo é entender a origem do problema, e não apenas aliviar os sintomas”, pontua.
INTESTINO É PROTAGONISTA
Nos últimos anos, a ciência tem reforçado a importância da saúde intestinal para o funcionamento de praticamente todo o organismo. Não por acaso, a nutricionista costuma afirmar que o intestino é a base da saúde.
Ela explica que cerca de 70% das células do sistema imunológico estão concentradas nessa região do corpo, responsável por atuar como uma barreira entre o ambiente externo e o organismo.
“Quando a microbiota está desequilibrada e a permeabilidade intestinal aumenta, substâncias que não deveriam atravessar essa barreira acabam estimulando respostas inflamatórias”, explica.
Por isso, cuidar da microbiota intestinal é considerado uma das principais estratégias para reduzir processos inflamatórios.
Entre os hábitos que favorecem esse equilíbrio estão o consumo regular de frutas, verduras, legumes, alimentos ricos em fibras e uma alimentação predominantemente natural.
ALÉM DA ALIMENTAÇÃO
Apesar de a alimentação desempenhar papel central na prevenção da inflamação silenciosa, ela não é o único fator envolvido.
Segundo Luanna Caramalac, dormir pouco, viver sob estresse constante, ser sedentário, fumar, consumir álcool em excesso e manter uma rotina desorganizada também contribuem para manter o organismo em estado inflamatório.
Por isso, ela destaca que saúde não depende apenas da alimentação.
“A saúde não depende apenas do que colocamos no prato, mas também da qualidade do sono, do manejo do estresse, da atividade física e do equilíbrio da rotina”, afirma a nutricionista.
O QUE FUNCIONA
Quando se fala em alimentação anti-inflamatória, muitas pessoas procuram um alimento específico ou um suplemento milagroso. No entanto, a especialista ressalta que não existe uma solução isolada.
Segundo ela, o conceito envolve um padrão alimentar equilibrado e sustentável.
Entre os alimentos que devem estar presentes com frequência estão frutas, verduras, legumes, proteínas de qualidade, azeite de oliva, castanhas, peixes ricos em ômega 3 e alimentos ricos em fibras.
Ao mesmo tempo, é importante reduzir o consumo de ultraprocessados, açúcar, bebidas alcoólicas em excesso e gorduras de baixa qualidade.
“A consistência vale muito mais do que soluções milagrosas”, enfatiza.
O tempo necessário para o organismo voltar ao equilíbrio também varia de pessoa para pessoa.
“Pessoas metabolicamente saudáveis costumam se recuperar em poucos dias ao retomarem hábitos equilibrados. Já quem apresenta obesidade, resistência à insulina, alterações intestinais ou doenças crônicas pode levar mais tempo, porque o organismo já convive com um estado inflamatório prévio”, destaca.
CUIDAR DA CAUSA
Na avaliação da nutricionista, a principal mudança de mentalidade necessária é abandonar a busca por soluções imediatas e compreender que a saúde é construída diariamente.
Ela defende que sintomas como cansaço constante, dificuldade para emagrecer ou desconfortos intestinais não devem ser encarados como algo normal, mas como sinais de que o organismo precisa de atenção.
“A principal mudança é entender que saúde não se constrói com soluções rápidas, mas com hábitos consistentes. Não basta procurar um remédio para aliviar o sintoma sem investigar por que ele apareceu”, enfatiza.
Para a especialista, quando alimentação, intestino, sono, atividade física e controle do estresse passam a ser tratados em conjunto, é possível reduzir a inflamação silenciosa e prevenir o surgimento de doenças.
“O corpo sempre dá sinais antes de adoecer de forma mais grave. Quando tratamos a causa, cuidando da alimentação, do intestino, do sono, do estresse e do estilo de vida como um todo, reduzimos a inflamação e promovemos uma saúde mais duradoura e preventiva”, conclui.
Descrito por Odilon como um terceiro personagem, o cenário foi criado para simular consultório de Freud - Foto: João Caldas


