Correio B

crônica

O Tempero da Vigilância

Continue lendo...

Houve um tempo em que o macarrão, recém cozido, ia direto para debaixo da torneira. Uma heresia, diriam os italianos, mas um ritual comum nas cozinhas de Minas. Por lá também os frangos eram quase submetidos a um dia de spa: ensaboados, escaldados e esfregados antes de conhecerem a panela. Mas jabuticaba se comia no pé, com poeira e tudo; a goiaba e o jambo eram limpos na própria manga da camisa, se tanto.

Não sei se fomos nós que ficamos mais sábios ou se o medo das bactérias microscópicas nos tornou mais desconfiados. Os mais velhos juram que naquela época criança comia de tudo e não adoecia. Doce, banha, fritura — o passaporte para o paraíso era livre. A verdade é que adoeciam, sim; só não tínhamos o nome do culpado no prontuário. O chocolate de hoje, com seus parcos 20% de cacau, é mais uma promessa de açúcar do que a iguaria de outrora.

Naquela cozinha de antigamente, o tempo era um ingrediente. O feijão dormia de molho, o molho apurava no canto do fogão e o cheiro da comida invadia a casa muito antes do prato chegar à mesa. Hoje, o fogo é rápido e o ato de comer virou uma tarefa espremida entre dois compromissos. Perdemos a intimidade com a casca e com o osso; trocamos o manuseio do alimento pelo das embalagens de ultraprocessados, que dominam as prateleiras por serem mais acessíveis, tornando-se um desafio real para a saúde de todos nós.

Essa mudança de cenário acabou me tornando mais cautelosa com o que ponho no prato. Criei certas resistências que hoje fazem parte do meu jeito de estar no mundo: em restaurantes, por exemplo, evito as folhas. É um receio silencioso do que não passou pelas minhas mãos. Em casa, busco o que é mais próximo do natural e dou preferência aos orgânicos sempre que posso. Acredito que a nossa saúde é construída ali, na calma da escolha de cada ingrediente, longe da pressa das linhas de produção.

Sinto falta daquela liberdade de criança, mas, sendo sincera, não sei se hoje eu teria coragem de comer a jabuticaba direto do pé (não por causa da poeira, mas do agrotóxico). Por mais saudoso que esse gesto pareça, o mundo ficou complexo demais para a nossa antiga inocência. No fim, trocamos o macarrão lavado sob a torneira — aquela nossa antiga ignorância culinária — pela consciência necessária de que o cuidado com a mesa é, no fundo, um modo de cuidar da própria vida.

HISTÓRIA DO BRASIL

Tiradentes: por que o dia 21 de abril é feriado nacional?

Data homenageia Joaquim José da Silva Xavier, militar e dentista amador, considerado um ícone da luta pela liberdade no Brasil

21/04/2026 11h30

Tiradentes, Joaquim José da Silva Xavier

Tiradentes, Joaquim José da Silva Xavier DIVULGAÇÃO

Continue Lendo...

Feriado de Tiradentes é celebrado anualmente em 21 de abril em todo o Brasil.

A data homenageia Joaquim José da Silva Xavier, militar e dentista amador, considerado um ícone da luta pela liberdade no Brasil. Ele foi preso, investigado e condenado à morte em 21 de abril de 1792.

Ele liderou a Inconfidência Mineira, movimento que pretendia acabar com o domínio colonial Português e instaurar uma república independente em Minas Gerais.

A Inconfidência Mineira ocorreu no final do século XVIII, em Minas Gerais, durante o período colonial brasileiro.

Militares, religiosos e intelectuais questionaram o domínio de Portugal sobre o Brasil, queriam a independência da região e implantar uma república. O movimento foi influenciado pelo Iluminismo e Independência dos Estados Unidos.

As queixas com o governo português envolviam a elevada carga de impostos (quinto sobre o ouro e ameaça da derrama).

A pressão econômica fez surgir ideais revolucionárias entre os colonos: eles pretendiam libertar Minas Gerais do domínio português e implantar uma república na região.

Mas, a pretensão foi descoberta antes de se concretizar, após Joaquim Silvério dos Reis denunciar o movimento, em troca do perdão pelas suas próprias dívidas.

Com isso, Tiradentes, líder do movimento, foi descoberto, investigado, preso e condenado à morte, por querer salvar parte do Brasil do domínio português. Ele foi enforcado em 21 de abril de 1792, no Largo da Lampadosa (atual Praça Tiradentes), no Rio de Janeiro.

O feriado representa a luta histórica pela liberdade e independência no Brasil, além de um momento de reflexão sobre as lutas por autonomia e construção da identidade nacional.

O Dia de Tiradentes não é apenas um dia de descanso, mas uma data que reforça valores importantes para a sociedade brasileira e convida à reflexão sobre cidadania e liberdade.

MEMÓRIA

Exposição inédita celebra os 126 anos de Lídia Baís

Catálogo original da única exposição realizada por Lídia Baís em vida será apresentado ao público; Casa Amarela terá programação ampliada na Semana dos Museus, que segue até maio com oficinas, sarau e exibição de documentários

21/04/2026 10h30

Tatiana De Conto e Guido Drummond, gestores do Museu de Arte Urbana Casa Amarela

Tatiana De Conto e Guido Drummond, gestores do Museu de Arte Urbana Casa Amarela Divulgação

Continue Lendo...

A memória artística e cultural  de Lídia Baís ganha novo fôlego em Campo Grande com a abertura do projeto Pontes Imaginárias: Lídia Baís e a Arte de Unir Mundos, realizado pela Casa Amarela. A iniciativa marca os 126 anos de nascimento da artista e integra a programação da Semana Nacional dos Museus, que neste ano propõe o tema “Museus unindo um mundo dividido”.

A abertura acontece amanhã, às 18h, com um dos destaques mais aguardados da programação: a apresentação pública do catálogo original da única exposição realizada por Lídia Baís em vida. Raro e carregado de simbolismo, o documento nunca havia sido exibido dessa forma ao público e revela não apenas a produção artística da pintora, mas também aspectos da cena cultural e das relações sociais de sua época.

A exposição segue aberta até o dia 23 de maio, consolidando uma proposta ousada dos organizadores: transformar a tradicional Semana dos Museus em um mês inteiro de atividades. A programação inclui oficinas, sarau, exibição de documentários e experiências sensíveis que dialogam com a obra e o legado da artista.

DOCUMENTO HISTÓRICO

O catálogo apresentado na abertura é considerado uma peça histórica. Embora não possua data precisa, estima-se que tenha sido produzido entre as décadas de 1930 e 1935 – período em que Lídia Baís já experimentava linguagens artísticas que destoavam dos padrões tradicionais.

Idealizadora do projeto, a arteterapeuta Tatiana De Conto destaca a importância do material. Segundo ela, o catálogo vai além de um simples registro expositivo.

"Trata-se de uma peça histórica, que nunca havia sido exibida dessa forma. Ela revela não apenas a produção artística da pintora, mas também registros da cena cultural e das relações que atravessavam aquele período”, afirma.

A proposta da exposição é justamente ampliar o olhar do público sobre a artista, conectando passado e presente. “O público encontra não apenas a estética de Lídia, encontra a história viva de Campo Grande em espelho – um espaço de reconhecimento interno e de conexão com aquilo que ainda busca nome”, completa Tatiana.

A ARTISTA

Nascida em 1900, Lídia Baís foi uma figura singular na história cultural de Mato Grosso do Sul. Filha de uma família tradicional, ela desafiou os padrões sociais do início do século 20 ao se dedicar intensamente à arte, à experimentação e à liberdade criativa.

Sua trajetória é marcada por deslocamentos físicos e simbólicos: entre a vida em Campo Grande, viagens, estudos e períodos de isolamento, a artista construiu uma obra que dialoga com questões existenciais, espirituais e subjetivas – temas pouco explorados na época.

Décadas depois, seu legado segue despertando interesse e novas interpretações. Parte desse resgate se deve ao trabalho de pesquisa de Tatiana De Conto, que há anos investiga a vida da artista. Em 2015, a pesquisadora levou aos palcos o espetáculo “Lídia Baís, Uma Mulher à Frente de Seu Tempo”, posteriormente transformado em livro lançado em 2023.

A obra, voltada ao público juvenil, busca preencher lacunas no ensino da história e cultura regional, apresentando a trajetória da artista de forma acessível e sensível.

ARTE COMO PONTE

A programação do projeto “Pontes Imaginárias” foi pensada para ir além da contemplação estética. A proposta é transformar o espaço expositivo em um ambiente de troca, escuta e criação.

Na noite de abertura, o público também poderá participar do sarau “Unindo Mundos”, que celebra o Dia do Arteterapeuta em parceria com a Associação de Arteterapia do Estado de Mato Grosso do Sul (Aatems).

Ao longo do mês de maio, nos dias 6, 13 e 20, serão realizadas oficinas de arteterapia ministradas por Tatiana De Conto. As atividades são baseadas no livro “Lídia Baís, uma mulher à frente de seu tempo” e utilizam processos criativos como ferramenta de expressão e elaboração emocional.

“A arteterapia utiliza processos criativos como forma de escuta e elaboração emocional. Nas oficinas, trabalhamos a partir da vida e da obra de Lídia para acessar questões internas, memória e identidade. São experiências que convidam à criação e ao encontro consigo e com o outro”, explica Tatiana.

As oficinas propõem diferentes linguagens, como escrita, costura e assemblagem – técnica que reúne objetos e materiais diversos – como caminhos para a construção simbólica e o autoconhecimento.

O encerramento da programação, no dia 23 de maio, contará com a exibição de documentários do projeto Histórias do Tombamento do Complexo Ferroviário, reforçando o diálogo entre arte, memória e território.

Tatiana De Conto e Guido Drummond, gestores do Museu de Arte Urbana Casa AmarelaCatálogo inédito com obras e informações sobre a vida de Lídia Baís será exposto na Casa Amarela - Divulgação

MUSEU VIVO

Desde 2017, a Casa Amarela atua como Museu de Arte Urbana (Muau), consolidando-se como um espaço cultural que ultrapassa os limites físicos tradicionais de um museu. Mais do que abrigar exposições, o local se posiciona como um território de experiências, encontros e construção de identidade coletiva.

Para o artista Guido Drummond, gestor do espaço ao lado de Tatiana, a ampliação da programação reflete a dimensão da obra de Lídia Baís.

“Nosso intuito é seguir por um mês com atividades que aprofundam o contato com o universo de Lídia. Tivemos a proposta ousada de estender a Semana dos Museus para um mês inteiro de programação, porque entendemos que uma semana seria muito pouco para trabalhar a vida da artista”, afirma.

Tatiana De Conto e Guido Drummond, gestores do Museu de Arte Urbana Casa Amarela

Serviço

Pontes Imaginárias: Lídia Baís e a Arte de Unir Mundos.

Casa Amarela – Rua dos Ferroviários, nº 118, Centro

Amanhã

Abertura da exposição – Catálogo de obras de Lídia Baís (18h)
Sarau “Unindo Mundos” – Dia do Arteterapeuta.

Dias 6, 13 e 20 de maio (quartas-feiras)

Oficina arteterapêutica Tempos do Feminino – Pontes em Lídia Baís.

23 de maio (sábado)

Exibição de documentários: Projeto Histórias do Tombamento do Complexo Ferroviário.

Informações e inscrições: Instagram @casa.amarela.muau ou WhatsApp (67) 9 9189-7034.
 

Assine o Correio do Estado

NEWSLETTER

Fique sempre bem informado com as notícias mais importantes do MS, do Brasil e do mundo.

Fique Ligado

Para evitar que a nossa resposta seja recebida como SPAM, adicione endereço de

e-mail [email protected] na lista de remetentes confiáveis do seu e-mail (whitelist).