Desde o último domingo, 18 de janeiro, um dos assuntos mais comentados na imprensa brasileira é a saída do ex-BBB Pedro da atração. O vendedor ambulante de 22 anos e morador de Curitiba (PR), lamentavelmente faz parte de uma estatística de situações recorrentes como essa de assédio na TV e fora dela também.
O Correio B+ convidou a Dra.em psicóloga Vanessa Abdo, que terá sua estreia como colunista no Caderno em breve para fazer uma avaliação do assunto. Confira:
Quando um corpo vira entretenimento, ele deixa de ser reconhecido como território de direitos. Passa a ser tratado como cenário disponível, como parte do jogo, como algo que pode ser invadido, tocado, avaliado e consumido. Reality shows não criam o problema — apenas revelam uma lógica social muito mais profunda: a de que certos corpos existem para o olhar, para o desejo e, em última instância, para a satisfação alheia.
Quando um homem tenta forçar um beijo, a violência raramente é lida como aquilo que ela é. Rapidamente surgem explicações que deslocam o foco do ato e do autor: “foi o álcool”, “foi o jogo”, “foi o impulso”, “foi a loucura”. E, junto com essas justificativas, vem a tentativa recorrente de responsabilizar a mulher — pelo lugar em que estava, pela roupa, pela proximidade, pelo silêncio, pela situação. Como se o corpo feminino fosse sempre corresponsável pela violência que sofre.
É fundamental fazer aqui um apontamento enfático: não é loucura.
E insistir nessa associação é duplamente violento.
A Dra. em psicologia Vanessa Abdo - Divulgação Canal E!Primeiro, porque atrelar esse tipo de comportamento à doença mental reforça estigmas históricos contra pessoas que sofrem psiquicamente. Pessoas com transtornos mentais são muito mais vítimas de violência do que autoras dela.
Associá-las automaticamente ao abuso, à agressividade ou à perda de controle é desinformação, preconceito e exclusão. Isso alimenta o imaginário social de que o “doente mental” é perigoso, quando na realidade o perigo está em estruturas de poder, desigualdade de gênero e permissividade social.
Segundo — e talvez ainda mais grave —, porque chamar de loucura desresponsabiliza o abusador. Quando o ato é explicado como descontrole ou patologia, o sujeito deixa de ser visto como alguém que fez uma escolha. A violência vira um acidente, algo fora da vontade, fora da ética, fora da responsabilidade. E não é. Abuso é comportamento aprendido, autorizado e muitas vezes reiterado. Ele nasce da certeza — ainda muito difundida — de que o desejo masculino tem prioridade sobre o consentimento feminino.
Não é falta de sanidade.
É excesso de permissividade.
É uma cultura que relativiza limites e depois pergunta por que eles não foram respeitados.
Enquanto continuarmos tratando corpos femininos como _coisa_ e violência como desvio individual — e não como expressão de uma estrutura — seguiremos protegendo agressores e cobrando das vítimas aquilo que nunca deveria ser delas: a responsabilidade pelo ato do outro.
Que o Pedro responda pelo que decidiu fazer…
Por @vanessaabdo
Foto: Divulgação
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