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Música de MS

Rap indígena e rezas guarani e kaiowá ganham o mundo em lançamento internacional

Rap indígena e rezas guarani e kaiowá ganham o mundo em álbum que une espiritualidade, ciência e música contemporânea; produtor de Paul McCartney e Guns N' Roses está envolvido no projeto

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Um encontro entre mundos, sons e espiritualidades começa a ecoar para além das fronteiras do Brasil.

Lançado em vinil no sábado, o álbum “Shamans in Space” nasce de um diálogo profundo entre os povos guarani e kaiowá, de Mato Grosso do Sul, e artistas da música eletrônica internacional, propondo uma experiência que ultrapassa os limites tradicionais da música e se aproxima de um território sensorial, espiritual e político.

O projeto se apresenta como um gesto de resistência, preservação cultural e criação coletiva.

Com distribuição em cerca de 5 mil lojas ao redor do mundo e estreia nas plataformas digitais marcada para o dia 1º de maio, o álbum leva ao cenário internacional um conhecimento ancestral que, para esses povos, nunca foi apenas som – mas reza, tecnologia espiritual e forma de existência.

ALÉM DOS OUVIDOS

Para os guarani e kaiowá, o som não é entretenimento. Ele carrega um sentido profundo, ligado ao conceito de Mba’ekuaa, um conhecimento vivo que articula dimensões espirituais, práticas e comunitárias. Nesse contexto, cantar é também cuidar do equilíbrio entre mundos, preservar memórias e manter vivas as relações entre humanos, natureza e o invisível.

É a partir dessa compreensão que “Shamans in Space” foi concebido: não como uma simples fusão de gêneros musicais, mas como um encontro orientado pela escuta, pelo respeito e pela espiritualidade.

Capa do álbum Capa do álbum “Shamans in Space” - Foto: Divulgação

O projeto propõe uma ruptura com a lógica da indústria cultural tradicional, em que frequentemente há apropriação de saberes indígenas sem o devido reconhecimento ou participação efetiva das comunidades.

No centro dessa criação estão lideranças espirituais guarani e kaiowá, como Nhandesy Roseli, Nhandesy Fausta e Nhanderu Tadeu, que assumem não apenas a participação, mas a direção do projeto.

São eles que definem o que pode ser compartilhado, orientam os processos e garantem que os cantos sagrados – considerados pilares da cosmologia indígena – sejam preservados em sua integridade.

A pesquisadora e coordenadora do projeto, Fabi Fernandes, destaca que esse cuidado foi construído ao longo de anos de diálogo com as comunidades.

“A gente fez questão de que tudo seja construído com os anciãos, etapa por etapa. Eles são os diretores de tudo. Não é só colocar o nome deles como coautores, é garantir que a decisão final seja sempre deles. Isso muda completamente a forma de produzir arte e conhecimento”, explica.

RAP INDÍGENA

Entre as vozes que atravessam o álbum está a do rapper indígena Kelvin Mbaretê, integrante do Brô MC’s, considerado o primeiro grupo de rap indígena do País.

No projeto, Kelvin transforma o rap em uma ferramenta que conecta tradição e contemporaneidade. Sua participação não é apenas artística, mas espiritual.

“A música deixa de ser só música. Ela vira reza, vira mensagem, vira cura. O rap sempre foi minha arma de luta, mas os cantos sagrados são a voz dos nossos ancestrais. Quando essas duas forças se encontram, tudo muda”, afirma.

Oriundo de um território marcado por conflitos fundiários, violência e processos de retomada, o artista leva para o mundo uma narrativa que por muito tempo foi silenciada. “Antes, nossa luta era ouvida só aqui. Hoje, com a música, o mundo começa a ouvir.

A flecha vira palavra que atravessa fronteiras. É uma forma de mostrar que a gente continua resistindo, mas também criando, vivendo e sonhando”, diz.

Ao cantar em guarani, Kelvin também reforça a importância da língua como território simbólico. “A nossa língua é o nosso DNA. Mesmo quem não entende as palavras sente a energia. Ela vira ponte entre culturas. E mostra que a nossa língua pode viajar o mundo sem perder a raiz”, completa.

CENA INTERNACIONAL

O álbum também reúne nomes de peso da música internacional, criando uma ponte entre diferentes tradições sonoras. Entre eles está o produtor britânico Martin Youth Glover, conhecido por trabalhos com Paul McCartney, Pink Floyd, U2 e Guns N’ Roses.

Com uma trajetória marcada pela experimentação sonora, Youth vê no projeto uma ampliação de sua pesquisa sobre o poder transformador do som

“Sempre senti que o som tem um efeito de cura e regeneração. O que me interessa é criar uma espécie de alquimia xamânica entre todos os envolvidos. A música pode nos reconectar com nós mesmos, com a Terra e com o cosmos”, afirma.

Outro participante é o músico Tymon Dogg, ligado ao universo do The Clash, que adiciona ao álbum elementos do folk e da música experimental por meio de seu violino.

Já Matt Black, cofundador da Ninja Tune, contribui com sua experiência na cultura do sampling e na música eletrônica contemporânea, ampliando as possibilidades sonoras do projeto sem deslocar seu centro espiritual.

Produzido pela gravadora Liquid Sound Design, o álbum chega ao mercado internacional com forte presença na cena de música eletrônica psicodélica, transitando entre gêneros como psytrance, ambient e downtempo.

Apesar do alcance global, o projeto mantém um compromisso direto com as comunidades indígenas. Todos os royalties do álbum serão destinados aos rezadores e rezadoras guarani e kaiowá, fortalecendo a continuidade dos cantos sagrados e a autonomia cultural desses povos.

CANTOS E REZAS

“Shamans in Space” se constrói em duas dimensões que coexistem de forma complementar. De um lado, estão as faixas que dialogam com a música eletrônica e com cantos tradicionais autorizados para experimentação, como os guahú e guaxiré, associados à celebração e à conexão com a natureza.

De outro, as rezas consideradas mais sensíveis são preservadas em sua forma original, sem qualquer tipo de interferência. Esses cantos aparecem como uma experiência paralela ao álbum principal, acessível por meio de um QR Code no encarte do vinil, que direciona para um registro especial de cerca de 15 minutos.

Essa escolha reforça o compromisso ético do projeto com os protocolos culturais dos povos envolvidos. Em vez de transformar tudo em produto, o álbum estabelece limites claros, respeitando o que deve permanecer no campo do sagrado.

CONHECIMENTO

O projeto é resultado de uma colaboração internacional que integra arte, pesquisa e saberes ancestrais.

“Shamans in Space” nasce dentro do Sounding Futures, desenvolvido em parceria com o UCL Multimedia Anthropology Lab, o Instituto para o Desenvolvimento da Arte e da Cultura e a Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul.

Para a coordenadora Raffaella Fryer-Moreira, o álbum propõe uma transformação na forma de produzir conhecimento.

“Esse trabalho nasce de uma investigação sobre como fazer pesquisa de outras formas, mais abertas, colaborativas e acessíveis. Ao trazer o som como ferramenta central, o projeto questiona a divisão entre arte e ciência e mostra que a música também pode ser uma forma de conhecimento”, explica.

Segundo ela, o conceito de Mba’ekuaa revela que diferentes culturas têm suas próprias tecnologias. “Quando os anciãos dizem ‘esse é o nosso Mba’ekuaa’, eles estão falando de um saber fazer, de uma tecnologia própria. Assim como usamos câmeras e microfones, eles utilizam o som, a reza. São formas diferentes de produzir conhecimento e de se relacionar com o mundo”, afirma.

PRESENTE AO FUTURO

Em um mundo marcado por crises ambientais, distanciamentos culturais e desconexões profundas, “Shamans in Space” propõe outra forma de escutar. Uma escuta que não separa arte e vida, som e espírito, passado e futuro.

Entre beats eletrônicos, maracás, sintetizadores e takuapus, o álbum constrói uma travessia sensorial que convida o ouvinte a experimentar a música de forma mais profunda. Cada faixa carrega uma cosmologia própria, um tempo distinto e uma relação com o invisível.

Mais do que ouvir, a proposta é sentir. Permitir que o som atravesse o corpo, reorganize percepções e abra espaço para novas formas de conexão.

“Eu quero que, quando alguém ouvir esse álbum, sinta algo no coração. Porque isso é mais do que música. É a nossa história, nossa espiritualidade, nossa resistência viva”, resume Kelvin Mbaretê.

Diálogo

Tem candidato prometendo o que não pode cumprir e, pior, sem nem... Leia na coluna de hoje

Leia a coluna desta quinta-feira (01)

01/10/2026 00h02

Diálogo

Diálogo Foto: Arquivo / Correio do Estado

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George Bernard Shaw - escritor irlandês

"A vida é uma pedra de amolar: desgasta-nos ou afia-nos, conforme o metal de que somos feitos”.

FELPUDA

Tem candidato prometendo o que não pode cumprir e, pior, sem nem saber para que serve o cargo que disputa. O roteiro é conhecido: deixam o escrúpulo em casa, capricham nas promessas mirabolantes e oferecem o paraíso em troca do voto. E o País segue esperando o milagre dos “vendedores de sonhos”. Se metade do que se promete saísse do papel, o Brasil seria outro. Saúde ao alcance de todos, menos violência, impostos que não sufocassem quem produz e quem consome. E, de quebra, o fim da roubalheira. Mas tal qual papagaio, como se sabe, tudo só se repete...

Em falta

Convertido a esquerda e candidato a governador pelo PT, Fábio Trad, parece contar apenas com apoio dos petistas. Os milhares de votos que já o elegeram deputado federal, dizem por aí, evaporaram.

Mais

As pesquisas indicam os índices médios do PT em relação as eleições anteriores. A expectativa de Fábio era “engordar” a sua votação com apoio do eleitorado de origem. É esperar para ver.

DiálogoDivulgação/Andre Lorenzoni

No próximo sábado (3), às 16h, será apresentado o espetáculo infantil “A Fabulosa História do Guri-Árvore”, inspirado no universo poético de Manoel de Barros. A montagem é do Grupo Fulano di Tal e tem classificação livre. Ela propõe uma viagem pela imaginação a partir de objetos encontrados num quintal, tendo em cena os irmãos Abílio, interpretado por Douglas Moreira, e Palmiro, vivido por Edner Gustavo. Ao explorarem os objetos espalhados pelo espaço, eles encontram uma Geringonça Desreguladora de Memórias, responsável por conduzi-los à história de Bernardo, o Guri-Árvore. O espetáculo tem como local o Sesc Teatro Prosa e os ingressos estarão disponíveis pela plataforma Sympla.

DiálogoNerone Maiolino Junior, comemorando idade nova hoje - Foto: Guilherme Molento

 

DiálogoFátima Trad Martins, que hoje está aniversariando - Foto: Arquivo pessoal

Vai ou racha?

A temporada de chuvas se aproxima, e Campo Grande já conhece o “roteiro”. Quando a água encontra asfalto deteriorado, o buraco cresce, outro aparece, a boca de lobo entope e o problema se multiplica. Se a operação tapa-buraco não apresentar resultado agora, antes das chuvas mais fortes, a conta será ainda maior depois. A cidade não precisa de mais anúncio de força-tarefa. Necessita de ruas recuperadas e prestação de contas sobre o que foi feito. É o mínimo que se espera do poder público, pois é a população que paga a conta.

Empurrãozinho

A candidatura da deputada Mara Caseiro para uma cadeira na Câmara federal, abriu grande espaço para o seu colega Lídio Lopes tentar a reeleição. Eles dividem a mesma base eleitoral: região do extremo sul do Estado. Mara é de Eldorado e Lídio de Iguatemi. A distância de uma cidade para outra é de 34 km. Lídio ainda tem esperança de “beliscar” alguns votinhos dos eleitores que simpatizam com a sua esposa, a prefeita Adriane Lopes.

Só rezando...

“Rendido à polarização, o Supremo pede reza: Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por seus magistrados, supremos pecadores, agora e na hora da morte do tribunal. Amém. A campanha foi de um extremo ao outro. Estava dominada pelo escândalo do Master, com os candidatos tentando grudar Daniel Vorcaro um no outro. De repente, a festa das astronautas deu lugar ao voto religioso. E só se fala de Nossa Senhora Aparecida...” (Josias de Souza  - coluna do Uol).

ANIVERSARIANTES 

  • Nerone Maiolino Júnior, 
  • Fátima Trad Martins, 
  • Olga Maria Benevides, 
  • Nayara Lummy Arashiro de Lima,
  • Hyllen Suemi Monteiro Tomari, 
  • Dra. Eulália Ribeiro Meloti Brandão,
  • José Fernando Bazzoli Sader, 
  • Amilso Alves Quieroz,
  • Eduardo Harada,
  • Marcia Gomes da Costa,
  • Paulo Correa de Oliveira,
  • Fátima Natalia Sotoma Pavon,
  • Carlos Alberto Ferreira de Miranda,
  • Genesio Manoel dos Santos,
  • Francisco Carlos Lopes Oliveira,
  • Manoel Roberto Ovidio,
  • Iraci Barbosa Corrêa, 
  • Mônica Abujamra,
  • Adriana Junqueira Buainain, 
  • Adrianus Lodevicus Maria Vosters,
  • Atacino Teixeira Gomes,
  • Wilson Pereira da Bella, 
  • Helder Serem, 
  • Graziela Guizzo Couto Vieira,
  • Vanildo Gomes Martins,
  • José Ramos Avelino Neto,
  • Valdomiro Garcia Barbosa,
  • Cristiano Tomicha Farias,
  • José Anezi de Oliveira,
  • Arlindo de Assis,
  • Emerson Valle Petzold,
  • Marta Hoff Araújo,
  • Adão Verão Parentel,
  • Max Loosli Junior,
  • Teresa Kohatsu,
  • Rodolfo Trelha Jacques de Carvalho, 
  • Lisete Amorim de Barros,
  • Maria Cristina Soares,
  • Sofia Callejas Oliveira Lima,
  • Jaiane Aparecida Lopes Rosso,
  • Wagner Freitas,
  • Hugues Lemes Borges,
  • José Lino Benites,
  • Manoel Gersino Rocha,
  • Ricardo Vicente de Paula,
  • Elton Fabrício Tofano, 
  • Dr. Antônio Paulo Dorsa Vieira Pontes, 
  • Dirce Zornitta Rosse,
  • Nadia Samaniego,
  • Tereza Katsuco Tomari, 
  • Bruna Colagiovanni Girotto Fernandes,
  • Maria Helena Silva de Faria,
  • Paulo André Defante,
  • Dr. Wilson Coutinho,
  • Raimundo Rodrigues Nunes Filho,
  • Hélio Coelho Neto,
  • Marcos Antônio Vieira,
  • Cátia Batista,
  • Haydê Monteiro de Almeida,
  • Marcos Roberto da Silva,
  • Luciene Godoy,
  • Marcello Leite dos Santos,
  • Waldemiro de Arruda Fortes,
  • Silene Costa da Guia,
  • Ovídio Velasco de Oliveira,
  • Pedro Braga Filho, 
  • Maria Aparecida Rezek Albuquerque, 
  • Sílvia Saffe de Souza Chacha,
  • José Carlos da Silva,
  • Aires Ribeiro de Matos,
  • Lázaro de Godoy Neto, 
  • Edmilson Nogueira Escobar, 
  • Nilton Silva Tôrres,
  • Edson Aparecido Bernardinelli Junior,
  • Heitor Corrêa Lopes,
  • Acyr Comás,
  • Silvio Augusto Monteiro,
  • Ana Lia Medeiros,
  • Cristina Oliveira Mendes,
  • Fábio Soares Carmo,
  • Dulce Mara Bachega,
  • Luiz Carlos Lima,
  • Keila Nunes Leal,
  • Renata Barbosa da Silva,
  • Lucinda Cortinóvis Kauás,
  • Marilda Monteiro,
  • Sinval Martins Filho, 
  • Rodrigo Scardini, 
  • Dra. Eloina Brasil Ferreira, 
  • Pedro Carlos Lopes,
  • Paulo César Gomes,
  • Larissa Lima,
  • Sabrina Vieira,
  • Paula Flôres Macedo,
  • Carolina Gomes,
  • Mário Márcio Mesquita,
  • Lilian Melo Hodgson,
  • Josias Dias de Oliveira,
  • Artur Yutaka Moriya,
  • Luis Alberto Rodrigues Guimarães,
  • Otacílio Felipe de Mello,
  • Nildes Maria das Graças
  • Tristão Prieto,
  • Flávio Watanabe Yamazaki,
  • Moacir Akira Yamakawa,
  • Masuo Chumzun,
  • Roberto Augusto Calliari.

Colaborou com Tatyane Gameiro

LITERATURA

Escritora de MS cria personagem em busca da alma gêmea impossível

Em "Ele: Uma Procura Infinita", escritora sul-mato-grossense acompanha um homem incapaz de compreender as mudanças nas relações e que passa por diferentes vínculos afetivos sem conseguir construir uma vida a dois

30/09/2026 08h30

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A procura por uma companheira que corresponda a uma imagem construída no imaginário conduz o personagem central de “Ele: Uma Procura Infinita”, novo romance da escritora e jornalista Mazé Torquato Chotil.

Em pré-venda pela Editora Patuá, o livro acompanha a trajetória de um homem identificado apenas como Ele, suas relações com diferentes mulheres e os filhos que surgem ao longo desse percurso.

Por trás da sucessão de encontros, separações e recomeços, a autora constrói uma reflexão sobre identidade, convivência e as transformações nas relações entre homens e mulheres.

O romance também passa por Mato Grosso do Sul. Embora atualmente viva em Paris, na França, Mazé mantém na literatura a presença das terras onde nasceu.

Livro “Ele: Uma Procura Infinita” - Foto: Divulgação

Em “Ele: Uma Procura Infinita”, as lembranças da infância do personagem aparecem ao longo da narrativa, associadas às idas e vindas da memória. A presença do Estado, porém, não é apenas um recurso da história: para a autora, trata-se de um território que passa pela sua produção literária.

“Nas idas e vindas das páginas, ele se lembra situações de sua infância nessas terras sul-mato-grossenses. Na verdade, aqui é a autora que não consegue se desvencilhar dessa terra!”, afirma Mazé.

A história nasce de uma inquietação da autora diante das mudanças ocorridas nas relações sociais nas últimas décadas. Para Mazé, enquanto as mulheres conquistaram novos espaços, parte dos homens passou a enfrentar dificuldades para compreender o seu papel diante dessa transformação.

“O homem ficou um pouco perdido. A mulher lutou e tem conquistado espaço nas relações sociais, enquanto o homem não está sabendo muito bem como reagir”, explica. Para ela, esse processo não se restringe ao Brasil, mas integra uma mudança mais ampla nas relações humanas.

O personagem criado no romance representa justamente essa dificuldade de adaptação.

Ele não consegue compreender a necessidade de que cada pessoa possa construir sua identidade e ocupar o seu espaço. Em vez disso, procura nas mulheres que encontra uma figura que corresponda àquilo que idealizou como companheira.

É nesse ponto que surge a procura infinita do título. A busca não termina porque o que o personagem procura não existe na realidade, mas apenas na imagem que construiu. “O que está no seu imaginário não pode ser real. Mas ele pode mudar!”, afirma a autora.

A sucessão de relacionamentos, portanto, não funciona apenas como uma coleção de histórias amorosas. Cada vínculo revela a dificuldade do protagonista em lidar com a autonomia da outra pessoa.

Quando a companheira passa a assumir a identidade e deixa de corresponder ao comportamento que ele considera correto, Ele abandona a relação, muitas vezes sem explicar as razões.

Mazé Torquato Chotil - Foto: Divulgação

Para Mazé, esse comportamento produz uma violência que ultrapassa o rompimento amoroso. “Uma enorme violência para a outra pessoa”, define.

Ao mesmo tempo, a autora procura não construir o personagem apenas como alguém que provoca sofrimento. Ele também é apresentado como uma pessoa incapaz de compreender plenamente o outro e, por isso, igualmente preso às limitações que tem.

“Ele não aprendeu, não sabe lidar com o outro e termina sofrendo – porque ele também é humano. Precisa ser ajudado; caso contrário, continuará a encontrar pessoas que, mesmo diante de seu amor, de seu carinho e de sua ternura, perceberão que não é possível construir uma vida a dois”, diz.

As relações

Ao acompanhar a vida afetiva do protagonista, o romance coloca em cena também os filhos e as diferentes configurações familiares que surgem dessas relações. A autora afirma ter buscado mostrar personagens que possuem desejos pessoais e precisam ter espaço para construir suas identidades.

Essa questão aparece especialmente quando a narrativa trata da adolescência. Para Mazé, é nesse período que o indivíduo começa a se confrontar de maneira mais intensa com o mundo e com as expectativas daqueles que o cercam.

“As pessoas são elas mesmas, com seus desejos, e devem se assumir. Sobretudo na adolescência, elas precisam se confrontar com o mundo. Devem e podem ser ajudadas, mas não podem ser obrigadas a fazer o que o outro quer”, afirma.

A dificuldade de Ele está justamente em não conseguir estabelecer essa relação de convivência. Ele ama, demonstra carinho e ternura, mas tenta encaixar as pessoas em uma ideia personalista de como uma relação deve funcionar.

A pergunta que passa por todo o romance, nesse sentido, não é apenas sobre encontrar alguém para amar, mas sobre como duas pessoas podem permanecer juntas sem que uma precise abrir mão de sua identidade.

“É como viver juntos, como ser ajudado, sem impor ao outro o seu ponto de vista”, resume a escritora.

Construir esse personagem exigiu também da autora um exercício de deslocamento. Ao escrever sobre um homem e acompanhar seus pensamentos e comportamentos, Mazé precisou se colocar na perspectiva de alguém diferente dela.

“Tinha a preocupação de não deixar o leitor se perder entre as múltiplas mulheres e os filhos. Aliás, lembro ao leitor, nas primeiras páginas, o que ele vai encontrar, de forma a guiá-lo”, conta.

A estrutura do romance acompanha as idas e vindas da trajetória do protagonista e costura diferentes relações ao longo da narrativa. A autora afirma ter buscado construir as conexões entre os personagens progressivamente, de acordo com a trajetória imaginada para Ele.

Do jornalismo à literatura

Jornalista, com doutorado e pós-doutorado, Mazé também encontra na literatura uma maneira diferente de abordar questões que fazem parte de sua observação do mundo. Para ela, a ficção permite tratar de assuntos humanos sem a mesma obrigação de objetividade presente no jornalismo.

“Gosto da forma literária – mesmo tendo feito doutorado e pós-doutorado – porque ela nos dá essa liberdade”, afirma.

A diferença, segundo a escritora, está também na forma como o leitor entra em contato com as informações. No jornalismo, ela explica, o texto apresenta elementos sobre o objeto abordado. Na literatura, esses mesmos assuntos podem ser incorporados à narrativa e descobertos pelo leitor no decorrer da leitura.

“Como jornalista, dou aos meus textos informações sobre o objeto em questão, mas a literatura permite abordá-las todas de forma leve, deixando o leitor se introduzir nas palavras escritas, aprender, ver ‘sem esforço’”, diz.

Terra natal

Embora o romance tenha como centro as relações afetivas de Ele, Mato Grosso do Sul permanece como uma espécie de território de memória. O personagem tem os “pés de sua infância” fincados no Estado, segundo Mazé.

A presença sul-mato-grossense se relaciona também com a trajetória da autora, nascida em Glória de Dourados. As lembranças do Estado aparecem em diferentes trabalhos de sua produção e, neste novo romance, surgem ligadas às memórias do protagonista.

“Em todas as minhas obras, essas terras estão presentes, menos ou mais, dependendo de se a obra é um romance ou uma biografia de pessoas que vivem longe desse lugar”, afirma.

A escritora pretende retornar ao Brasil no fim de outubro. Antes de voltar ao Estado, no entanto, a programação de divulgação do romance começa em São Paulo, onde está localizada a Editora Patuá.

A previsão é de que novembro seja dedicado a atividades em diferentes espaços paulistas e, depois, ao Rio de Janeiro, onde Mazé pretende participar da Primavera dos Livros Mar Livre.

A passagem por MS está prevista para o início de 2027. “Começarei por Glória de Dourados, onde nasci e guardo um grande carinho, pelas lembranças do lugar da minha infância e adolescência e pelo seu povo, até chegar à nossa capital”, conta.

Apresentação

“Ele: Uma Procura Infinita” chega ao público com apresentação do escritor e professor emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Godofredo de Oliveira Neto, membro da Academia Brasileira de Letras (ABL).

A aproximação entre os dois aconteceu em Paris, onde Mazé vive. Godofredo trabalhou durante anos na Sorbonne e, depois de conhecer o texto, recebeu da autora o convite para apresentar o romance.

A resposta foi recebida por Mazé como um reconhecimento importante para o trabalho. Entre as observações feitas pelo escritor está a avaliação de que o romance apresenta domínio da forma romanesca, originalidade na trama, estrutura capitular e uma temática relevante.

“O domínio romanesco da Mazé é evidente, a originalidade da ‘intrigue’, a sequência capitular, a escritura e o tema em si bem o provam. Obra importante na nossa literatura”, escreveu Godofredo.

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