Em quatro décadas, a Ginga Cia de Dança transcionou dos circuitos competitivos para espetáculos e se consolidou como uma das maiores companhias do Centro-Oeste
Em um país onde manter um grupo artístico ativo já é, por si só, um ato de resistência, completar quatro décadas de trajetória representa mais do que permanência. Significa passar por mudanças culturais, dificuldades financeiras, transformações estéticas e gerações inteiras sem perder o movimento.
Neste ano, a Ginga Cia de Dança chega aos 40 anos consolidada como uma das companhias mais longevas e importantes da dança contemporânea do Centro-Oeste brasileiro.
Fundada em 1986, em Campo Grande, pelo coreógrafo e diretor Chico Neller, a companhia nasceu sem grandes estruturas institucionais ou planejamentos formais. O ponto de partida foi o desejo coletivo de dançar.
A partir desse impulso, a Ginga construiu uma história marcada por experimentação artística, formação de bailarinos, circulação nacional e espetáculos que transformam temas sociais em dramaturgia corporal.
Ao longo de quatro décadas, mais de uma centena de bailarinos passaram pela companhia. Muitos iniciaram suas trajetórias ainda crianças, dentro do Projeto Dançar, criado em 1997, e seguiram carreira profissional. Outros encontraram na dança um espaço de acolhimento, reconstrução pessoal e pertencimento.
Hoje, a Ginga celebra seu legado olhando também para o futuro. Além da circulação estadual do espetáculo “Rompendo Silêncios”, a companhia iniciou a criação de “Corpo Território”, novo trabalho que investiga identidade, pertencimento e cultura sul-mato-grossense.
O COMEÇO
Quando a Ginga surgiu, em meados da década de 1980, a dança contemporânea ainda tinha pouca visibilidade em Mato Grosso do Sul. Os circuitos culturais eram limitados, os investimentos escassos e havia pouca circulação de grupos profissionais fora dos grandes centros do País.
Segundo Chico Neller, a companhia nasceu da união de bailarinos movidos pela vontade de estar em cena.
“A Ginga Cia de Dança surgiu da união de bailarinos que tinham, acima de tudo, o desejo de dançar. No início, não havia um propósito institucional definido ou uma estrutura consolidada. Existia a vontade de criar, estar em cena e compartilhar a dança com diferentes públicos”, relembra.
As primeiras coreografias, como “Passagens”, “Prisma”, “Phisma 2” e “Feras”, já indicavam características que se tornariam marcas da companhia: intensidade física, sensualidade, potência feminina e investigação das relações humanas por meio do corpo.
“Mesmo naquele início, existia um interesse pelo corpo como espaço de expressão e narrativa. Isso continua sendo uma marca da Ginga até hoje”, afirma o diretor.
Inicialmente ligada à linguagem do jazz e ao circuito competitivo de festivais, a companhia rapidamente ganhou reconhecimento regional e nacional. Nos anos seguintes surgiram obras como “Sistemas”, “Cúbica”, “Ginga Brasil”, “Pare e Pense”, “Por Você”, “Te Amar”, “Herança Negra” e “Influência”.
O grupo conquistou premiações importantes, incluindo o Jacaré de Prata, com destaque para Melhor Coreografia e Melhor Bailarina.
RECONHECIMENTO NACIONAL
A década de 1990 marcou a consolidação nacional da companhia. A participação no Festival de Dança de Joinville – considerado um dos maiores festivais de dança do mundo – mudou os rumos da Ginga.
Foi naquele palco que a companhia percebeu que o trabalho desenvolvido em Mato Grosso do Sul tinha potência para dialogar com a cena nacional.
“O Festival de Joinville teve um impacto fundamental na trajetória da Ginga. Foi ali que começamos a entender que o trabalho que fazíamos em Mato Grosso do Sul podia dialogar com o cenário nacional da dança”, afirma Chico.
Durante os anos 1990, a companhia apresentou coreografias como “Purificação”, “Olhe-me”, “Entre Nós”, “Espíritos que Dançam na Carne”, “Face a Face”, “Távora” e “Instinto”, conquistando prêmios importantes nas categorias jazz e dança moderna.
A participação na Noite de Gala do festival – espaço reservado às coreografias mais premiadas e de maior destaque – se tornou um dos momentos simbólicos da trajetória da companhia.
“Para nós, que estávamos longe dos grandes centros culturais do País, era muito significativo perceber que um grupo vindo de Campo Grande podia ocupar aquele espaço e ser reconhecido artisticamente”, destaca o coreógrafo.
Mas o impacto de Joinville foi além das premiações. O festival também funcionou como espaço de troca artística. “Tivemos contato com outros grupos, outras linguagens e outras formas de pensar a dança. Acho que isso foi determinante para o amadurecimento da companhia”, explica Chico.
ARTE QUE ACOLHE
Entre as artistas que tiveram suas trajetórias profundamente marcadas pela Ginga está Márcia Rolon, ex-bailarina da companhia e fundadora do Moinho Cultural.
Ela conta que chegou ao grupo em um momento de ruptura pessoal. “Eu estava totalmente sem chão. Saía de um relacionamento marcado por dor e violência. Tive que deixar minha cidade, meu Pantanal, e voltar para a casa dos meus pais em Campo Grande. A dança foi minha luz”, relembra.
Márcia procurou a companhia em busca de acolhimento artístico e emocional. “O Chico Neller me acolheu, me incluiu no grupo e me ensinou a ser mais fluida. Me trouxe de volta o respiro e o amor”, relembra.
Segundo ela, a Ginga foi determinante não apenas para sua formação artística, mas para a reconstrução de sua vida. “A Ginga me apresentou o palco profissional, me permitiu ser intérprete-criadora, me convidou para coreografar e me colocou no palco do maior festival de dança do mundo”, afirma.
Mais tarde, as experiências vividas dentro da companhia ajudaram Márcia a criar a Mostra Corumbá – Santuário Ecológico da Dança e a fundar o Moinho Cultural. “Tudo está interligado”, resume.
RESISTÊNCIA
Manter uma companhia de dança ativa por 40 anos fora do eixo Rio-São Paulo nunca foi simples. A falta de continuidade de políticas culturais, dificuldades de financiamento e os altos custos de circulação sempre fizeram parte da realidade da Ginga.
“Fazer dança no Brasil já exige resistência, e fora do eixo Rio-São Paulo isso se torna ainda mais difícil”, afirma Chico Neller.
Segundo ele, a permanência da companhia só foi possível graças à criação de redes de formação e pertencimento. “A companhia não se sustentou apenas pelos espetáculos, mas também pela construção de uma rede de pessoas que acreditam na dança como espaço de transformação”, diz.
Essa visão também aparece no depoimento do bailarino Paulo Oliveira, integrante da nova geração da companhia.
Paulo começou na dança ainda criança, por meio do Projeto Dançar, em 2004. “Boa parte da pessoa e artista que me tornei foi construída dentro desse espaço”, afirma.
Hoje, integrar uma companhia com quatro décadas de história representa, para ele, uma responsabilidade coletiva. “Estar na companhia entendendo toda a sua história, resistência e impacto cultural no MS é também assumir uma responsabilidade de continuidade”, defende.
Segundo o bailarino, o legado da Ginga não está preso ao passado. “A companhia nunca foi estática. Quem chega traz novas referências, novas urgências. O legado da Ginga está justamente nessa capacidade de permanecer em transformação”, explica o bailarino.
MUDANÇA
Um dos momentos mais decisivos da trajetória da companhia aconteceu em 1999, quando a Ginga decidiu abandonar o circuito competitivo de festivais e aprofundar sua pesquisa em dança contemporânea e criação autoral.
O espetáculo “Despalavras” marcou essa transição. “A energia dos bastidores, a comparação e a avaliação não combinavam com arte”, afirma Márcia Rolon.
Ela lembra que, em um ano, a companhia competia nos festivais; no seguinte, já aparecia como grupo convidado em grandes eventos. “Essa foi a grande virada da Ginga e o reconhecimento do Chico Neller como diretor e coreógrafo”, conta.
A partir daí, a companhia passou a investir em espetáculos completos, com maior elaboração dramatúrgica e aprofundamento conceitual.
Nos anos seguintes surgiram obras como “Conceição de Todos os Bugres”, “Corpo Latino”, “Um Tema para Quatro”, “Vem Dançar Comigo” e “Aqui ou em Qualquer Lugar”.
O processo também foi fortalecido por intercâmbios com importantes nomes da dança contemporânea brasileira, entre eles Mário Nascimento, Tíndaro Silvano, Luis Arrieta e Vanessa Macedo.
EXPRESSÃO
Nas últimas décadas, a Ginga aprofundou ainda mais sua relação com temas sociais e humanos.
Em 2022, a companhia estreou “Silêncio Branco”, espetáculo que aborda feminicídio e violência contra a mulher. A obra transformou em movimento o silêncio imposto às vítimas da violência de gênero.
Em 2023, o espetáculo foi contemplado pela Bolsa Funarte de Dança Klauss Vianna, fortalecendo sua circulação nacional.
Já em 2024, a companhia realizou a recriação coreográfica “Rompendo Silêncios”, assinada por Vanessa Macedo, ampliando a investigação artística sobre violência contra a mulher.
Para Paulo Oliveira, trabalhar temas urgentes altera profundamente o processo criativo. “Os trabalhos da Ginga partem muito das experiências humanas, das tensões contemporâneas, das questões de identidade, pertencimento e coletividade”, afirma.
Segundo ele, a dança possui capacidade de provocar reflexão social justamente por atuar no campo sensível. “A dança cria experiências e pode despertar perguntas no público, mesmo sem entregar respostas prontas”, pontua.
DANÇA CONTÍNUA
Chegar aos 40 anos não representa encerramento, mas continuidade.
Além da circulação estadual de “Rompendo Silêncios”, a companhia prepara “Corpo Território”, novo espetáculo que investiga as relações entre corpo, memória, identidade e pertencimento.
Ao olhar para trás, Chico Neller afirma que a maior conquista da companhia talvez seja justamente sua permanência. “Me orgulho de olhar para trás e ver quantos bailarinos passaram pela companhia, quantas vidas foram atravessadas pela dança e quantas pessoas descobriram um caminho artístico dentro da Ginga”, diz.
Depois de quatro décadas, a companhia segue inquieta. “Acho que o que mais me emociona é perceber que a companhia continua viva, em movimento, com vontade de pesquisar, criar e continuar acreditando na dança como espaço de encontro, reflexão e transformação”, conclui o diretor.