"Acredito que minha maturidade cênica e minha paixão pelo ofício possam ter sido fatores considerados na minha escolha."
Com mais de 14 anos de atuação no teatro musical e uma relação com o palco que atravessa mais de três décadas, a atriz, cantora, bailarina e dubladora Marisol Marcondes vive um novo momento na carreira ao assumir a protagonista da montagem brasileira do musical “Flashdance”, adaptação do clássico do cinema de 1983, eternizado por Jennifer Beals, que estreou no dia 9 de abril no Teatro Claro Mais, em São Paulo.
Natural de Vinhedo, no interior paulista, a atriz construiu uma trajetória contínua nos palcos, iniciada ainda na infância e desenvolvida ao longo de diferentes produções.
O contato com a cena aconteceu cedo. Aos 7 anos, iniciou aulas de teatro, somando à prática da dança, que já desenvolvia há quatro anos, e ao canto coral. Nesse período, participou de sua primeira montagem, “Os Saltimbancos”, experiência que marca o início de sua relação com o palco.
Pouco depois, por incentivo do professor, assistiu ao musical “Victor ou Victoria” e identificou ali uma possibilidade concreta de atuação no mercado. “Me lembro de ter pensado sem alarme ou deslumbre: ‘Ah, tá, então é assim que trabalha quem faz o que eu faço (risos).’”, recorda ela, reconhecendo ali uma possibilidade concreta de caminho.
Sua trajetória profissional se inicia nos musicais aos 22 anos, quando integra o elenco de “A Família Addams” como cover de Mortícia, interpretada por Marisa Orth. A partir daí, passa a acumular trabalhos em produções de diferentes perfis, com destaque para personagens como Belisa Passaláqua, em “Se Essa Lua Fosse Minha”, de Vitor Rocha e Elton Towersey, e sua participação em “A Pequena Sereia”, onde atuou como cover de Ariel em diversas apresentações, papel interpretado por Fabi Bang.
Também integrou o elenco de “Cabaret Kit Kat Club” como cover de Sally Bowles, personagem igualmente vivida por Fabi Bang. Ao longo dos anos, esteve como cover de quatro protagonistas, função que demanda prontidão constante e domínio técnico para assumir a condução do espetáculo em cena.
Marisol Marcondes - Caio GallucciA formação multidisciplinar acompanha sua trajetória desde a infância. Marisol iniciou seus estudos ainda em Vinhedo, com aulas de ballet, jazz, teatro e canto coral, e manteve esse processo de aprendizado ao longo da carreira.
Aos 22 anos, passou a ter aulas particulares de canto, aprofundando sua preparação vocal de forma mais direcionada, em um percurso contínuo que se articula diretamente com sua atuação profissional no teatro musical.
Nos últimos anos, também passou a se dedicar a estudos voltados ao audiovisual, ampliando seu campo de atuação. “Certamente, a interpretação é a linguagem que mais me define”, afirma.
O protagonismo em “Flashdance” surge após um período específico de sua trajetória. Após alguns resultados negativos em processos de audição, situação inédita em sua carreira, a atriz passou a se dedicar também a outras frentes e integrou o elenco de “O Mercador de Veneza”, espetáculo de teatro de prosa em turnê nacional ao lado de Dan Stulbach, retomando esse tipo de trabalho após anos dedicada majoritariamente ao musical. “Avalio meu caminho como sendo sempre de muita garra, muitas conquistas e muita preparação para esse papel”, afirma.
A conquista do papel para viver Alex Owens veio após um processo de audições que se estendeu por seis dias e exigiu resistência física e emocional. Durante essa etapa, enfrentou inclusive um quadro de intoxicação por monóxido de carbono, que impactou sua condição vocal nos momentos finais dos testes.
Ainda assim, seguiu no processo e associa sua escolha ao repertório artístico desenvolvido ao longo dos anos. “Acredito que minha maturidade cênica e minha paixão pelo ofício possam ter sido fatores considerados na minha escolha.”
Essa trajetória também se conecta diretamente à personagem que agora leva aos palcos. Marisol começou a trabalhar aos 15 anos, em funções fora do universo artístico, para custear seus estudos em dança, canto e teatro, conciliando diferentes funções ao longo do caminho, em um percurso que dialoga com a dimensão de esforço, autonomia e construção presente na narrativa de “Flashdance”.
Em cena, constrói uma personagem atravessada por força, desejo e vulnerabilidade, em um trabalho que mobiliza simultaneamente corpo, voz e emoção ao longo da encenação.
A partir desse momento, Marisol projeta a continuidade no teatro musical, com interesse em personagens que ampliem sua investigação artística e aprofundem seu percurso em cena. Ao mesmo tempo, segue investindo na formação e no desenvolvimento de projetos voltados ao audiovisual, área que vem estudando nos últimos anos.
O foco está na ampliação de sua atuação em diferentes linguagens, com interesse em séries, filmes e televisão, em um movimento que articula sua experiência nos palcos com novas possibilidades de trabalho.
A atriz é a Capa exclusiva do Correio B+ desta semana, e em entrevista ao Caderno ela fala sobre carreira, trajetória e o sucesso no musical "Flashdance" em São Paulo.
A atriz Marisol Marcondes é a Capa exclusiva do Correio B+ desta semana - Foto: Brunno Rabelo - Diagramação: Denis Felipe - Por: Flávia VianaCE - Você começou no teatro muito cedo, ainda criança. Quando olha para essa menina que se apresentava em qualquer espaço possível, o que você reconhece nela hoje — e o que mudou completamente na sua relação com o palco?
MM - Sim, comecei aos 7. Reconheço quase tudo nela, mas, por sorte, fui ganhando mais segurança, pois, uma vez, quando criança, numa brincadeira com a turma de dança, ganhei uma faixa de “Miss Não Consigo”, de tanto que eu falava que não conseguia fazer as coisas rs. Acho que nada mudou completamente na minha relação com o palco - só fui amadurecendo essa confiança.
CE - Ao longo da sua trajetória, você passou por funções como ensemble e cover, que exigem uma disciplina muito específica. Como essas experiências moldaram a artista que você é hoje e de que forma elas aparecem no seu trabalho como protagonista?
MM - Aprimoraram minha agilidade para resolver problemas, minha prontidão para imprevistos, improvisos e mudanças. Acredito que isso apareça no meu trabalho como protagonista principalmente através de mais segurança e presença em cena.
CE - Assumir um papel como Alex, em Flashdance, envolve não só técnica, mas também resistência emocional. Em quais momentos do processo você se viu mais vulnerável e o que fez para atravessar isso?
MM - Quando, num ensaio, acabei me identificando demais com coisas da história da Alex, me emocionei além da conta e me permiti ser completamente vulnerável naquele momento, para expurgar de uma vez.
E também durante uma apresentação, em que eu estava com exaustão física (dentre outros problemas) e muito ansiosa. Como estudo autoconhecimento e técnicas de meditação, respirei fundo e consegui me autorregular. Nos dois momentos, tive o apoio essencial do elenco incrível e amoroso do musical.
CE - Existe uma ideia romantizada sobre o protagonismo, mas, na prática, ele vem acompanhado de pressão e responsabilidade diária. Como você lida com essa constância de “ter que estar bem” todos os dias?
MM - Muito autoconhecimento, exercícios de respiração e também lembrar constantemente o quanto eu amo estar no palco. Não sou um robô e sei que não estou bem todos os dias, ainda mais num musical que exige tanto fôlego. Me esforço para dar o meu melhor sempre e torço para que as pessoas saiam tocadas com a história e contagiadas pela minha entrega, mais do que analisando minhas técnicas.
CE - O espetáculo exige muito do seu corpo, especialmente na dança. Como é a sua relação com o preparo físico hoje? Existe um cuidado que vai além do palco para sustentar essa rotina?
MM - Quando esse teste apareceu, eu estava completamente fora da minha rotina de bailarina. Estava bem focada nos meus estudos de interpretação para audiovisual, mas, por sorte, eu estava fazendo academia. Desde que passei, intensifiquei os treinos de cardio e venho tentando manter essa preparação.
CE - A cena da água é um dos momentos mais aguardados pelo público, mas também envolve técnica e risco. Como foi transformar uma cena tão icônica em algo que funcione ao vivo, noite após noite?
MM - É diferente levar uma cena icônica de um filme, que é vista na tela com zoom e outros recursos, para o palco de um teatro.
As proporções acabam ficando um pouco diferentes e as soluções precisam ser mais práticas, ainda mais num palco com fios, cenário e pessoas dançando, onde existe risco de escorregar. Mas dizem que, com a luz, essa cena fica muito bonita no palco.
CE - Você comentou que não costuma planejar tanto a carreira, mas, ao mesmo tempo, demonstra clareza sobre o que quer explorar artisticamente. Como você equilibra esse instinto com as decisões profissionais que precisa tomar?
MM - Costumo usar muito a minha intuição, mas sempre associada ao que eu sinto, ao que realmente quero fazer. Ao mesmo tempo, também analiso de forma prática os prós e contras dos projetos para os quais sou convidada ou passo na audição.
A atriz Marisol Marcondes é a Capa exclusiva do Correio B+ desta semana - Foto: Caio Gallucci - Diagramação: Denis Felipe - Por: Flávia VianaCE - O desejo de migrar para o audiovisual aparece como um próximo passo. O que te atrai nesse formato e que tipo de personagem ou narrativa você gostaria de encontrar nesse novo território?
MM - Na verdade, sempre fui atraída por esse formato e já estudo há um tempo. Me interesso por praticamente todos os formatos de interpretação e gosto de me expandir (tanto no CPF quanto no CNPJ hehe). Adoraria encontrar uma personagem com um arco interessante, dentro de uma narrativa com uma história relevante.
CE - Em um mercado competitivo como o teatro musical, quais foram os momentos mais desafiadores da sua trajetória até aqui, aqueles em que você precisou insistir mesmo sem garantias?
MM - Os momentos mais desafiadores são as chamadas “entressafras”, principalmente porque moro sozinha em uma cidade cara como São Paulo, apesar de amar viver aqui. Acho que ser artista é, o tempo todo, insistir sem ter garantia.
CE - Hoje, vivendo seu primeiro grande protagonismo, que tipo de artista você sente que está se tornando e o que ainda está em construção dentro de você?
MM - Acho que, cada vez mais, me consolido como uma artista versátil. Tudo ainda está em construção dentro de mim. A minha versão escritora, por exemplo, ainda engatinha dentro de casa hehe - quem sabe um dia ela não aprende a andar e depois corre para os palcos?
CE - Pensando em projetos futuros, têm algo já em andamento que queira compartilhar?
MM - Ainda não! Aliás, em breve estarei disponível. Produtores: podem me chamar para os projetos futuros hehehe