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FESTIVAL DE CINEMA

Com programação gratuita, Bonito CineSur 2026 reúne produções de 13 países

Com programação gratuita, o festival agrupa filmes da América do Sul, fortalece o audiovisual do continente e transforma a cidade de Bonito em um espaço de intercâmbio cultural, debates ambientais e formação profissional cinematográfica

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Bonito, um dos destinos de ecoturismo mais conhecidos do Brasil, voltará a ser palco de um encontro entre diferentes culturas, idiomas e olhares sobre a América do Sul.

Entre os dias 24 de julho e 1º de agosto, a cidade sul-mato-grossense recebe a 4ª edição do Bonito CineSur – Festival de Cinema Sul-Americano, evento que já se consolidou como um dos principais espaços de exibição, intercâmbio e reflexão sobre a produção audiovisual do continente.

O festival une cinema, meio ambiente, turismo, formação profissional e desenvolvimento regional.

Durante nove dias, salas de exibição, centros culturais e praças públicas de Bonito serão ocupados por uma programação gratuita que inclui mostras competitivas, oficinas, debates, palestras e encontros entre realizadores, estudantes e o público.

Criado em 2023, o festival recebeu, em sua primeira edição, 657 inscrições. Neste ano, esse número chegou a 905 obras inscritas, representando um aumento de aproximadamente 37%.

Ao todo, desde sua criação, o evento já contabiliza 3.184 filmes inscritos, entre curtas e longas-metragens vindos da Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Guiana Francesa, Paraguai, Peru, Suriname, Uruguai e Venezuela.

Os números também revelam o crescimento do interesse do público. Se a estreia reuniu cerca de 4,2 mil espectadores, a terceira edição, realizada em 2025, alcançou 9 mil participantes. No acumulado, mais de 18,2 mil pessoas já acompanharam as atividades promovidas pelo festival.

AMÉRICA DO SUL

Idealizado como um espaço de integração continental, o Bonito CineSur nasceu com a proposta de aproximar as cinematografias sul-americanas, muitas vezes, pouco conhecidas fora de seus próprios países.

Para o diretor do festival, Nilson Rodrigues, a iniciativa busca criar pontes entre culturas e fortalecer a circulação das produções realizadas na região.

“Bonito é um excelente cenário para iniciar um debate de integração da América do Sul, tornando-o um bloco econômico e social. Há um grande mercado a ser explorado, são muitos países, muita gente e um grande potencial”, afirma.

Segundo ele, um dos desafios ainda enfrentados pelo audiovisual latino-americano é fazer com que as obras ultrapassem as fronteiras nacionais.

“É preciso conhecer a riqueza da produção realizada aqui e criar condições para que haja circulação entre elas nos países do continente”, completa.

Essa vocação integradora aparece tanto na programação quanto na composição da equipe curatorial, formada por profissionais reconhecidos do Brasil e de outros países, entre eles o jornalista e crítico José Geraldo Couto, a produtora argentina Cecilia Diez, o pesquisador Rodrigo Fonseca, a produtora Luciana Druzina e a jornalista Elis Regina.

NARRATIVAS

Realizado em uma cidade localizada no entorno do Parque Nacional da Serra da Bodoquena, o Bonito CineSur também se diferencia pela valorização de obras que dialogam com questões ambientais e sociais.

As produções selecionadas abordam temas como mudanças climáticas, povos originários, memória, conflitos por terra, desigualdade, identidade cultural, imigração e preservação dos recursos naturais.

A Mostra Competitiva Ambiental reúne documentários e filmes que apresentam diferentes perspectivas sobre a relação entre sociedade e natureza.

Entre eles estão “Mundurukuyü – A Floresta das Mulheres Peixe”, produção brasileira sobre a cosmologia do povo Munduruku; “El Camino del Agua”, do Peru, que retrata a resistência de comunidades diante da mineração; e “Páramos II – El Origen”, da Colômbia, dedicado à preservação dos ecossistemas andinos.

Outro destaque é “À Margem do Fim”, documentário brasileiro que revisita as enchentes históricas de 2024 no Rio Grande do Sul e discute a urgência da justiça climática.

Segundo Nilson Rodrigues, as escolhas da curadoria refletem questões que atravessam toda a América do Sul.

“São filmes que olham para identidades, deslocamentos, conflitos sociais, memória, meio ambiente, relacionamentos e distintos modos de vida. Ter a presença de Paulina García como homenageada é um gesto de reconhecimento de uma das maiores expressões do cinema no nosso continente”, explica.

PRODUÇÕES DE MS

Além de promover o intercâmbio internacional, o Bonito CineSur dedica um espaço exclusivo às produções de Mato Grosso do Sul.

A Mostra Competitiva Sul-Mato-Grossense apresenta obras realizadas entre ano passado e este ano, revelando a diversidade de temas e linguagens produzidas no Estado.

Entre os longas selecionados está “Ao Sul do Sol”, de Rodolfo Ikeda, documentário que aproxima a imigração japonesa das culturas indígenas do Pantanal.

Já “Natasha” acompanha a jornada de um grupo de amigas drag queens em uma viagem pelo interior do Estado, enquanto “Filhos do Litoral Central” mistura música e estrada em uma travessia pelo Pantanal.

A presença dos povos originários também ocupa papel importante na seleção. “Mapago” acompanha a trajetória de uma jovem indígena Guató que sonha em ser cantora, enquanto “Vípuxovuko – Aldeia” registra a luta de uma comunidade terena contra a perda de seu território.

Outro destaque é “Higa Ke – Olho por Olho”, documentário que revisita a trajetória do fotojornalista Roberto Higa e, por meio de suas imagens, resgata parte da memória recente da região de fronteira.

ECONOMIA CRIATIVA

Além das exibições, o 4º Bonito CineSur investe na formação de novos profissionais do audiovisual.

A programação inclui oficinas, cursos, palestras e rodas de conversa voltadas para estudantes, pesquisadores, realizadores e moradores da cidade. As atividades buscam estimular a qualificação profissional e ampliar o acesso ao cinema como ferramenta de educação e transformação social.

Ao mesmo tempo, o festival movimenta a economia criativa local. A edição de 2025 contou com a participação de aproximadamente 60 instituições públicas e privadas e gerou a contratação de cerca de 250 serviços profissionais ligados à produção cultural, além de impulsionar setores como hotelaria, gastronomia e transporte.

A terceira edição também alcançou ampla repercussão nacional, registrando 1.665 inserções na imprensa e mais de 619 mil pessoas impactadas nas redes sociais.

> “Propiedad privada prohibido pasar”

bcs26 mostra longa ambiental 5 propiedad privada prohibido pasar 1_1Mostra “Propiedad privada prohibido pasar”: Os habitantes da Patagônia não têm onde morar. Na região conhecida por sua vasta estepe pouco povoada, uma professora, uma pescadora e um casal mapuche – entre outros – não conseguem encontrar lugar para construir suas casas. O filme retrata a luta por terras em uma das regiões menos povoadas do planeta, onde os interesses imobiliários e turísticos atuais perpetuam a injusta história da conquista.
Foto: Reprodução

> “A vida de Jerônimo dentro e fora de casa”

Mostra “A vida de Jerônimo dentro e fora de casa”: Jerônimo é um jovem da periferia que tenta emplacar o sonho de se tornar MC de funk cantando suas rimas para ajudar nas vendas com o carro do ovo de seu pai, que desacredita do sonho de seu filho.
Foto: Reprodução

> “Fronteiriças”

bcs26 mostra filme ms 3 fronteiricas 01Mostra “Fronteiriças”: O documentário investiga o cotidiano de mulheres assentadas em um dos maiores assentamentos da América Latina, hoje Distrito de Nova Itamarati, em Ponta Porã, região de fronteira entre o Brasil e o Paraguai. Por meio de entrevistas, arquivos e roda de conversa, o filme aborda as singularidades de ser uma mulher do campo em uma fronteira marcada pelas disputas de terra e pela hibridação cultural e econômica entre os países.
Foto: Reprodução

> “Hipopótamos, el arca de Escobar”

bcs26 mostra curta ambiental 4 hipopotamos el arca de escobar 1_1Mostra “Hipopótamos, el arca de Escobar”: A obra explora a presença dos hipopótamos como espécie invasora na região do Magdalena Medio, na Colômbia. O filme parte da história dos quatro hipopótamos trazidos por Pablo Escobar nos anos 1980 e que hoje já somam mais de 170 animais na região, representando a ameaça de uma iminente crise ambiental e social por conta da sua presença, reprodução e expansão descontrolada.
Foto: Reprodução

> Naira

bcs26 mostra sul americana longa 5 naira 01Mostra “Naira”: Em um povoado andino, Naira, uma menina de 9 anos, tenta salvar sua mãe dos abusos e da miséria construindo um par de asas para se transformar em condor e fugir em busca de uma vida melhor.
Foto: Reprodução

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Diálogo

Tem deputado que descobriu um jeito, digamos, elegante de mandar... Leia na coluna de hoje

Leia a Coluna Diálogo desta terça-feira (14)

14/07/2026 00h02

Diálogo

Diálogo Foto: Arquivo / Correio do Estado

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Cecília Meireles - escritora brasileira

"Aprendi com as primaveras a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira”

FELPUDA

Tem deputado que descobriu um jeito, digamos, elegante de mandar recado ao Governo: basta aparecerem trechos esburacados nas rodovias de MS para cobrar providências imediatas. A pauta, claro, é a conservação das estradas. Mas, nos bastidores, a leitura é outra. Quando a reclamação ganha tom de forma constante, deixa de ser apenas preocupação com a situação. Em ano de eleição, buraco também serve de outdoor político. Vale lembrar que tais problemas estão sendo “descobertos” somente agora, atribuindo-se à “queixas de moradores”. Huum...

Na sola

De olho em 2026, o deputado federal Beto Pereira buscou em São Paulo o respaldo do governador Tarcísio de Freitas e do presidente nacional do Republicanos, Marcos Pereira.

Mais

Apoio partidário é importante, mas a avaliação é outra: voto se conquista mesmo é percorrendo as ruas empoeiradas de MS. Palanque ajuda, mas sola de sapato continua sendo insubstituível.

DiálogoFoto: Arquivo Pessoal

A UFMS de Chapadão do Sul acaba de alcançar um marco importante. A pesquisadora Karoline Günther Morata tornou-se a primeira doutora formada pelo Programa de Pós-Graduação em Agronomia do câmpus. E estreou em grande estilo. Sua pesquisa desenvolveu uma tecnologia que combina sensores de alta precisão e inteligência artificial para identificar nematoides – os vermes que atacam as raízes de soja e algodão – antes mesmo de aparecerem os sintomas nas plantas. Assim, o produtor poderá agir mais cedo, reduzindo prejuízos e aumentando a produtividade. O estudo é considerado pioneiro e reforça o protagonismo da UFMS na produção de conhecimento voltado ao agronegócio.

DiálogoKamily Yuuna Kaibara Kubota, representante de MS, foi eleita Miss Nikkey Brasil durante a final realizada em São Paulo, dia 11 - Foto: Divulgação

 

DiálogoGiulianna Arcuri - Divulgação

Curto-circuito

A base da prefeita Adriane  Lopes anda mais parecida com oposição de si mesma. Na Câmara Municipal de Campo Grande, aliados trocam farpas com frequência preocupante. O clima esquentou tanto que o caso foi parar no Conselho de Ética. Um vereador teria insinuado que outro colega seria corrupto. Depois da acusação, o ambiente passou a ter, dizem, vários fios em curto-circuito. Assim, quem deveria defender a administração agora precisa acalmar os próprios aliados. Afe!

Recado

A carta de Jair Bolsonaro teve efeito imediato em Mato Grosso do Sul. Ao colocar Flávio como pré-candidato ao Planalto, também reorganizou o tabuleiro. Entre as peças que perderam espaço está o deputado Marcos Pollon. A esperança de disputar o Senado pelo PL ficou ainda mais distante. Quando o recado vem da principal liderança do partido, sobra pouco espaço para interpretação. Na política, certas cartas não admitem réplica.

No corredor

Na eleição passada, Pollon foi o deputado federal mais votado de MS. O resultado alimentou a expectativa de ocupar a famosa “janelinha” do partido. Tentou viabilizar candidatura ao governo e encontrou a porta fechada. Inconformado, disparou críticas pesadas contra a cúpula do PL. O tempo passou, o cenário mudou e os ventos sopraram em outra direção. Na política, prestígio também tem prazo de validade. Quem sobe pelo elevador da votação pode descer pela escada da realidade. 

Aniversariantes

Maira Lúcia Pires de Rezende,
Marcos Vinicius Abreu Silva,
Vera Silvia Saad, 
Dr. Julizar Barbosa Trindade Júnior,
Mariana Braga,
Vania Cardoso, 
Altidor Garcia Lima Filho,
João Francischini Filho,
Maria Tereza Oliveira Franco,
Paulo Sérgio Sombra de Souza, 
Roseli Maria Cervi Kohl,
Sérgio Guimarães Dias,
João Cação,
Milton Oliveira da Silveira,
Paulo Cesar de Oliveira,
Carmem Lucia de Pierre Dalberto,
Marcelo Poy Frainer,
Thiago Segatto de Faria, 
Antônio Russo Netto,
Thiago Brandão,
Eduarda Almeida dos Reis,
Andréa Brandão,
Leonilce Gubert Brodzinski,
Noely Rabello de Barros Trindade,
Ana Patricia Saldanha Rodrigues,
Gilberto Roman Dias,
Marcílio Alves da Silva,
Maria Carolina El Daher,
Elso Gaban Júnior, 
Thiago Moura Nacer,
Mario Marcio Neres Dias,
Rubens de Carvalho,
Jorge Veimar Sayd Pinto,
Edna Knust Modesto,
Juliana Comparin,
Margareth Barbosa Medeiros,
Clovis Mareco,
Nedir Martins da Silveira,
Dr. Abdala Naufal,
Rubens Marques dos Santos,
Adonias Moreira de Souza Junior,
Ana Paula Rezende Munhoz,
Marcos Roberto Carvalho de Melo, 
João Câncio Alves Marques,
Maria Denise Pereira,
Estevan Caporossi,
Maria Waleska Bogalho Nogueira,
Renato Corrêa Gamba, 
Dra. Leila Borges Caminha Dias,
José Walbran Jucá,
Gilce Filartiga,
Domingos Sávio Gomes da Silva,
Waldir Coelho,
Benedito Freire,
Alair Aluísio Benevides,
Neuso de Melo,
Nubielli Dalla Valle Rorig,
Regis Fernando Oliveira Barbosa,
Brasília Lopes,
Norma Segovia,
Ana Carla Salomão Budib,
Eduardo Souza Neto,
Rosângela Valério Vilanova,
Cristina de Barros Faria,
Ruben Pedro da Rosa Angelini,
Júlio Fucuta Kotaro,
Dan Kjaer,
Augusto César Alexandre,
Suzete Maria Proença,
Suellen Ingrid Rossi Rodrigues,
Milane Ribeiro Toledo, 
Acir Silva Nascimento,
Helen Cristina Cabral Ferreira,
Miziane Garcia Freitas,
Juliane Laudisio Felicio,
Joacil Ferreira Gomes,
Abel Pavão da Silva,
Lourivaldo Nogueira Rodrigues,
Sebastião Amorim,
Boaventura Baptista, 
Leonardo de Souza, 
Geanne Lobo,
Alberto Zeiger, 
João Ribeiro Homem,
Lurdes Braga Fracalossi,
Veneide Galano Gonçalves Abrahão,
Camila Alacon Gomes,
Syrlo Fernandes Vieira,
Maria Augusta da Costa Nogueira,
Abel Moreira Júnior, 
Roza Vanilde Demundo,
Frederico Otto Filho,
Valéria Cristina Santos de Andrade,
Alisson da Silva Alvarenga,
Celso de Arruda,
Elair Prates Duarte,
Willian de Carvalho,
Jorge Antônio Bataiotti,
Fábio Leite Brandalise,
Aroldo Calves Dias,
Nelson Garragori Graces Lopes,
Osmar Reis de Siqueira,
José Rodolfo Marinho,
Luiz Guilherme Viana Nunes Carneiro,
Elizandra Nunes Pagani,
Maria Inês Domingues Castilho,
Fernando Cassiatori Gonçalves Bravo,
Andreia Carla Secretti Schwingel,
Daniela Brostolin da Costa.

Colaborou Tatyane Gameiro

feira literária

Itamar Vieira Junior defende literatura como instrumento de memória, justiça e esperança

Autor de "Torto Arado" afirma que a arte nasce do incômodo, preserva experiências humanas e amplia o debate sobre as desigualdades brasileiras

13/07/2026 17h03

Itamar Vieira Jr., autor de Torto Arado

Itamar Vieira Jr., autor de Torto Arado Mariana Piell

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Um dos escritores brasileiros mais importantes da atualidade, Itamar Vieira Junior levou à Feira Literária de Bonito (FLIB) uma reflexão que ultrapassa as páginas de seus livros. Autor do premiado Torto Arado, fenômeno editorial traduzido para dezenas de países, ele falou sobre literatura, direito à terra, memória, identidade, liberdade de expressão e os desafios sociais que continuam marcando o Brasil.

Ao longo da conversa, Itamar defendeu que a literatura não é apenas uma forma de entretenimento, mas um espaço de reflexão capaz de preservar memórias, dar voz às experiências humanas e estimular o debate sobre questões históricas que permanecem atuais.

"A arte é a expressão humana talvez mais sofisticada que existe. Ela não existe sozinha, existe acompanhada da imaginação, desse poder de criação que pertence a todos nós", afirmou.

Segundo o escritor, toda obra nasce de um incômodo. Para ele, escrever é um processo de investigação da própria realidade e da experiência coletiva.

"Escrever não é só escrever. Esse ato é acompanhado por uma grande fonte de reflexão, para que eu pense o mundo e uma história particular que quase sempre se replica em uma história coletiva", concluiu.

Esperança em meio às dores

Embora seus romances abordem temas como violência, desigualdade e conflitos sociais, Itamar acredita que suas histórias também carregam esperança.

Ao explicar esse equilíbrio entre dureza e afeto presente em suas obras, ele afirmou que essa característica faz parte da própria identidade brasileira.

"Apesar da dureza da nossa história e do nosso cotidiano, temos uma enorme capacidade de projetar um futuro diferente", afirmou.

Para o autor, o Brasil sobreviveu a processos traumáticos como a colonização, a escravidão e o genocídio dos povos indígenas sem perder completamente sua capacidade de imaginar outro futuro.

Ele também observou que, embora veja um país atualmente mais dividido politicamente, os brasileiros ainda conseguem encontrar pontos de união em manifestações culturais e populares.

O valor da terra

Tema central de Torto Arado, a relação entre as pessoas e a terra voltou a aparecer durante a conversa. Itamar destacou que o maior desafio vivido atualmente por comunidades quilombolas, indígenas e tradicionais continua sendo a garantia de seus territórios.

Segundo ele, a legislação brasileira possui instrumentos capazes de proteger essas populações, mas a aplicação dessas leis esbarra em disputas políticas e burocracias históricas.

"A terra não é apenas um bem econômico. Essa relação é muito maior. É uma relação vital, simbiótica", defendeu.

O escritor afirmou que assegurar o direito à terra significa preservar histórias, culturas e modos de vida.

"Se não temos um chão para pisar, uma casa para morar ou um campo para trabalhar, tudo isso está em risco", pontuou.

Ao recordar sua trajetória como servidor do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), onde trabalhou por 17 anos, Itamar lembrou dos inúmeros conflitos fundiários que presenciou e das lideranças ameaçadas e assassinadas durante esse período.

Segundo ele, essa vivência foi determinante para a construção de Torto Arado.

"Essa experiência me permitiu apresentar aos leitores um Brasil que muitas vezes não é observado, que é esquecido", afirmou.

Literatura que preserva 

Questionado sobre o papel da literatura na preservação da memória dos povos tradicionais, Itamar afirmou que os livros permanecem como registros históricos, mas possuem uma capacidade única de guardar também aquilo que dificilmente aparece em documentos oficiais: os sentimentos.

"A literatura trata da experiência humana. Ela registra não apenas a memória e a história, mas também a dimensão afetiva e subjetiva da vida", pontuou.

Para ele, justamente por depender da imaginação tanto de quem escreve quanto de quem lê, a literatura consegue alcançar aspectos profundos da existência humana.

Ele também destacou que essa liberdade criativa precisa ser preservada.

"A literatura não pode se censurar. Ela precisa ser livre e dar voz à imaginação", defendeu.

Longa jornada

Durante a entrevista, o escritor também falou sobre como sua atuação profissional influenciou diretamente sua produção literária.

Ele revelou que a primeira versão de Torto Arado foi escrita cerca de vinte anos antes da publicação do romance, quando ainda conhecia a realidade rural apenas pelas histórias contadas dentro de casa.

Foi somente depois de trabalhar no Incra e visitar comunidades quilombolas e assentamentos que conseguiu dar profundidade à narrativa.

"A imaginação se alimenta da vida,", afirmou.

Segundo ele, a convivência direta com essas comunidades permitiu construir personagens mais complexos e apresentar aos leitores um Brasil frequentemente invisibilizado.
 

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