A expansão da oferta de gás natural no Brasil deverá ter papel estratégico para garantir o abastecimento da Unidade de Fertilizantes Nitrogenados III (UFN3), em Três Lagoas, justamente em um momento em que Mato Grosso do Sul enfrenta a redução do fornecimento do combustível pela Bolívia.
Com novos projetos de produção e escoamento, a oferta de gás no País deve crescer cerca de 50% na próxima década, passando de 58 milhões de metros cúbicos para 87 milhões de metros cúbicos por dia entre este ano e 2035, conforme dados citados pelo jornal O Globo.
O aumento abre espaço para que consumidores industriais de grande porte, como a futura fábrica de fertilizantes, sejam abastecidos por gás produzido no Brasil.
A mudança ganha importância diante da trajetória do gás boliviano.
O Correio do Estado já mostrou que o volume enviado ao Estado caiu para entre 10 milhões de metros cúbicos e 12 milhões de metros cúbicos por dia, muito abaixo dos 30 milhões de metros cúbicos diários que chegaram a ser transportados pelo Gasoduto Bolívia-Brasil (Gasbol).
A perspectiva é de continuidade da redução, com possibilidade de encerramento das importações até 2030.
A UFN3, que deverá entrar em operação em 2029, foi originalmente planejada em um cenário de forte dependência do gás boliviano. A fábrica foi projetada para consumir de 2,3 milhões de metros cúbicos a 2,5 milhões de metros cúbicos de gás natural por dia, utilizado como matéria-prima para produzir amônia e ureia.
QUEDA
O cenário atual, porém, é diferente daquele existente quando o projeto foi concebido.
A queda da produção boliviana chegou a colocar em dúvida a capacidade de abastecimento da unidade e, em 2022, o risco chegou a ser de a UFN3 operar inicialmente apenas como misturadora de fertilizantes, sem utilizar o gás para fabricar amônia e ureia.
Posteriormente, a avaliação do governo do Estado passou a considerar outras alternativas para garantir o combustível.
Em abril, o gerente-executivo de projetos de desenvolvimento da Produção e Descomissionamento da Petrobras, Dimitrios Chalela Magalhães, afirmou ao Correio do Estado que a redução da produção boliviana não deveria impedir a operação da fábrica.
“Se, eventualmente terminar o gás vindo da Bolívia, nós usamos o novo gás que vai estar na malha brasileira”, explicou. “A gente reverte o fluxo, e coloca o gás para dentro da UFN3”, acrescentou Magalhães, que é responsável pela obra de retomada da fábrica de fertilizantes.
Agora, o crescimento da produção brasileira acrescenta essa possibilidade de substituir gradualmente a dependência do gás importado por molécula produzida no País.
A reportagem de O Globo destaca que novos projetos, especialmente no pré-sal, devem elevar significativamente a disponibilidade nacional. Entre os empreendimentos estão o projeto Raia, na Bacia de Campos, e novas plataformas previstas para Sergipe e Alagoas.

EXPANSÃO
A expansão da oferta nacional é importante porque a UFN3 não utiliza o gás apenas como fonte de energia. O combustível é a matéria-prima do processo industrial que transforma o gás em amônia e, posteriormente, em ureia.
A unidade de Três Lagoas terá capacidade para produzir cerca de 3.600 toneladas de ureia e 2.200 toneladas de amônia por dia. A produção poderá reduzir a necessidade brasileira de importar fertilizantes nitrogenados, em um mercado no qual o País ainda depende fortemente do produto estrangeiro.
A localização da fábrica também favorece a estratégia. Três Lagoas está próxima de importantes áreas produtoras de grãos do Centro-Oeste e do Sudeste, regiões que concentram parte relevante da demanda por fertilizantes.
A mudança na matriz de fornecimento ocorre, portanto, em um momento em que Mato Grosso do Sul precisa se adaptar ao fim de um ciclo.
Durante décadas, o gás boliviano foi uma das principais fontes de abastecimento do Estado e também uma importante fonte de arrecadação.
A redução das importações já provocou perda bilionária de receita para os cofres estaduais. Em 2025, o Estado importou cerca de US$ 807,9 milhões em gás natural, contra US$ 2,289 bilhões em 2015.
Nesse cenário, o avanço da produção brasileira ganha importância não apenas para a indústria estadual, mas especificamente para a UFN3. A fábrica que nasceu dependente do gás boliviano poderá iniciar sua operação em um mercado com maior participação do gás nacional.
A mudança reduz o risco de que a queda da produção boliviana se transforme em um novo obstáculo para o funcionamento da unidade e coloca a expansão do gás brasileiro como uma das peças para viabilizar a produção de fertilizantes em Três Lagoas.



