Antonio Machado foi um dos poetas e escritores espanhóis mais importantes do século XX e uma figura central da Geração de 98. Em sua obra, refletiu sobre a vida, o passar do tempo, os sentimentos e a morte, temas que atravessam toda sua produção.
O paradoxo proposto pelo filósofo grego Epicuro há séculos encontrou eco em Machado, especialmente em "Juan de Mairena", publicada em 1936. Nela, o escritor retomou a célebre reflexão sobre por que não deveríamos temer a morte: enquanto vivemos, ela não existe; quando chega, nós já não estamos para senti-la.
O paradoxo de Epicuro que atravessa os séculos
Para Epicuro, a morte não deveria provocar angústia porque jamais coincide com nossa existência. O bem e o mal, sustentava o filósofo grego, dependem das sensações — e a morte representa justamente a ausência completa delas. Enquanto uma pessoa vive, ainda não está morta; quando chega o fim, não há mais um sujeito capaz de experimentar dor, sofrimento ou medo.
Esse raciocínio aponta uma verdade incômoda: o medo da morte está relacionado com antecipar uma experiência que nunca poderemos viver conscientemente. Gastar a vida preocupado com o fim significa sofrer por algo que ainda não aconteceu e que, quando acontecer, não poderemos vivenciar. É a antecipação, não a morte em si, que nos causa sofrimento.
Machado questiona a resposta lógica
Machado retomou essa ideia por meio de um professor fictício chamado Juan de Mairena, mas sem apresentá-la como solução definitiva. O escritor espanhol reconhecia uma lacuna fundamental: compreender racionalmente que não experienciaremos nossa própria morte é uma coisa; deixar de sentir angústia diante dessa possibilidade é bem outra.
Para Machado, a morte não era apenas um problema filosófico a resolver com argumentação lógica. Ela também atravessa toda a existência humana e condiciona a relação das pessoas com o tempo, as memórias e o futuro.
Na obra, o personagem questiona se é fácil, como afirma a expressão espanhola, "saltarse la muerte a la torera", já que ela nos acompanha durante toda a vida.
A distinção entre morrer e estar morto
Machado distingue morrer de estar morto, uma diferença que o poeta e compositor Gilberto Gil expressou em versos: "Não tenho medo da morte / Mas sim medo de morrer / Qual seria a diferença / Você há de perguntar / É que a morte já é depois / Que eu deixar de respirar", disse o compositor ao TN.
Epicuro nega o medo da ausência, mas não elimina necessariamente a preocupação com o processo de morrer, a dor ou a separação dos seres queridos. O medo racional diante do sofrimento pode ser enfrentado; o medo existencial, porém, permanece.
A reflexão permanece válida porque toca em algo que nenhuma filosofia resolve completamente: a morte está inscrita em nossa existência desde o nascimento e nos força a questionar o sentido da vida e a valorizar cada momento presente.
Em entrevista à CNN, Gil afirmou que a morte faz parte da vida e questionou como seria o instante final, se haveria dor e sofrimento e o que poderia fazer para que sua morte fosse digna. Essas indagações refletem a mesma tensão que Machado explorou: aceitar racionalmente a morte e lidar com a angústia existencial que ela provoca.






