Em 2017, engenheiros da RMIT University, na Austrália, incorporaram bitucas de cigarro ao asfalto. A equipe descobriu que a mistura suportava tráfego pesado e reduzia a temperatura das ruas.
O achado oferece uma forma prática de combater as ilhas de calor urbana e dar destino sustentável a resíduos altamente tóxicos. Feito de acetato de celulose, o filtro do cigarro é um dos poluentes mais persistentes das cidades. Bilhões de unidades descartadas anualmente vazam metais pesados em rios e solos e contaminam ecossistemas aquáticos por décadas.
Aproximadamente 4,5 trilhões dessas bitucas são lançadas globalmente no ambiente, criando um passivo ambiental que exige uma saída criativa.
Como os engenheiros neutralizaram a toxicidade
O pesquisador Abbas Mohajerani e sua equipe precisavam encapsular os poluentes para impedir vazamentos quando o pavimento entrasse em contato com água. Para isso, revestiram os filtros usados com betume e cera de parafina, formando uma barreira química que mantinha os metais pesados isolados na massa asfáltica.
Após o tratamento, os filtros revestidos foram incorporados diretamente ao asfalto aquecido, em diferentes proporções. Os testes laboratoriais revelaram que dosagens adequadas de filtros selados com betume suportaram os esforços exigidos pelo tráfego pesado.
Avaliações publicadas na revista Construction and Building Materials indicaram que a parafina atendeu apenas às demandas do tráfego leve, enquanto o betume garantiu o desempenho ideal para veículos pesados. O resultado mostrou que o tipo de isolamento define a aplicação prática do pavimento.
Os ganhos ambientais e térmicos do novo material
A transformação de lixo urbano tóxico em infraestrutura viável cria um modelo de economia circular: os resíduos saem dos aterros sanitários e viram pavimento durável. Com isso, diminui a necessidade de extrair minerais para produzir novos materiais e se elimina um passivo ambiental que causaria danos por longos períodos.
A mistura altera a densidade do asfalto convencional e aumenta sua porosidade, tornando os blocos viários estruturalmente mais leves sem comprometer a resistência mecânica. Como tem menor condutividade térmica, retém menos energia que o asfalto comum, reduz a temperatura da superfície das vias públicas e combate o fenômeno das ilhas de calor urbano.


