Recorde mundial

Brasileira bate recorde na travessia do maior deserto de sal do mundo

A marca antiga pertencia ao também brasileiro Valmor Giuseppe Leonardo.

A corredora mineira Fernanda Maciel cruzou o Salar de Uyuni. Na Bolívia, no dia 28 de setembro, em 19 horas, 50 minutos e 8 segundos, reduzindo em 13 horas o recorde anterior da travessia. O percurso de 172,8 quilômetros pelo maior deserto de sal do planeta foi cumprido a 3.700 metros de altitude.

A marca antiga pertencia ao também brasileiro Valmor Giuseppe Leonardo, que havia levado 33 horas, 4 minutos e 10 segundos para concluir o mesmo trajeto em maio de 2023, feito reconhecido pelo Guinness World Records. Fernanda superou essa referência em uma prova disputada em altitude elevada e terreno irregular.

Os desafios da travessia pelo deserto boliviano

Respirar e manter o ritmo em meio à baixa quantidade de oxigênio foi um dos pontos mais difíceis da prova, segundo relato da atleta ao jornal francês L'Équipe. Ela descreveu um cansaço generalizado ao fim do percurso, com as pernas tão castigadas que a passada perdia amplitude a cada quilômetro percorrido.

Ao longo do caminho, havia trechos alagados, lama e pequenos buracos que escondiam água subterrânea, conforme ela contou à publicação. O terreno mudava sem aviso dentro da mesma extensão de sal, e ela precisava prestar atenção a cada passo.

Metas além do deserto de sal

O radar de Fernanda vai além do Salar de Uyuni: ela também busca o menor tempo de escalada dos Sete Cumes, o conjunto com o ponto mais alto de cada continente. Cinco desses picos já estão no currículo da atleta — Aconcágua, Kilimanjaro, Elbrus, Pirâmide de Carstensz e Vinson.

Denali, na América do Norte, e o Everest, na Ásia, são os destinos que ainda faltam riscar da lista. Entre as marcas já alcançadas está a proeza de subir e descer o Aconcágua em menos de 24 horas, inédita entre mulheres.

Da advocacia ambiental ao topo do esporte

Antes das ultramaratonas, a mineira passou cinco anos como advogada ambiental, área em que via uma missão desde os 15 anos de idade, segundo relato divulgado por um patrocinador. Ela afirmou esperar que as pessoas enxerguem a força da natureza através de suas expedições e se sintam motivadas a preservá-la, conectando essa visão ao trabalho jurídico que exerceu antes.

O esporte sempre rondou a família da atleta: o avô foi campeão de jiu-jitsu, e o pai se tornou mestre de capoeira. Fernanda começou na ginástica artística ainda criança, antes de migrar para as corridas de aventura aos 23 anos, quando passou a disputar provas internacionais non-stop de 600 quilômetros.

Uma trajetória construída em diferentes modalidades

Com o tempo, o leque de atividades só cresceu: caiaque, mountain bike, trail running, snowboard, downhill, speed, triatlo e maratonas de montanha entraram na rotina de treinos da corredora. Com o tempo, a atleta ganhou destaque em competições internacionais de diferentes modalidades.

Hoje, aos 46 anos, Fernanda soma um histórico que une resistência física e conexão com ambientes extremos, construído ao longo de décadas de provas em diferentes continentes. Em declaração ao site de um patrocinador, ela afirmou que o objetivo vai além de bater recordes: busca mostrar a beleza e a resistência desses cenários para quem a acompanha.

O novo tempo cravado em Uyuni reforça essa trajetória e deixa a travessia do deserto de sal entre os capítulos mais marcantes da carreira da brasileira.

Histórico de desafios extremos que preparou Fernanda para Uyuni

Antes de atravessar o deserto de sal, Fernanda já havia acumulado proezas em ambientes igualmente hostis. No monte Vinson, na Antártida, ela completou a subida e descida em 9 horas e 41 minutos — normalmente um trajeto de cinco a sete dias — em temperatura de menos 36 graus Celsius, sem oxigênio suplementar e carregando seus próprios suprimentos.

Durante essa expedição, sofreu congelamento nas pontas dos dedos das mãos. Na Pirâmide de Carstensz, na Indonésia, conquistou recordes em uma montanha cercada por condições adversas: chuvas constantes, trilhas íngremes e área instável em zona de conflito civil. Depois dessa escalada, ela contraiu um parasita que a deixou debilitada por dias, incapaz de se alimentar adequadamente.

Essas experiências mostram que correr 170 quilômetros em deserto a 3.700 metros era apenas o próximo capítulo de uma trajetória já marcada por superação de extremos.

Reflexão e Filosofia

Edgar Allan Poe deixou uma reflexão sobre as quatro condições para ser feliz

Ideia contrasta com a tonalidade sombria de suas obras.

01/11/2026 14h16

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O escritor norte-americano Edgar Allan Poe, figura central da literatura de mistério e horror, formulou uma reflexão profunda sobre a felicidade que contrasta com a tonalidade sombria de suas obras mais célebres.

Em seu conto "O Domínio de Arnheim", publicado em 1847, Poe apresenta quatro pilares que considera essenciais para alcançar a plenitude: vida ao ar livre, amor de mulher, ausência de ambição e a criação de um novo e belo ideal.

Essa proposição revela uma faceta contemplativa e romântica do pensamento do autor, frequentemente associado aos contos góticos e às narrativas que exploram o terror psicológico. A estrutura que Poe apresenta oferece uma visão de felicidade fundamentada na simplicidade e na elevação espiritual, bem distante das complexidades que marcam sua ficção.

O contato com a natureza como regeneração

O primeiro elemento — vida ao ar livre — aponta para o contato direto com a natureza como fonte regeneradora de paz, inspiração e cura emocional. Para Poe, o afastamento do ambiente urbano e a imersão no mundo natural representam um caminho para restaurar a saúde da alma e recuperar o equilíbrio interior.

Essa valorização do espaço aberto reflete uma compreensão de que a vida moderna, presa entre muros e obrigações, afasta o ser humano de uma verdade essencial. A natureza funciona, nessa perspectiva, como antídoto contra a alienação e o cansaço acumulado pelas rotinas cotidianas.

O amor profundo e a parceria emocional

O segundo pilar — amor de mulher — vai além do romance superficial ou da atração passageira. Poe refere-se à conexão afetiva profunda, à parceria emocional e ao vínculo que transcende o físico, estabelecendo uma base sólida para a existência humana. Nessa visão, o afeto genuíno sustenta e valida a vida.

A ênfase nessa forma de amor revela a importância que Poe atribuía aos laços humanos autênticos como elemento fundacional da felicidade, longe de relações superficiais ou interesseiras.

Desprendimento da ambição material

A ausência de qualquer ambição constitui o terceiro fundamento da filosofia de Poe. Aqui, o autor critica o desejo por status, riqueza ou poder, enxergando a ambição mundana como uma força que desvia a pessoa de sua verdadeira natureza e a aprisiona em ciclos de insatisfação constante.

Essa crítica à ganância e ao individualismo predatório antecipa reflexões modernas sobre o vazio que a perseguição infinita de bens materiais deixa no ser humano. Para Poe, a libertação da ambição era um requisito indispensável para a paz interior.

O propósito criativo como bússola existencial

O quarto e último pilar refere-se à necessidade de criar um novo e belo ideal — um propósito que transcenda o cotidiano e as necessidades imediatas. Para Poe, essa busca pode ser artística, criativa ou espiritual, funcionando como uma bússola que orienta a existência e confere significado às escolhas diárias.

A criação de algo belo ou a elevação espiritual trazem propósito à vida, transformando a rotina em jornada com rumo definido. Sem esse ideal, a existência fica vazia de direção, reduzida apenas à sobrevivência.

A filosofia diante da vida turbulenta

Essa filosofia, embora expressa em meados do século XIX, revela uma compreensão precoce da importância do equilíbrio entre o material e o espiritual, entre a ambição exterior e a realização interior. A proposta de Poe sugere que a verdadeira riqueza reside não em acúmulos, mas em conexões genuínas e propósito transcendente.

A vida pessoal de Poe — marcada por perdas, dificuldades financeiras e uma luta constante contra seus próprios demônios interiores — torna essa reflexão ainda mais tocante. O contraste entre sua filosofia de felicidade e a escuridão de sua trajetória sugere que o escritor buscava em suas palavras uma verdade que sua própria existência nem sempre conseguiu alcançar.

Nascido em Boston em 19 de janeiro de 1809. Poe conheceu desde cedo a adversidade, e suas reflexões sobre a felicidade podem ser lidas como um testamento espiritual de quem compreendeu profundamente tanto o sofrimento quanto a beleza.

Por que a natureza funciona como antídoto contra a ambição

A valorização que Poe faz da vida ao ar livre conecta-se ao contexto do Romantismo, movimento que surgiu como reação contra o racionalismo científico e a urbanização provocada pela Revolução Industrial. Para os românticos, a natureza representava justamente o oposto da vida urbana e regulada — era o espaço onde a emoção intensa e autêntica podia florescer, longe das restrições da razão e da sociedade.

Quando Poe propõe o contato com a natureza como primeiro pilar da felicidade, ele está alinhado a essa compreensão romântica: o espaço aberto permite que o indivíduo escape das pressões e das ambições materiais que a vida social impõe, restaurando uma forma de existência mais autêntica e emotiva.

Reflexão e Poesia

A reflexão de Eça de Queiroz: "A todo viver corresponde um sofrer"

A afirmação sintetiza uma visão realista que atravessa toda a obra do autor.

01/11/2026 13h42

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O sofrimento não é um desvio da existência humana, mas parte estrutural e inevitável dela. Essa convicção aparece no pensamento do escritor português Eça de Queiroz e se condensa na frase "A todo viver corresponde um sofrer", publicada no livro póstumo A Cidade e as Serras, lançado em 1901.

A afirmação sintetiza uma visão realista que atravessa toda a obra do autor: a dor, a insatisfação e o tédio não representam falhas no curso da vida, mas componentes necessários da experiência de estar vivo. Para Queiroz, reconhecer essa verdade não leva ao desespero, mas à aceitação sincera de que a existência humana é complexa e multifacetada.

Essa perspectiva também enriquece, paradoxalmente, a apreciação dos momentos de alegria e paz, porque os situa no contexto mais amplo da condição humana. É nesse contexto que eles ganham profundidade, por conviverem com a dificuldade.

O progresso não redime o tédio existencial

No romance, o protagonista Jacinto encarna essa contradição moderna: cercado pelas maiores inovações tecnológicas e pelos luxos urbanos de Paris, ainda assim mergulha em profundo tédio e melancolia. A narrativa mostra que o avanço material não consegue eliminar o sofrimento existencial nem preencher o vazio interior do ser humano.

Nessa experiência de conforto excessivo, o personagem descobre que a ausência de dor material não equivale à presença de significado ou satisfação real.

Essa constatação marca uma transformação no pensamento do autor, e embora Eça de Queiroz seja reconhecido pela ironia ácida de obras anteriores, como Os Maias e O Crime do Padre Amaro. Eça adota, em sua fase final, um tom mais reflexivo e humanista.

Sua crítica às ilusões da modernidade deixa de ser apenas corrosiva para se tornar profundamente compassiva, reconhecendo a fragilidade comum a todos os seres.

O Realismo amadurecido de Queiroz

Eça de Queiroz (1845–1900) consolidou-se como um dos maiores nomes da literatura portuguesa e figura central do Realismo no país. Sua obra caracteriza-se por crítica social incisiva, estilo irónico apurado e análise psicológica profunda das personagens.

A reflexão sobre o sofrer inevitável corresponde ao espírito do século XIX, quando escritores e pensadores buscavam retratar a vida de forma objetiva. Sem embelezamentos e com foco nas contradições e nos aspectos mais árduos da condição humana.

As transformações sociais, políticas e econômicas que marcaram Portugal e a Europa naquele período alimentaram essa visão desencantada, mas profundamente humanista, da vida. O reconhecimento da fragilidade e da finitude inerentes ao existir não significa render-se à desesperança, mas sim enxergar a vida em sua plenitude real, tal como ela é, sem idealizações que mascarem suas contradições fundamentais.

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