Os isópodes gigantes que habitam as profundezas oceânicas conseguem passar mais de cinco anos sem se alimentar, revelou um estudo publicado em agosto na revista Cell. Essa capacidade extraordinária resulta de adaptações anatômicas e genéticas que reduzem drasticamente o gasto energético em um ambiente hostil, frio e com oferta irregular de comida.
Pesquisadores do Instituto de Oceanologia da Academia Chinesa de Ciências, da Universidade Chinesa de Hong Kong e da Universidade Politécnica do Noroeste identificaram o gene ND1 como mecanismo-chave para essa resistência extrema. Herdado de uma bactéria ancestral e incorporado ao DNA dos isópodes, esse gene funciona como regulador do metabolismo, permitindo economizar energia em condições de escassez prolongada.
Corpos preparados para o deserto de comida
Os isópodes de águas profundas são crustáceos achatados e segmentados, protegidos por um exoesqueleto rígido. Distribuem-se pelos oceanos Atlântico, Pacífico e Índico, com alguns exemplares atingindo entre 28 e 50 centímetros de comprimento. Possuem 14 patas articuladas que os mantêm adaptados aos ambientes mais extremos do planeta.
A pesquisa analisou duas espécies específicas: a Bathynomus jamesi, encontrada a cerca de 900 metros de profundidade no Mar da China Meridional. E a Bathynomus doederleini, localizada a aproximadamente 300 metros no Mar da China Oriental.
A comparação com parentes que vivem em águas mais rasas revelou como esses animais se especializaram em sobreviver onde o alimento chega de forma imprevisível e irregular.
Estômago gigante como armazém vivo
A estratégia de sobrevivência dos isópodes profundos funciona sob o princípio de "ganhar mais, gastar menos". O órgão central dessa tática é um estômago extraordinariamente grande, que pode ocupar cerca de dois terços da cavidade corporal dos animais que vivem em maiores profundidades.
Quando encontram alimento — restos de peixes, caranguejos e outros organismos que afundam do oceano superior — conseguem consumir quantidades massivas. Esse estômago hipertrofiado funciona como um armazém biológico, permitindo ao animal manter uma única refeição estocada por períodos que se estendem a anos.
Combinado com o metabolismo reduzido controlado pelo gene ND1, esse sistema garante que uma oportunidade de alimentação em ambientes de "noite perpétua e pressão esmagadora" sustente o isópode por tempo indefinido, até que a próxima refeição chegue das águas acima.




