Ciência

Fazer exercício físico é bom para o cérebro, mas novo estudo alerta para o contrário e aponta riscos

O achado oferece pistas sobre os problemas de sono associados ao excesso de treinamento.

Um estudo da Universidade de São Paulo mostrou que o excesso de exercício altera a química cerebral e eleva os níveis de dopamina durante o repouso. O achado oferece pistas sobre os problemas de sono associados ao excesso de treinamento.

Camundongos submetidos a oito semanas de corrida progressivamente mais exigente em esteira apresentaram níveis mais altos de dopamina em uma região do cérebro envolvida na memória e no humor do que os animais sedentários.

A diferença surgiu durante o período de descanso habitual. Nesse momento, a dopamina, substância que ajuda a regular o estado de alerta e a motivação, pode dificultar o relaxamento quando permanece elevada.

O achado oferece uma possível explicação para relatos de problemas de sono e ansiedade entre atletas submetidos a excesso de treinamento, embora os pesquisadores não tenham medido diretamente esses sintomas.

Como o experimento foi estruturado

Os pesquisadores acostumaram os roedores à esteira durante cinco dias, com corridas de dez minutos por dia a seis metros por minuto. Na primeira semana, a duração aumentou para 15 minutos, a 60% da velocidade máxima de cada animal.

A partir da quinta semana, a inclinação da esteira foi ajustada para 14% de declive, o que exigia mais esforço muscular do que correr em terreno plano.

As sessões se tornaram cada vez mais longas, enquanto o tempo de recuperação diminuiu progressivamente. Na oitava semana, os animais corriam duas vezes por dia durante 75 minutos cada sessão, com apenas quatro horas de intervalo entre elas.

Testes de desempenho realizados no início, na quarta semana e ao final mostraram que o condicionamento físico melhorou até a metade do programa, mas esses ganhos foram perdidos ao término.

O que a dopamina revelou no repouso

Dois dias após o último teste de corrida, os cientistas coletaram amostras do hipocampo, região cerebral ligada à memória e ao humor e que responde ao exercício. Em quatro horários: às 18h, à meia-noite, às 6h e ao meio-dia.

Os camundongos submetidos a excesso de treinamento apresentaram níveis de dopamina significativamente mais altos no hipocampo ao meio-dia, período em que esses animais noturnos normalmente descansam, em comparação com os sedentários.

O grupo com excesso de treinamento também apresentou níveis mais altos de tirosina hidroxilase, enzima que auxilia na produção de dopamina. A serotonina, outro composto químico cerebral associado à fadiga causada pelo exercício, permaneceu em níveis semelhantes nos dois grupos, o que favoreceu a proporção de dopamina em relação a ela.

Um segundo experimento, com 20 roedores que fizeram uma única corrida no início da noite, também mostrou elevação imediata da dopamina. Os níveis da enzima responsável por sua síntese, porém, caíram logo depois. Os pesquisadores acreditam que essa combinação pode refletir um estado de fadiga em que a demanda por dopamina supera a capacidade biológica de produzi-la.

Eles não confirmaram essa explicação porque mediram apenas a quantidade da substância no tecido cerebral, não a rapidez com que o cérebro a produz.

O significado para o desempenho atlético

Alisson Luiz da Rocha, pesquisador que conduziu os experimentos como doutorando na Universidade de São Paulo. Afirmou ao Earth que o excesso de exercício afeta não apenas o músculo esquelético, mas também o funcionamento cerebral.

A combinação de níveis elevados de dopamina e redução da enzima produtora pode refletir um estado de fadiga em que a demanda por dopamina supera a capacidade biológica de produzi-la.

O padrão observado oferece uma possível explicação para a dificuldade para dormir e o aumento da ansiedade relatados por alguns atletas submetidos a excesso de treinamento. Esses problemas poderiam estar ligados a esse desequilíbrio químico cerebral persistente durante horas críticas de repouso.

Se a dopamina ajuda na motivação e no estado de alerta, por que níveis altos durante o repouso podem ser prejudiciais?

A dopamina é benéfica durante o exercício porque mantém o atleta motivado e alerta. O problema surge quando ela permanece elevada durante o repouso. O corpo precisa alternar entre os estados de atividade, durante o esforço, e de descanso, durante a recuperação.

No repouso, a dopamina deveria cair para permitir que o cérebro relaxe, a tensão muscular diminua e o sono chegue naturalmente. Se ela continua alta nas horas de descanso, o cérebro permanece em estado de vigília, o que dificulta o adormecimento e aumenta a ansiedade — o oposto do que um atleta precisa para se recuperar.

Reflexão

Fernando Savater sobre a morte: Ela serve para nos fazer pensar, não sobre a morte, mas sobre a vida

A ideia central está em seu livro Las preguntas de la vida.

03/11/2026 17h59

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O filósofo Fernando Savater, aos 79 anos, retoma o tema da mortalidade em uma reflexão sobre como aproveitamos o tempo presente. Em texto publicado pelo El Confidencial, ele afirma que a morte não deve nos paralisar pelo terror, mas servir para organizar prioridades e aproveitar cada minuto que nos resta.

A ideia central está em seu livro Las preguntas de la vida. No qual Savater defende que reconhecer o próprio fim não nos lança no desespero nem em obsessões místicas, mas estrutura o sentido da vida cotidiana. A certeza de que a jornada termina transforma o presente na única parte tangível e urgente do tempo que temos.

A morte como espelho para viver

Para Savater, quando analisada de forma estrita, a morte é simplesmente nada, comparável ao negativo de uma fotografia. Tentar descobrir o que existe nessa escuridão equivale a se debruçar sobre um poço cego, sem revelação que possa ser desvendada.

Por ser um vazio absoluto, pensar nesse fim inevitável nos leva de volta à única realidade comprovável: a biografia que escrevemos dia a dia enquanto respiramos. A mortalidade aponta, assim, menos para o desconhecido do que para aquilo que fazemos agora.

É nesse desvio do pensamento — da morte para a vida — que reside a verdadeira utilidade de reconhecer nossa condição mortal.

O relógio como peso e propósito

A finitude é a moeda de troca de nossos atos cotidianos. Se a vida fosse ilimitada e fôssemos imortais, o relógio perderia qualquer valor prático: seria indiferente adiar uma iniciativa, uma decisão ou uma demonstração de afeto por séculos.

A certeza de que existe uma fronteira temporal dá pressa, seriedade e prioridades à agenda diária. Cada decisão ganha peso porque não pode ser adiada ou repetida infinitamente. Como o tempo não é inesgotável, o que fazemos hoje importa e marca nossa trajetória de forma irreversível.

Responsabilidade e liberdade na escolha

Sob essa ótica humanista, ter consciência de que vamos morrer nos torna responsáveis pelo rumo de nossa vida. Essa data-limite nos coloca diante da tarefa permanente de escolher, renunciar a alguns caminhos, apostar em outros e separar o que consideramos relevante. O medo da morte não precisa nos paralisar nem levar a fanatismos religiosos baseados em promessas de eternidade.

Savater nos incentiva a aceitar a vulnerabilidade física que compartilhamos e a transformar essa tensão em ações práticas: ampliar o conhecimento, cuidar dos relacionamentos e melhorar o que podemos transformar. Essa conversão do medo em ação diferencia quem apenas existe de quem realmente vive.

Citação histórica

Albert Einstein: A maturidade é quando nossa preocupação com os outros supera a preocupação conosco

Essa mudança não acontece automaticamente.

03/11/2026 17h38

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A maturidade não é apenas uma questão de passar dos anos — é uma transformação profunda no modo como nos relacionamos com o mundo e com as pessoas ao nosso redor. Segundo uma reflexão atribuída a Albert Einstein, esse processo marca a passagem do foco emocional de si mesmo para o bem-estar alheio, consolidando-se especialmente após os 60 anos.

O físico alemão definiu a maturidade como um deslocamento emocional genuíno: quando a preocupação com os outros passa a ser maior que a preocupação consigo mesmo. Essa mudança não acontece automaticamente — exige um trabalho interno contínuo de expansão da empatia além do interesse pessoal.

O desenvolvimento pessoal ao longo da vida

Nos primeiros anos, a concentração nas próprias necessidades é natural e até essencial. A sobrevivência e a construção da identidade pessoal exigem esse foco no eu. Quando avançamos para a maturidade real, porém, algo fundamental muda: as batalhas profissionais mais duras ficam para trás, e a pressão constante de provar nosso valor desaparece.

A sabedoria acumulada ao longo do tempo abre espaço para objetivos que transcendem o interesse pessoal. Nem todas as pessoas chegam a esse patamar — algumas carregam traços de egoísmo ou comportamentos regressivos mesmo em idade avançada, pois maturidade não é garantida apenas pelo tempo.

Ela demanda trabalho interno genuíno, disposição real para reconhecer que o bem-estar do outro influencia diretamente o nosso próprio.

Quem pratica escuta ativa, oferece paciência genuína e ajuda sem esperar validação em troca demonstra ter compreendido algo fundamental: a empatia profunda nasce quando observamos as necessidades alheias com o mesmo cuidado que devotamos às nossas. Essa capacidade marca uma diferença tangível no comportamento cotidiano e nas relações que construímos.

Amor e relacionamentos transformados

Nas relações afetivas, essa transformação altera completamente a dinâmica, e o amor maduro abandona a lógica da troca — aquela onde tudo se pesa pelo que se recebe. Uma pessoa realmente madura demonstra afeto quando se interessa genuinamente pelos sonhos e dificuldades do outro, sem esperar retorno equivalente.

Mas aqui entra um equilíbrio essencial: maturidade saudável não significa sacrifício constante nem abandono das próprias necessidades. Cuidar de si mesmo não é egoísmo — é a base para possuir a energia e a lucidez necessárias para ajudar quem está ao redor.

Medir o crescimento não pelos prêmios conquistados, mas pelas pessoas que estão presentes nas nossas decisões — esse é o caminho final para a verdadeira plenitude.

Einstein entendia o indivíduo como parte integral de uma comunidade planetária. Visão que coincide com filosofias como a budista, que descreve o bem comum como o estado onde as virtudes se colocam a serviço de toda forma de vida. Esse raciocínio nos convida a repensar não apenas quem somos, mas para quem existimos.

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