O filósofo Fernando Savater, aos 79 anos, retoma o tema da mortalidade em uma reflexão sobre como aproveitamos o tempo presente. Em texto publicado pelo El Confidencial, ele afirma que a morte não deve nos paralisar pelo terror, mas servir para organizar prioridades e aproveitar cada minuto que nos resta.
A ideia central está em seu livro Las preguntas de la vida. No qual Savater defende que reconhecer o próprio fim não nos lança no desespero nem em obsessões místicas, mas estrutura o sentido da vida cotidiana. A certeza de que a jornada termina transforma o presente na única parte tangível e urgente do tempo que temos.
A morte como espelho para viver
Para Savater, quando analisada de forma estrita, a morte é simplesmente nada, comparável ao negativo de uma fotografia. Tentar descobrir o que existe nessa escuridão equivale a se debruçar sobre um poço cego, sem revelação que possa ser desvendada.
Por ser um vazio absoluto, pensar nesse fim inevitável nos leva de volta à única realidade comprovável: a biografia que escrevemos dia a dia enquanto respiramos. A mortalidade aponta, assim, menos para o desconhecido do que para aquilo que fazemos agora.
É nesse desvio do pensamento — da morte para a vida — que reside a verdadeira utilidade de reconhecer nossa condição mortal.
O relógio como peso e propósito
A finitude é a moeda de troca de nossos atos cotidianos. Se a vida fosse ilimitada e fôssemos imortais, o relógio perderia qualquer valor prático: seria indiferente adiar uma iniciativa, uma decisão ou uma demonstração de afeto por séculos.
A certeza de que existe uma fronteira temporal dá pressa, seriedade e prioridades à agenda diária. Cada decisão ganha peso porque não pode ser adiada ou repetida infinitamente. Como o tempo não é inesgotável, o que fazemos hoje importa e marca nossa trajetória de forma irreversível.
Responsabilidade e liberdade na escolha
Sob essa ótica humanista, ter consciência de que vamos morrer nos torna responsáveis pelo rumo de nossa vida. Essa data-limite nos coloca diante da tarefa permanente de escolher, renunciar a alguns caminhos, apostar em outros e separar o que consideramos relevante. O medo da morte não precisa nos paralisar nem levar a fanatismos religiosos baseados em promessas de eternidade.
Savater nos incentiva a aceitar a vulnerabilidade física que compartilhamos e a transformar essa tensão em ações práticas: ampliar o conhecimento, cuidar dos relacionamentos e melhorar o que podemos transformar. Essa conversão do medo em ação diferencia quem apenas existe de quem realmente vive.


