<p>A araponga-comum, espécie sul-americana de plumagem branca com cerca de 27 centímetros de comprimento, pode produzir um canto de acasalamento de 130 decibéis. O nível supera o ruído na fileira mais próxima de um show de rock e o de uma furadeira em obra.</p>
<p>O registro também ultrapassa a marca anterior de 125 decibéis, medida em uma parenta da ave, a araponga-da-amazônia. A descoberta torna a espécie brasileira uma forte candidata ao posto de pássaro mais barulhento do planeta.</p><div class="bob-video" style="margin:18px 0"><iframe src="https://www.youtube.com/embed/SUv2Bjwpc_Y" width="560" height="315" frameborder="0" loading="lazy" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen=""></iframe></div><p><br></p>
<h2>O que explica tamanho volume</h2>
<p>Ecólogos comportamentais encontraram uma relação entre o porte físico das aves e a potência sonora que elas conseguem emitir. Exemplares mais pesados e com bicos mais largos projetam o som com maior eficiência, funcionando quase como alto-falantes dentro da mata.</p>
<p>João Menezes e Jeff Podos, da Universidade de Massachusetts Amherst, assinam o estudo publicado em 29 de setembro na revista Evolution.</p>
<p>A dupla reconhece que a causa evolutiva por trás desse extremo sonoro continua sem resposta definitiva. Comportamento de acasalamento, densidade do habitat e capacidade de voo foram avaliados, mas nenhum desses fatores explica o fenômeno em todas as espécies analisadas.</p>
<h2>Como começou a investigação</h2>
<p>A busca para entender esses extremos sonoros começou em meados de 2019, quando Podos e um colega classificaram a araponga-da-amazônia como a ave mais barulhenta já registrada até então.</p>
<p>Para ampliar a pesquisa, ele percorreu matas, pântanos e campos abertos no oeste de Massachusetts com um medidor de som de alta precisão e um telêmetro a laser, catalogando vocalizações de mariquitas, pardais e tordos.</p>
<p>Menezes, então em formação de pós-graduação, entrou no projeto para expandir a coleta de dados pelo Brasil. Ele mediu cantos de aves na Mata Atlântica, nas proximidades de São Paulo e nas montanhas ao redor do Rio de Janeiro, reunindo desde os sons suaves do besourinho-de-bico-vermelho até os ganidos da seriema.</p>
<h2>Um banco de dados inédito</h2>
<p>Ao final do levantamento, a dupla reuniu informações sobre o volume vocal de 123 espécies diferentes. Segundo os pesquisadores, o conjunto é o maior do tipo já compilado. O padrão identificado foi consistente: aves com maior peso corporal e bicos mais largos tendem a produzir cantos mais altos.</p>
<p>Segundo os pesquisadores, um corpo maior permite gerar mais pressão e fluxo respiratório durante a vocalização, enquanto a abertura do bico interfere diretamente na eficiência com que a energia sonora se espalha pelo ambiente.</p>
<p>Gabriel Mindlin, biofísico da Universidade de Buenos Aires, participou da análise desses mecanismos acústicos que tornam possível um canto tão intenso em um animal de dimensões relativamente modestas.</p>
<p>O mistério sobre a razão evolutiva desse comportamento segue em aberto, mas o registro de 130 decibéis já consolida a araponga-comum como um dos sons mais extremos já medidos na natureza.</p>
<h2>Por que um bico mais largo amplifica o som</h2>
<p>O bico funciona como a abertura de um alto-falante. Quando a ave emite o som dentro do corpo, a largura da abertura do bico determina quanta energia acústica consegue sair e se espalhar pelo ambiente.</p>
<p>Um bico estreito concentra o som em um feixe fino; um bico largo distribui essa mesma energia sonora em um padrão mais amplo, permitindo que mais pessoas (ou outras aves) o ouçam a distâncias maiores.</p>
<p>Além disso, um corpo maior permite à ave gerar mais pressão e fluxo de ar durante a vocalização — é como encher um balão grande versus um pequeno. Quanto maior o volume de ar que passa pelas estruturas vocais, maior a potência sonora disponível para ser emitida.</p>
<p>A combinação desses dois fatores — corpo grande gerando mais ar e bico largo distribuindo esse ar de forma eficiente — cria o efeito de um "alto-falante natural".</p>
<h2>Como começou a busca por aves mais barulhentas</h2>
<p>A pesquisa começou em meados de 2019, quando Jeff Podos e um colega estudavam vocalizações de aves e descobriram que a araponga-da-amazônia já era extraordinária: seus 125 decibéis a tornaram a ave mais barulhenta registrada até aquele momento. A possibilidade de que outras espécies fossem ainda mais barulhentas motivou uma investigação mais ampla e sistemática.</p>
<p>Podos começou sozinho, percorrendo matas, pântanos e campos abertos perto de sua casa no Massachusetts com equipamento de medição preciso. Depois, recrutou João Menezes, na época estudante de pós-graduação, para estender o trabalho ao Brasil, onde as arapongas são sul-americanas. A colaboração internacional transformou uma observação isolada em um projeto científico.</p>


