Citação histórica

Jorge Luis Borges: "Não odeies o teu inimigo, teu ódio nunca será melhor do que a tua paz"

A máxima resume o custo psicológico do ressentimento.

A reflexão de que quem nutre ódio por alguém se transforma em prisioneiro desse outro circula há anos atribuída ao escritor argentino Jorge Luis Borges. Quanto mais intensa a hostilidade, mais o suposto inimigo passa a governar o pensamento e as reações de quem o detesta.

A máxima resume o custo psicológico do ressentimento, e ao contrário de uma discordância ou aversão momentânea, o ódio persistente se instala na consciência e molda o cotidiano. Cada gesto ou palavra do outro passa a funcionar como gatilho para emoções intensas.

O preço da hostilidade estruturada

Quando alguém dedica energia mental ao ódio, a pessoa odiada ocupa espaço desproporcional em sua vida. Cada ação do suposto adversário ganha peso exagerado, como se um fio invisível ligasse os dois. Nesse estado, quem odeia não age conforme a própria vontade, mas reage ao que o outro provoca.

Essa dinâmica enfraquece a autonomia: as decisões passam a girar em torno da hostilidade, não da liberdade de escolha. A pessoa se torna dependente das atitudes alheias para definir o humor, as reações e até os planos.

A paz como ato de força interior

Manter a lucidez emocional exige renunciar ao rancor, e a paz interior não é fraqueza nem indiferença, mas a recusa em permitir que alguém domine o estado de espírito. Quando a pessoa preserva a calma diante de quem a ofendeu, recupera o controle sobre as próprias emoções e escolhas.

O ódio, por mais justificado que pareça a quem o sente, nunca restaura o que foi perdido. Apenas consome quem o carrega, e a paz preserva a clareza necessária para agir de acordo com os próprios valores, não com as provocações alheias.

A obra de Borges e suas explorações do paradoxo

Ao longo da carreira, Borges investigou paradoxos desse tipo em contos que misturam filosofia, fantasia e ficção científica. Seus textos apresentam mundos em que a lógica se inverte e as verdades habituais desmoronam.

O escritor argentino recriou o universo literário como um espaço de incerteza e ambiguidade. Em obras como "A Biblioteca de Babel", bibliotecários exploram corredores infinitos em busca de respostas e descobrem que o conhecimento total não diminui a confusão, mas a amplia.

Símbolos recorrentes na narrativa borgesiana

Em suas histórias, os labirintos representam um cosmos em que o sentido se esconde e o ser humano perambula sem saber ao certo qual é sua posição. As bibliotecas guardam toda a informação imaginável e toda ficção possível, mas nenhuma resolve o enigma de quem procura.

Borges também desafiava a percepção linear do tempo ao sugerir realidades paralelas, eternidades cíclicas e destinos alternativos. Espelhos e duplos aparecem em seus contos como metáforas de uma identidade fragmentada: a pessoa não é apenas uma, mas reúne múltiplas versões de si refletidas em superfícies que distorcem.

A ficção como ferramenta filosófica

O autor misturava intencionalmente fatos reais e invenções — referências históricas verdadeiras ao lado de livros e autores fictícios. Com isso, borrava a fronteira entre o que existe e o que nunca existiu e levava o leitor a questionar cada afirmação.

Essa ambiguidade sugere que, em um universo de incerteza e labirintos mentais, render-se à hostilidade é aceitar a prisão de uma ilusão. A reflexão sobre ódio e paz atravessa a obra de Borges e indica que a liberdade começa quando a pessoa se recusa a alimentar o ressentimento.

Como o ódio sequestra sua autonomia mental

Quando alguém alimenta ódio por outra pessoa, o alvo passa a funcionar como um controle remoto invisível de seus pensamentos e emoções. Cada movimento ou palavra do outro dispara reações automáticas: a pessoa deixa de escolher as respostas e apenas reage. É como se um fio ligasse os dois e qualquer ação de um movimentasse o outro involuntariamente.

Essa dinâmica inverte a relação de comando. Em vez de decidir como se sente e o que faz, a pessoa passa a ter o humor, as decisões e até os planos ditados pelo outro. A hostilidade persistente deixa de ser um sentimento isolado e passa a organizar a vida cotidiana, ocupando espaço desproporcional na mente e consumindo energia.

Por que Borges entendia tão bem os labirintos da mente

Borges trabalhou como bibliotecário e dirigiu a Biblioteca Nacional, experiências que o colocaram em contato permanente com a vastidão do conhecimento e com a impossibilidade de dominá-lo por completo. Essa vivência influenciou sua ficção: seus contos frequentemente retratam personagens perdidos em bibliotecas infinitas e labirintos, à procura de respostas que parecem sempre escapar.

A cegueira progressiva também moldou sua exploração simbólica da confusão mental e da perda de orientação. Sem depender da visão, Borges desenvolveu novas formas de criar símbolos literários por meio da imaginação.

Essa experiência de desorientação e busca ajudou seus escritos a expressar como a mente humana se perde em seus próprios labirintos, inclusive no labirinto criado pelo ódio e pelo ressentimento.

Reflexão

Schopenhauer, filósofo: "O homem comum preocupa-se em passar o tempo; o inteligente, em como usá-lo"

Essa máxima está presente em sua obra Parerga e Paralipómena.

30/10/2026 13h05

Foto: Reprodução

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A relação que cada pessoa estabelece com o tempo revela muito sobre sua vida interior. Arthur Schopenhauer, filósofo alemão nascido em 1788, sintetizou que o homem comum quer deixar o tempo passar, enquanto o inteligente reflete sobre como aproveitá-lo bem.

Essa máxima, presente em sua obra Parerga e Paralipómena, publicada em 1851, expõe uma divisão profunda entre dois modos de estar no mundo. De um lado, quem foge do vazio interior através de distrações superficiais; do outro, quem cultiva sua própria riqueza mental como defesa contra o tédio.

A forma como cada um passa as horas não é trivial — ela define, para Schopenhauer, a qualidade da existência e o grau de liberdade pessoal.

A luta entre o desejo e o tédio

Reconhecido como o principal expoente do pessimismo filosófico do século XIX. Schopenhauer via a existência humana como uma oscilação constante entre dois polos: o sofrimento causado por desejos não realizados e o tédio que surge quando esses desejos são saciados. Nesse intervalo, o tempo se torna um fardo.

Sem interesses profundos que o mobilizem, o homem comum sente as horas como inimigas a serem destruídas.

Ele busca fugir em entretenimentos banais, como fofocas, jogos de azar e diversões que adormecem o pensamento. Assim, evita enfrentar o vazio da própria mente. Para Schopenhauer, essa atitude condena a pessoa à banalidade, a uma vida passiva em que o tempo apenas transcorre sem deixar marcas de significado.

A inteligência como ponte para o significado

Em contraste, o homem inteligente não teme a solidão nem o ócio. Ele vê no tempo uma oportunidade para criar, aprender e conhecer. Sua capacidade de pensar transforma as horas em matéria-prima para a construção pessoal por meio da leitura, da ciência, da arte e da observação da natureza.

A contemplação estética era, para Schopenhauer, uma das principais formas de aliviar o sofrimento e preencher a existência com propósito.

O filósofo afirmava que a felicidade verdadeira brota de dentro do sujeito. Quanto mais rico é o espírito, menos espaço sobra para o tédio ocupar. Isso não significa estar sempre fazendo algo: significa escolher conscientemente atividades que tragam valor real. Ler com atenção, ouvir música com presença ou descansar de forma consciente constituem formas legítimas de construção pessoal.

Uma reflexão para o tempo presente

Autor de O mundo como vontade e representação, publicado originalmente em 1818, Schopenhauer construiu seu pensamento sob forte influência das teses de Immanuel Kant. Destacou-se pela prosa clara, rara entre os filósofos de sua época, e manteve atuais suas reflexões sobre morte, felicidade e religião.

Hoje, em uma sociedade que valoriza a produtividade visível, a filosofia schopenhaueriana oferece um convite à pausa reflexiva. A pergunta central permanece válida: cada pessoa gasta suas horas em objetivos que importam, ou apenas procura formas de escapar da angústia?

O filósofo não pregava o trabalho frenético como sinônimo de sucesso — apenas que a qualidade do tempo depende inteiramente do propósito que cada um lhe atribui. A diferença, no fim, reside na decisão consciente de quem usa sua inteligência para transformar o vazio em um espaço de crescimento pessoal.

Quando aproveitar bem o tempo não significa estar sempre ocupado

A distinção de Schopenhauer entre o homem comum e o homem inteligente não está em quem trabalha mais ou faz mais coisas. Descansar conscientemente, sem culpa, também é uma forma inteligente de usar o tempo.

Dormir bem, repousar a mente e estar em silêncio — atividades aparentemente "passivas" — podem contribuir para a construção pessoal quando feitas com presença e intenção, não como fuga.

O erro seria pensar que o homem inteligente está sempre produzindo algo visível. Schopenhauer deixa claro que a felicidade verdadeira brota de dentro, e às vezes isso requer simplesmente parar. A qualidade do repouso importa mais que a ausência dele.

O que significa transformar sua vida interior em defesa contra o tédio

Se a vontade irracional causa sofrimento constante e o tédio surge quando os desejos são atendidos, a pessoa fica presa entre dois males. Schopenhauer propõe cultivar uma vida interior rica, por meio da leitura, do aprendizado e da contemplação, para reduzir o espaço ocupado pelo tédio.

Um espírito vazio sente as horas como um peso; um espírito rico tem recursos próprios para preenchê-las.

Na prática, essa autossuficiência mental se torna a melhor proteção. A pessoa deixa de depender tanto de distrações externas, de outras pessoas ou de situações para se sentir viva. A autonomia valorizada por Schopenhauer consiste em usar a inteligência para não se tornar escravo do tédio nem do desejo desesperado.

Tecnologia

O futuro chegou: dispositivo com IA permite enviar e receber cheiros pela internet

O dispositivo é chamado Scentronic.

30/10/2026 12h37

Foto: Eren Li/Pexels

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Cientistas da Universidade Estatal de Ohio e do Laboratório Zhejiang desenvolveram um sistema capaz de identificar aromas, transmiti-los pela internet e reproduzir fragrâncias semelhantes em outro local. O dispositivo, chamado Scentronic, combina sensores eletrônicos com inteligência artificial e pequenos emissores de aroma para que pessoas consigam sentir cheiros a distância.

A tecnologia pode acrescentar o olfato às comunicações digitais, que já permitem compartilhar imagens, sons e vídeos, mas ainda não transmitem cheiros. O estudo foi publicado na revista Science Advances e demonstra o potencial de adicionar mais uma dimensão aos ambientes virtuais.

Como funciona o nariz eletrônico

O Scentronic começa com um nariz artificial que analisa as substâncias presentes no ar para identificar cada aroma. Seis sensores reagem aos compostos químicos liberados por alimentos e bebidas e capturam informações que um algoritmo de aprendizagem automática processa para reconhecer padrões treinados para cada fragrância.

Após identificar o odor, o sistema envia um sinal digital pela internet até um dispositivo receptor equipado com pequenos depósitos de líquidos aromáticos. Um mecanismo acionado por impulsos elétricos transforma o líquido armazenado em gotículas minúsculas que se dispersam no ar, reproduzindo a fragrância detectada pelo nariz artificial.

Resultados dos testes e aplicações práticas

Nos ensaios iniciais, o Scentronic identificou cinco categorias de aromas cotidianos — café, cerveja, vinho tinto, laranja e torta — com precisão superior a 96%. Nos testes com pessoas, porém, os voluntários reconheceram corretamente cheiros isolados em aproximadamente 73% dos casos.

Com combinações de dois aromas, o acerto caiu para próximo de 71%. Os pesquisadores veem potencial em incorporar aromas a ambientes de realidade virtual, permitindo que usuários sintam determinadas fragrâncias durante experiências imersivas.

A tecnologia também poderia ser usada em videochamadas para compartilhar o aroma de uma refeição ou no comércio eletrônico, oferecendo novas formas de conhecer fragrâncias antes da compra.

Os desenvolvedores também estudam aplicações médicas. O sistema poderia servir para realizar avaliações olfativas a distância, ferramenta potencialmente útil para estudar alterações ou perdas do sentido do olfato, embora sua utilização clínica ainda requeira novas provas.

Por enquanto, o Scentronic permanece como protótipo de laboratório. Suas principais limitações incluem ter sido testado apenas com cinco categorias de aromas e exigir que as fragrâncias estejam previamente disponíveis. Além disso, o sistema identifica aromas gerais, mas ainda carece da capacidade de reproduzir com precisão a complexa composição química de qualquer odor.

Por que o algoritmo precisa ser "treinado" para cada aroma

O Scentronic não consegue reconhecer um aroma novo por instinto. Os sensores eletrônicos capturam sinais químicos brutos, mas precisam de um "treinamento" prévio para entender o que aquele padrão significa. É como ensinar uma criança: você mostra várias vezes o cheiro de café até que ela aprenda a identificá-lo sozinha. No caso do sistema, o algoritmo de aprendizagem automática analisa muitos exemplos de café, cerveja, vinho tinto, laranja e torta, aprendendo as características únicas de cada um. Sem esse treinamento, o dispositivo não consegue reconhecer nem reproduzir fragrâncias que não tenha "estudado" antes.

Por que o sistema precisa de pequenos depósitos com fragrâncias já prontas se ele consegue "detectar" cheiros?

Uma dúvida comum é pensar que, se o Scentronic consegue analisar um aroma no ar, ele poderia simplesmente "criar" aquele cheiro do zero. Mas não funciona assim. O sistema detecta e envia informações sobre o que foi identificado — uma espécie de "receita digital". O dispositivo receptor, porém, não pode fabricar moléculas de aroma a partir do nada. Ele precisa ter os líquidos aromáticos já guardados em seus depósitos. Quando recebe a instrução de reproduzir café, por exemplo, ele libera o líquido de café que já estava armazenado. É como ter um piano e tocar uma música: o instrumento reconhece qual nota deve soar, mas precisa das cordas e das teclas prontas para funcionar.

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