A frase "Se pudesse viver novamente, tentaria cometer mais erros." é uma das falsas atribuições mais célebres ao escritor argentino Jorge Luis Borges. O texto circulou pelo mundo como se tivesse saído da pena do autor de "O Aleph", mas pesquisas literárias revelam uma história bem diferente de autoria e apropriação.
O poema completo, conhecido como "Instantes", ganhou notoriedade global na década de 1970, quando a norte-americana Nadine Stair, de 85 anos, o publicou.
No texto integral, que começa com "Se pudesse viver novamente minha vida, na próxima trataria de cometer mais erros", o tom é simples e voltado à autoajuda, bem distante da prosa intrincada e filosófica que caracteriza a obra de Borges.
A batalha pela verdade
María Kodama, viúva do escritor argentino, e a Fundação Jorge Luis Borges passaram anos esclarecendo o erro de atribuição. As duas rejeitaram publicamente a falsa autoria e apontaram que o estilo genérico e motivacional do poema não corresponde em nada ao rigor intelectual de Borges.
Mas a confusão é anterior à publicação de Nadine Stair. Rastreamentos literários apontam o humorista americano Don Herold como possível fonte original do texto, em 1953 — mais de duas décadas antes de Stair publicar sua versão.
O legado real de um mestre
A obra autêntica de Jorge Luis Borges revolucionou a literatura do século XX ao fundir filosofia, fantasia, ensaio e ficção científica em contos de poucas páginas. Seus textos exploram paradoxos, infinitos e labirintos mentais — universos que nada têm a ver com o otimismo pragmático de "Instantes".
A persistência dessa atribuição equivocada é, ironicamente, uma lição sobre como as palavras viajam descontextualizadas e ganham vida própria. Borges, pensador obsessivo com os mistérios da linguagem e da memória, talvez reconhecesse nisso um de seus próprios labirintos.



